A Sobrecarga da Terra e o Brasil na Contramão – Artigo

Roberto Pereira D’Araujo

Evidentemente não se pretende demover o ceticismo sobre o aquecimento global que toma conta das autoridades do atual governo. Essa visão é muito mais ideológica do que baseada em fatos e dados reais.

Segundo informes e projeções das Nações Unidas, de acordo com o aumento da população e do consumo, há estimativas de que em 2030, serão necessários 2 planetas Terras para responder ao nível de demanda de utilização de recursos naturais, se a humanidade continuar no ritmo em que se encontra.

A nosso ver, as questões que estão na base desse problema, o consumismo, a exploração dos recursos naturais e o desmatamento crescente estão fortemente conectados ao setor elétrico brasileiro. É óbvio que um sistema cuja energia depende quase 70% dos rios deveria estar preocupado com essa ampla discussão.

Como se sabe, dentre os gases de efeito estufa, o dióxido de carbono é a principal emissão associada à atividade econômica, principalmente ao setor energético. Em termos absolutos, evidentemente o Brasil não está entre os grandes poluidores do planeta.

Mas, quando se avalia a emissão de CO2 por unidade de atividade econômica, o Brasil está “mal na foto”.

Isso quer dizer que o Brasil, por unidade de US$ de PIB, é um dos grandes poluidores do mundo e é fácil entender a razão.

Apesar do papel “limpo” do setor elétrico, por conta do setor de transportes rodoviários, o Brasil consome mais Petróleo e Derivados do que a média mundial. Mas, o pior é que, remando “contra a corrente”, o Brasil não melhora sua eficiência energética, ao contrário do mundo.

 

Mesmo no setor elétrico, o Brasil não é assim tão inocente, pois, como já mostramos aqui, de 2006 até 2018, na contramão do mundo, o Brasil triplicou sua capacidade de usinas térmicas, principalmente óleo combustível e diesel.

A grande mudança que ocorrerá no planeta, principalmente nos países desenvolvidos, será o avanço da energia elétrica em atividades tradicionalmente atendidas pelos combustíveis fósseis. O papel do petróleo na economia mundial começa a sofrer uma mudança que pode ser significativa. Exemplo: O fundo soberano da Noruega, o maior do mundo e sustentado com petrodólares, vai abandonar as empresas de petróleo para reduzir a exposição do país escandinavo ao combustível, anunciou o governo norueguês.

“O objetivo é reduzir a vulnerabilidade de nossa riqueza comum ante um retrocesso permanente dos preços do petróleo”, afirmou a ministra das Finanças, Siv Jensen, em um comunicado”. (Revista Exame 8/03/19).

Mas não é só no desmatamento que o Brasil está remando contra a corrente. Considerando todo esse cenário, é inacreditável que o Brasil esteja prestes a perder sua grande empresa pública, a Eletrobras. Não só ela foi a responsável pelo desenvolvimento do sistema integrado que temos, como criou o maior centro de pesquisa em energia elétrica da América, o CEPEL, um órgão que será cada vez mais essencial para o desenvolvimento de tecnologia para essa nova era elétrica.

É preciso lembrar que o CEPEL, entre muitas outras atividades, tem laboratórios com capacidade de operar altas correntes e ultra altas tensões único na América Latina. Também assessora concessionárias de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, bem como fabricantes de dispositivos e equipamentos.

Mas, o mais importante, é que o CEPEL é o desenvolvedor da metodologia de operação e planejamento do setor elétrico brasileiro, uma atividade que agrega todo o interesse público desse nosso singular sistema. Seria inadmissível que essa função seja assumida por órgãos privados, uma vez que ela agrega muitos interesses conflitantes.

Infelizmente, esse cenário de desmonte da capacidade do estado organizar as atividades econômicas em prol do coletivo é crescente. O país não sabe que direção tomar e imagina que o setor privado é que deve decidir. Por sua vez, fica cada vez mais óbvio que aqui o capital não se comporta como o faz em países desenvolvidos. O setor privado, principalmente o capital estrangeiro, não vai se arriscar em países sem projeto. Ilude-se a sociedade com a entrada de recursos para adquirir empresas prontas que, uma vez adquiridas, geram caixa no dia seguinte. Para grande parte da mídia, isso é investimento. Nada novo, nada estratégico e nada atento às questões que hoje movimentam o planeta.

Quem quiser ler um pouco sobre a sobrecarga, acesse:

https://www.wwf.org.br/?66763/Dia-da-Sobrecarga-da-Terra-de-2018-e-em-1-de-agosto

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      1 comentário para “A Sobrecarga da Terra e o Brasil na Contramão – Artigo

    1. Letícia
      29 de julho de 2019 at 14:40

      Excelente texto, Prof. Roberto. Simples e direto ao ponto.
      Sinceramente não tinha me atentado para a questão do CEPEL. Ela fará parte do escopo da privatização? É isso mesmo? O maior grupo de pesquisas em energia elétrica da América Latina ficará sob comando de entes e interesses privados?

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