A curiosa falta de curiosidade – Artigo

Roberto Pereira D’Araujo

Esse artigo não trata do setor elétrico. O site do ILUMINA está repleto de números, análises e fatos sobre esse serviço tão essencial ao Brasil. Quem quiser se concentrar na eletricidade é só navegar pelo site.

Hoje, para variar, o tema é uma característica que poderíamos chamar de cultural ou sociológica, a falta de curiosidade da sociedade brasileira.

 Antes que alguém argumente que o problema central é educação, tese que não discordamos, pelo menos aqui, essa não é característica divisória. O que se vê é que, mesmo nas classes mais educadas há essa espécie de ausência de curiosidade sobre a própria história econômica do Brasil. Muito estranho e curioso porque, hoje, com a internet, esses números estão acessíveis para todos que tenham “curiosidade”.

Por exemplo, dia 09 de setembro, abaixo, a manchete do jornal brasileiro mais lido na área econômica.

  • Curiosidade número 1: A frase já é impressionante, pois, se a intenção é fazer com que a economia brasileira alcance os padrões de países desenvolvidos, seria natural ficar curioso sobre a existência de estatais nessas economias.

Essa curiosidade pode ser satisfeita numa simples consulta à Wikipedia, que não é exatamente a perfeição, mas o suficiente para deixar evidente que todos os países têm empresas controladas pelo governo. Sugerimos consultar Alemanha, França, Canadá, Estados Unidos, Coréia do Sul como exemplos.

https://en.wikipedia.org/wiki/Category:Government-owned_companies_by_country

  • Curiosidade número 2 : Seria natural perguntar se o Brasil já passou por um processo de privatização de estatais e se foi algo significativo.

Essa curiosidade pode ser satisfeita a partir de dados do BNDES, que foi o órgão responsável pela privatização da década de 90 e já foram divulgados aqui no site.

http://www.ilumina.org.br/a-sociedade-iludida-por-miragens-artigo-e-dados/

O mundo nunca registrou um processo semelhante em tamanho e realizado em tão curto prazo. Para se ter uma ideia da enorme dimensão do Plano Nacional de Desestatização (PND) e das privatizações estaduais, eis a lista de algumas empresas vendidas por setor (dados do BNDES). Esses dados incluem privatizações realizadas até 2006, portanto incluindo o governo Lula.

  • Siderurgia – Usiminas, Cosinor, Piratini, CST, Acesita, CSN, Cosipa e Açominas.
  • Petroquímica – Petroflex, Copesul, Copene, Polisul, Petroquímica União, Polipropileno, Álcalis, e mais 19 pequenas indústrias.
  • Fertilizantes – Indag, Fosfértil, Goiásfértil, Ultrafértil, Arafértil.
  • Elétrico – Escelsa, Light, Gerasul, CERJ, COELBA, Cachoeira Dourada, CEEE, CPFL, CEMAT, Energipe, Cosern, CELPE, CESP Paranapanema, CESP Tietê, CEMAR, Eletropaulo.
  • Transportes – Malhas da Rede Ferroviária Federal, Mafersa, Ferroeste, Metrô, Conerj, Flumitrens, Menezes Cortes.
  • Mineração – Caraíba, Vale do Rio Doce.
  • Portos – Santos, Capuaba, Sepetiba, Rio, Angra, Salvador
  • Financeiro – Meridional, Banespa, BEG (Goiás), BEA (Amazônia), BEM (Maranhão), BEC (Ceará), BEMGE (Minas), Bandepe (Permanbuco), BANEB (Bahia), BANESTADO (Paraná).
  • Gás – CEG, Riogás, COMGÁS, Gás Nordeste e Gás Sul.
  • Outros – EMBRAER, DATAMEC.
  • Telecomunicações – CRT (Rio Grande do Sul), TELESP, Tele Centro Sul, Tele Norte Leste, Embratel, Telemar.
  • Curiosidade número 3: Qual foi o resultado dessa verdadeira liquidação?

Também pode ser satisfeita a partir de dados do BNDES: Total arrecadado US$ 105.898 milhões de dólares.

  • Curiosidade número 4: Como esse número se compara com outras grandezas da economia brasileira?

A preços de hoje, esse valor equivale a aproximadamente R$ 450 bilhões. Uma comparação curiosa! Abaixo, a evolução da renúncia fiscal do governo nos últimos 9 anos. É possível ver que bastam dois anos dessa renúncia para atingir o valor arrecadado pelas quase 80 empresas estatais.

Atenção: Não estamos defendendo a tese de que essas empresas não devessem ser vendidas! Estamos apenas “curiosos” sobre a nossa expertise no complexo negócio da privatização de empresas construídas pelo estado.

  • Curiosidade número 5: Qual foi o impacto desse processo na dívida pública brasileira?

Curiosidade satisfeita com base em dados do Banco Central. Abaixo, a dívida como % do PIB diferenciada por cores conforme os governos.

Curiosidade número 6: E a carga fiscal, como evoluiu?

Abaixo a evolução que mostra que ela saltou de 28,5% para quase 37% em pouco mais de 10 anos, apesar de ter se reduzido ligeiramente a partir de 2015.

  • Curiosidade número 7: Existe alguma relação entre investimento público (aí incluído o investimento das estatais) e o crescimento do PIB?

Curiosidade satisfeita a partir de dados do IBGE, onde as barras marrons vão de 1948 até 1989 e as azuis de 1990 até 2018.

Investimento Público médio 1948 – 1989 como % do PIB – 9,38%

Crescimento médio do PIB 1948 – 1989: 6,4% ao ano.

Investimento Público médio 1990 – 2018 como % do PIB – 5,47%

Crescimento médio do PIB 1990 – 2018: 1,1% ao ano.

 

  • Curiosidade número 8: Na atual situação do país, onde o setor público irá reduzir seu investimento quase a zero e sem as estatais que serão vendidas, o que acontecerá com a economia brasileira?

Essa curiosidade nós não podemos responder. Só é interessante chamar a atenção de que o processo da década de 90 é muito semelhante à atual e nós não percebemos nenhum indício de que dessa vez será diferente.

O que é curioso é a falta de curiosidade!

 

 

 

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      2 comentários para “A curiosa falta de curiosidade – Artigo

    1. Fabrício B. Aguirre
      10 de setembro de 2019 at 17:00

      Fico curioso com uma comparação de nosso PIB com de outros países.
      O último gráfico, se fosse acrescido de uma linha com a média do crescimento de algum grupo de países (América Latina, OCDE, BRICS), mostraria mais claramente a influência do investimento público, pois parte do PIB é devido à fatores externos e os governos pouco podem fazer.

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