As perguntas do ILUMINA – Análise

Roberto Pereira D’Araujo

As matérias sobre a crise do vírus popularizaram os gráficos. Aproveitando essa abertura, apesar do setor elétrico ter deixado de ter algum protagonismo, vamos aproveitar para apresentar uma medida que conta uma história recente na gestão do setor, o fator de capacidade.

Resumidamente, ele mede quanta energia é gerada a partir de uma teórica capacidade máxima de produção.

Por exemplo, calcula-se uma hipotética energia máxima que pode ser produzida com 1 MW instalado. Para isso, basta multiplicar o 1 MW pelo número de horas do mês, que, em média são 730 horas. Sabendo-se quanta energia real esse MW foi capaz de gerar, basta dividir essa grandeza pela energia máxima. Por exemplo, se essa usina de 1 MW gera 500 MWh no mês, seu fator de capacidade é 500/730 = 68,5%.

Como a maioria das nossas usinas são hidráulicas, o típico fator dessas usinas gira no entorno de 55%.

Dito isso, o gráfico abaixo mostra a evolução do FC de todo o sistema. Fica claro que estamos precisando cada vez mais capacidade instalada para gerar uma certa quantidade de energia, pois esse fator está se reduzindo.

Em 2006, a cada mês, precisávamos aproximadamente 2 MW para gerar 1 MW médio (FC ~ 50%). Em 2020 precisamos 2,5 MW para gerar o mesmo 1 MW médio. Um aumento de 25% no FC, ou mais 25% de usinas capacitadas a gerar a energia que consumimos.

O que pode causar isso? Reparem o ponto de interrogação ao final de cada item:

  1. Uma redução das afluências dos rios brasileiros. A matéria prima das hidráulicas, as afluências, estão se apresentando abaixo da Média de Longo Termo? Em algum momento isso implica em redução de geração hidráulica.

Ver http://www.ilumina.org.br/sera-que-foi-a-greta-thunberg-artigo/

  1. Entrada de fontes com fator de capacidade mais baixo. Belo Monte, usinas do Rio Madeira. Eólicas e Solar, mas ainda em níveis baixos?
  2. Como a capacidade térmica triplica nesse período e elas não geram sua energia (substituídas por fontes mais baratas), acrescenta-se capacidade sem a respectiva geração?
  3. A lógica operativa de minimização de custos, ao ponderar o uso da água com o alto custo de geração térmica, por vezes posterga a economia de água (período úmido). Isso leva a um esvaziamento extra da reserva que, mais tarde, reduz fortemente a geração hidráulica?
  4. A queda do crescimento da demanda, que passou de 3% ao ano para 1,5%, poderia causar esse efeito sozinha?

Agora, reparem no fator de Capacidade Hidráulico. A partir de setembro de 2012, a sempre estranha coincidência com a medida provisória que reduziu artificialmente as tarifas, bizarrice que o Ilumina já apontou há tempos.

Ao contrário da média anterior de 55%, em alguns meses esse valor cai para 35%! Nesses meses temos quase 2,9 MW para gerar 1 MW médio. Ou seja, geramos pouca energia comparada a capacidade instalada de hidráulicas.

Essa oscilação mostra que, independente, do baixo nível dos reservatórios (ver gráfico abaixo), no período úmido decide-se usar as hidráulicas no seu máximo. Na realidade, parece que não há mais a preocupação de recuperação dos níveis da reserva!

O gráfico da geração hidráulica também total mostra isso.

O que pode estar por trás dessa mudança?

  1. A capacidade instalada no período vermelho aumentou cerca de 20.000 MW, principalmente com a entrada das usinas do rio Madeira e de Belo Monte. Essa mudança global de comportamento pode ser justificada pelas entradas dessas usinas?
  2. A reserva deixou de ser importante pelo aumento de capacidade térmica?
  3. A reserva deixou de ser importante pela entrada das novas renováveis?
  4. Em função do déficit hidrológico (GSF) que causa prejuízos às hidroelétricas (as atingidas pela MP 579 transferem para as distribuidoras), tenta-se reduzir esse déficit no período úmido?
  5. A oferta térmica que se triplicou tem custos de geração altos. Essa oferta cara, na realidade, adia seu uso e obriga geração hidráulica?

Agora, uma troca de ideias sobre a crise do COVID.

Esse fator de capacidade vai cair ainda mais. Ou seja, capacidade em excesso, custos que terão que ser cortados.

A queda de demanda ainda não apareceu nesse histórico da operação do ONS. Acreditamos que vamos tangenciar um caos parecido ao do racionamento de 2001. Certamente vai haver inadimplência, judicialização e ajuda do governo.

Mas, o mercado livre ainda tem os mesmos defeitos desde a origem, pois voltaremos a ter o absurdo subsídio ocluso do PLD emulando o CMO. Ou seja, contratos de médio prazo serão contestados e, como o PLD vai ficar no entorno do piso (R$ 39,68/MWh), voltaremos a ter contratos mensais que capturam a “vantagem” da sobra exclusivamente para o mercado livre.

Enquanto isso, o governo já pensa em reeditar os “empréstimos para comprar kWh” que ocorreu em 2014. Mais uma vez o mercado cativo paga o pato?

  1 comentário para “As perguntas do ILUMINA – Análise

  1. ROLDAO LIMA JUNIOR
    10 de abril de 2020 at 18:06

    Geração eletronuclear já!

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