Aneel revisa cálculos e preço de energia pode subir – Valor

http://www.valor.com.br/brasil/5165086/aneel-revisa-calculos-e-preco-de-energia-pode-subir

Análise do ILUMINA: Os gráficos abaixo mostram a evolução das energias naturais (afluências) dos 4 sistemas regionais. O eixo vertical mostra o percentual da média histórica. A curva pontilhada é a média móvel de 12 meses.

  • No período 2004 – 2017, o simples exame visual desses dados mostra uma situação preocupante.
  • A única região que registrou afluências crescentes foi a Sul.
  • Tanto o Sudeste e Norte mostram tendência decrescente, mas não tão grave como o caso do Rio S. Francisco.
  • Portanto, nada mais contundente do que a região Nordeste. Como já mostramos aqui, essa tendência é decrescente desde a década de 90.

Isso não quer dizer que a situação atual não tem semelhante no histórico de 87 anos (desde 1930). Ver gráfico abaixo.

Há muito o que se comentar, mas, é preciso chamar a atenção aos aspectos que foram esquecidos nos últimos 20 anos.

  • Usinas hidroelétricas não são meras fábricas de kWh. O modelo mercantil cometeu o erro de adotar exatamente essa filosofia.
  • Assim como usinas térmicas têm que cuidar do estoque de combustível, usinas hidroelétricas precisam cuidar dos seus rios.
  • Não se pode colocar a culpa total em S. Pedro. O desleixo com as matas ciliares e o desmatamento está mostrando o efeito colateral do mercantilismo.
  • O tipo de expansão feita nos últimos anos baseada em usinas térmicas caras e grandes projetos problemáticos (Belo Monte e Usinas do Madeira) gerou um uso abusivo da reserva.
  • Incertezas e ofertas de energia caras foram também responsáveis por uma gestão muito estranha no período 2009 – 2012.
  • Apesar dos sinais, as térmicas só atendiam a 10% da carga até o anúncio da medida provisória que prometia redução de tarifa às custas da Eletrobras (setembro de 2012). Em outubro de 2012 dobraram a geração.
  • O Ilumina afirma que, seguramente, a tarifa irá subir.

Nesse sentido, é extremamente preocupante a anunciada privatização da Eletrobras. Apesar do uso político da empresa, que, além de reconhecer, sempre criticamos, se há alguma chance de reverter essa situação é através de uma empresa pública e estratégica que possa atuar como gestora de “objetos geográficos” como são os reservatórios.

Abaixo, trechos da reportagem.

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Rodrigo Polito e Camila Maia

 

Os baixos níveis dos reservatórios e as chuvas abaixo da média para a época do ano acenderam um sinal vermelho para o governo. Embora o risco de racionamento continue sendo quase inexistente, o preço da energia gerada está cada vez maior – pelo acionamento de termelétricas mais caras, por exemplo -, e a arrecadação atual do mecanismo das bandeiras tarifárias já não consegue mais arcar com o custo.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) pretende revisar a metodologia de definição das bandeiras tarifárias, a fim de reduzir a volatilidade dos preços e incluir, no cálculo, o nível dos reservatórios das usinas. Segundo Tiago Correia, diretor da autarquia e relator do processo sobre o assunto, a metodologia atual contém muita volatilidade, acumula déficits e não dá o sinal correto ao consumidor. A agência também vai discutir novos valores para os patamares de preços das bandeiras.

“Colocamos [a metodologia] em revisão com urgência urgentíssima. [A conta da bandeira] está deficitária em 2017. Isso gera um problema para o pagamento das próximas faturas”, afirmou Correia, admitindo que a agência “errou a mão” no começo do ano ao fixar os patamares das bandeiras. “[A mudança da metodologia é] para reduzir a volatilidade dela, para que o sinal seja efetivo. O consumidor não pode ficar recebendo sinais contraditórios”.

O Valor apurou que a arrecadação relativa à bandeira tarifária em setembro foi da ordem de R$ 1 bilhão, enquanto o custo de operação do sistema para as distribuidoras foi de cerca de R$ 4 bilhões. Até o fim do ano, as distribuidoras terão impacto total de R$ 6 bilhões, que só poderá ser repassados para o consumidor nos reajustes anuais, segundo expectativa do presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Nelson Leite.

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A mudança proposta na metodologia é técnica. Para efeito da definição da cor da bandeira, a nova metodologia deve considerar, além do custo de geração térmica para o mês de referência pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o indicador de garantia física hidráulica das hidrelétricas, medido pelo GSF (na sigla em inglês).

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O nível dos reservatórios também deve ser considerado na conta. Na sextafeira, as hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste tinham 19,54% da capacidade dos reservatórios. Furnas, que representa 17,18% do subsistema, tinha 13,88% do volume útil. No Nordeste, as usinas tinham 7,22% da capacidade, sendo que Sobradinho, que concentra 58,26% do subsistema, tinha 3,62% do total.

A discussão sobre a revisão das bandeiras tarifárias ocorre em meio a primeira crise energética enfrentada pelo governo Temer. Segundo cálculos do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, com base em números do ONS, o regime hidrológico dos últimos 12 meses concluídos em setembro, de 74,5% da média histórica, é o pior registrado no país desde o início da crise hídrica, no fim de 2012. “A hidrologia nunca esteve tão ruim”, disse o professor Roberto Brandão, autor do estudo. De acordo com ele, porém, nos últimos anos a capacidade instalada do sistema cresceu bastante, com o início de operação das usinas de Santo Antônio, Jirau, Teles Pires e parte de Belo Monte, ao mesmo tempo em que o consumo caiu bruscamente, devido à crise econômica. “O risco de racionamento hoje é muito baixo”, disse.

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O diretor-geral da Aneel destacou que o CMSE solicitou à Petrobras que tente viabilizar gás natural para a termelétrica de Cuiabá, controlada pela J&F. A estatal rompeu o contrato de fornecimento em junho. “Respeitamos o problema comercial entre a Petrobras e a detentora da térmica, mas o setor elétrico está abrindo mão de recursos importantes. É uma térmica mais eficiente que outras que estamos despachando por ordem de mérito”, disse Rufino.

Para a indústria, outra preocupação é o potencial de impacto tarifário com a “descotização” da energia das hidrelétricas que tiveram as concessões renovadas pela (MP 579, em 2012. De acordo com a Fiesp, o impacto pode ficar entre R$ 396 bilhões e R$ 528 bilhões ao longo de 30 anos das concessões.

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      2 comentários para “Aneel revisa cálculos e preço de energia pode subir – Valor

    1. Adilson de oliveira
      23 de outubro de 2017 at 11:09

      Helas!
      Finalmente o cerne do problema do sistema elétrico é reconhecido.
      Parafraseando o marqueteiro do Clinton:

      É a gestão dos reservatórios, estúpido

      • Roberto D'Araujo
        23 de outubro de 2017 at 11:53

        Adilson;
        Nós sempre apontamos essa estupidez. Ela só estava disfarçada pela “sobra” artificial de energia, pela boa vontade de S. Pedro e pela relativa grandeza da reserva. Você sabe disso!

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