Bandeiras tarifárias – Truques de mágica.

Roberto Pereira D’Araujo

O mês de agosto de 2019 começa com a cobrança de bandeira vermelha.

Para atualizar,

  • a amarela cobra R$ 1,5 por cada 100 kWh
  • a vermelha 1º patamar, R$ 4 por cada 100 kWh
  • a vermelha 2º patamar, R$ 6 por cada 100 kWh.

O discurso da ANEEL é de que elas são “um sinal econômico para que o consumidor se oriente na gestão do seu consumo”.

Há vários “truques” que não são percebidos pelo consumidor. Pedindo desculpas aos “magos”, o Ilumina revela os artifícios.

  1. Desmontando o 1º truque:

R$ 4 por cada 100 kWh parece barato. Só que nenhum país usa essa unidade para tarifa. R$ 4 por 100 kWh significam R$ 40/MWh esse sim um valor que se pode usar para ser comparado a qualquer outro. Portanto, vamos deixar tudo transparente.

  1. Desmontando o 2º truque:

Olhe sua conta e procure o valor apenas da energia. Você vai achar algo como R$ 0,32/kWh, ou R$ 320/MWh, um valor já elevado.

Os outros itens da conta, tal como distribuição, transmissão, impostos nada tem a ver com a pretensa falta de chuvas e níveis de reservatórios.

Portanto, um aumento de R$ 40 sobre R$ 320 representa um aumento de 12,5% na bandeira vermelha.

Bandeira Vermelha 2º patamar, um aumento de 18,5% !!

Nada baratinho!

  1. Desmontando o 3º truque:

Como S. Pedro não tem advogados, ele é sempre acusado. Na realidade, o descaso brasileiro com o meio ambiente está provocando algo que pode ser muito grave.

O desmatamento da Amazônia pode estar “matando” um rio. Não um rio na terra, mas um rio “voador”, mostrado na imagem acima. A floresta gera umidade que “navega” sobre o território brasileiro.

Como o sistema brasileiro está 67% baseado em hidroelétricas e, como na região sudeste estão localizados os grandes reservatórios (70% do total), a mudança dos rios voadores pode provocar uma verdadeira tragédia energética.

Portanto, o gráfico acima, que mostra que há 5 anos seguidos temos afluências abaixo da média não deveria surpreender. Assim, nada de culpar São Pedro. O nosso descaso é o culpado.

  1. Desmontando o 4º truque:

O gráfico acima mostra que, desde 2006, mais do que triplicamos a oferta de energia térmica. Isso mesmo! Em pleno século 21, quando o planeta avisa da necessidade de redução de emissão de gases efeito estufa, o Brasil expande suas fontes poluidoras.

Mas o que isso tem a ver com as bandeiras?

A figura acima mostra que, desde 2013, a reserva total do sistema despencou. Esse “pulmão” que antes poupava até 6 meses de consumo, agora oscila entre 1 e 2 meses.

Ora, com a reserva mais baixa, há mais riscos de se ter que usar geração térmica.

Mas, vejam que curioso. O inverso também ocorre. Com tantas fontes térmicas caras, a decisão mais “econômica” pode ser de continuar a usar a água reservada ao invés de ligar as térmicas. Isso quer dizer que a expansão adotada nos últimos 20 anos criou uma “oferta”, que, por ter preços bem mais altos do que a base hidroelétrica, não ajuda a recuperar os níveis mais confortáveis. Muito ao contrário.

  1. Desmontando o 5º truque:

O consumo médio residencial brasileiro é extremamente baixo, algo no entorno de 150 kWh/mês. Bastam uma geladeira, ventilador e algumas lâmpadas e já se chega a esse valor mensal.

Que sinal econômico as bandeiras podem exercer sobre esse consumidor? Nenhum, pois qualquer economia só pode ser obtida pelo sacrifício do essencial.

Portanto, racionamento não se faz apenas por falta de fornecimento. Faz-se também via preço, e, como já mostramos aqui, a energia elétrica brasileira ocupa a 3ª posição entre as mais caras do planeta.

Ver aqui: http://www.ilumina.org.br/tarifas-brasileiras-caras-ou-baratas/

Para finalizar, o Ilumina dirige um desafio às autoridades.

Que tal parar de fazer mágica e mostrar que percentuais de energia são ofertadas e a que preço? Assim o consumidor poderá pelo menos tomar consciência do estado real do nosso confuso setor.

  8 comentários para “Bandeiras tarifárias – Truques de mágica.

  1. Machete
    24 de maio de 2019 at 11:31

    Excelente artigo.

  2. adilson de oliveira
    24 de maio de 2019 at 13:14

    Roberto

    Basta acompanhar os boletins de operação do ONS para perceber que o aumento da jabuticaba bandeira tarifária nada tem a ver com o nível dos reservatórios, tampouco com o despacho térmico.

    Já entramos no período seco e os níveis dos reservatórios seguem aumentando, apesar de Angra II não estar operando a plena carga e o despacho do parque térmico ser inferior a 30%.

    E o fator de carga do parque gerador brasileiro segue baixando (pasme, 43% atualmente), indicando que as tarifas elétricas necessitam subir para remunerar essa enorme capacidade instalada ociosa. (Toma aumento da jabuticaba)

    No entanto, a Aneel anuncia que pretende fazer leilões para aumentar a capacidade instalada para atender o incremento da demanda nos próximos 6 anos, na esperança do milagre econômico prometido pelo Paulo Guedes.

    Haja tolerância

    • Roberto D'Araujo
      24 de maio de 2019 at 16:03

      Adilson:

      É exatamente essa triplicação das térmicas que forma uma “oferta” que não gera energia. Quem gera no lugar são as outras fontes. Portanto, esse rebaixamento do fator de carga já era uma característica que iriamos assistir desde o leilão de 2008, quando se contratou diesel e óleo à vontade. Isso vai ser carregado pro futuro e, como você sabe, há um lobby de térmicas no Brasil que tem gente muito competente. Por exemplo a ABRAGET tem o Xisto Vieira Filho, meu professor de Load Flow.
      Eu acho que o nosso problema é exatamente a excessiva tolerância.

  3. adilson de oliveira
    24 de maio de 2019 at 16:54

    Roberto

    Se as térmicas existem para não gerar energia, porque não propor que elas sejam simplesmente retiradas do parque gerador tão logo terminados os contratos assinados no passado?

    O problema, como você bem sabe, não é o fato de as térmicas gerarem energia com combustíveis.

    O problema tem sua origem em outra jabuticaba apelidada de energia assegurada (sic) que permite a todas as centrais comercializarem uma energia que não produzem, tampouco contratam de outras centrais.

    A energia assegurada é garantida às centrais pelo pacote computacional (obviamente com ajustes dos burocratas setoriais) administrado pelo ONS.

    Quem está disposto a mudar isso?

    • Roberto D'Araujo
      24 de maio de 2019 at 19:23

      Adilson
      Nós dois concordamos plenamente com a jabuticaba da garantia física que não é garantida e nem física. Esses valores não poderiam ter se tornado fixos com um sistema que se altera no tempo. Isso é o óbvio. Mas, você sabe que o óbvio no Brasil passa por grandes dificuldades.
      E ai vem a nossa discordância. Eu e mais outros técnicos do setor sabemos que existe uma outra grandeza que poderia ser contratada. A potência. Mas, ai, falta uma letra ao MW, o h. Ou seja, alguém precisa saber quantos MW garantem o MWh do mercado. Você diz que não há esse ser poderoso que possa fazer isso. Eu digo que existe e já faz isso. Só que, ao invés de transformar sua decisão em mercado, R$/MW, inventa um critério louco e adiciona um h no MW que gera a GF. Ai, como o Brasil não quebra contratos (hahaha) não pode mexer na GF. E, como você diz, la nave va.
      Esse dilema nós nunca vamos resolver, porque uma forma de mercado de energia já foi tentada e está dando errado. O mercado de potência não pode porque é entendido como estatização e, como você também sabe, o estado é um monstro e, por omissão nossa, continuará um monstro.

  4. José de Araújo
    24 de maio de 2019 at 18:46

    A ausência de planejamento, ou um planejamento para remunerar geração que não gera, por si só deveria ter seus responsáveis presos. A baixa do fator de carga era mais que previsível. E o pior: continua essa mesma política para agradar alguns investidores e cobrar a conta dos incautos consumidores.

    • Roberto D'Araujo
      24 de maio de 2019 at 19:25

      Perfeito!

  5. Pedro Alves de Melo
    26 de maio de 2019 at 23:56

    Nada contra as térmicas mas, só um comentário. No dia 15/03/2018 praticamente todo o Nordeste ficou 6 horas sem energia apesar de ter 5.540 MW térmicos instalados na região!

Deixe uma resposta para adilson de oliveira Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *