Brasil precisa de agenda de vanguarda para energia -Artigo no Poder 360 – Adriano Pires

https://www.poder360.com.br/opiniao/economia/brasil-precisa-de-agenda-de-vanguarda-para-energia-escreve-adriano-pires/

Análise do ILUMINA: Uma vez que o autor é um dos cotados para assumir funções públicas no novo governo, o ILUMINA se sente na obrigação de comentar esse artigo com todo o respeito que o autor merece.

  1. Pelo primeiro parágrafo, fica parecendo que os consumidores ficam sujeitos à tarifa alta por conta dos níveis dos reservatórios. Isso não é verdade, pois, de 2008 à 2012 os reservatórios estiveram repletos e nem por isso a tarifa se reduziu. É fácil entender a razão. Quem se aproveita de condições favoráveis de hidrologia é o bizarro mercado livre brasileiro, que apesar de ter proporcionado lucros fantásticos, foi incapaz de investir na expansão do suprimento.
  2. É verdade que a garantia física das usinas está superavaliada. Mas ela não está “nas placas” dessas usinas e a culpa não é das turbinas. Elas estão superavaliadas porque se originam de um valor de carga crítica que vale para o sistema integrado. Desde 1995 esse sistema vem se alterando significativamente. Garantias calculadas há 20 anos deveriam ter sido alteradas, pois o sistema não tem mais a capacidade de reserva que possuía no passado. O critério de operação mudou e, como Dr. Adriano deve saber, as GF são dependentes desse critério.
  3. Por que não foram alteradas? Porque não há coragem para enfrentar uma revisão generalizada, pois interesses comerciais estão fundados num parâmetro frágil. Todos sabiam disso.
  4. Infelizmente a geografia brasileira não tem mais locais para construir usinas com os reservatórios que Dr. Adriano imagina poder devolver o conforto da regularização. Hoje temos uma capacidade equivalente a 5 meses de consumo. Se quiséssemos recuperar apenas mais um mês, seria necessário construir reservatórios equivalentes a todo o Rio S. Francisco. É só fazer as contas.
  5. Se a usina de Belo Monte incomoda com seus 4 GW firmes, imagine o que se diria de usinas em outros países com fatores de capacidade bem menores! Dê uma olhada nos números de usinas na Europa e no Japão.
  6. Quando os reservatórios estão vazios, usinas a fio d’água são muito úteis, pois, quando geram, as com reservatório guardam água! 
  7. O PLD nunca foi preço de mercado. É um valor advindo do Operador Nacional do Sistema. O modelo é centralizado pelas suas características, não por escolhas ideológicas, O PLD não é preço, mas só que é “referência” no mercado e, como todos sabem, tem viés de baixos valores, pois, em caso de hidrologia acima da média tende praticamente a zero. Será que o mercado livre quer abrir mão desse arriscado, mas muitas vezes irrisório valor? Será que Dr. Adriano já deu uma olhada no histórico?
  8. O autor reclama de subsídios das fontes renováveis e se esquece ou desconhece o subsídio ocluso dessas fontes para o sistema. Geração solar distribuída é sentido pelo sistema como uma redução da carga. Na atual situação, descrita pelo próprio autor, uma redução de carga resulta ou em menos geração térmica ou mais água reservada. Onde está a avaliação desse efeito sistêmico que toda fonte de energia tem no singular sistema brasileiro?
  9. Como ponto final, também nos preocupamos com a situação das distribuidoras que, no modelo vigente desde 1995, são as contratantes de longo prazo. Estamos curiosos para saber que ideias Dr. Adriano tem para substituir esses contratos de longo prazo, uma vez que precisamos de praticamente duas usinas Itumbiaras por ano. O mercado livre vai contratar?
  10. O modelo vigente, ruim desde o início, nada tem a ver com o muro de Berlim. É simplesmente uma tentativa atabalhoada de mimetizar sistemas radicalmente distintos. Uma obra prima geradora de custos.

Nós aguardamos soluções, mas o artigo nos deixa muita preocupação.


ADRIANO PIRES

 

No Brasil entra ano e sai ano e os consumidores de energia elétrica ficam reféns do nível do reservatório das hidrelétricas e das elevadas tarifas. E por que não conseguimos romper com essa situação?

Porque estamos presos e reféns de um modelo velho e ultrapassado baseado em números e diagnósticos que não representam a real situação do setor.

Em primeiro lugar o planejador do setor elétrico trabalha com uma oferta de energia que não retrata a realidade. A chamada garantia física das principais hidrelétricas e menor do que está colocada nas placas dessas usinas.

Isso ocorre porque estão velhas, reservatórios assoreados, turbinas com rendimento menores. Por outro lado, as novas hidrelétricas por uma decisão de autoridades ambientais de governos passados proibiram a construção de usinas com reservatório. A consequência e que essas usinas só conseguem gerar muito menos energia do que a sua capacidade instalada.

Por exemplo, a Usina de Belo Monte tem capacidade para 11 GW e só gera algo como 4 GW. Com certeza, essa decisão de só poder construir no Brasil usinas a fio de água e a de ficarmos sem realizar leilões de petróleo por 6 anos foram os maiores crimes cometidos por um governo contra as gerações futuras de brasileiros.

Transformamos as hidrelétricas em energia intermitente como eólica e solar. Tiramos a capacidade dessas usinas de dar segurança ao sistema elétrico. O curioso e que os que defendiam a tese de que usinas hidrelétricas com reservatórios afetam o meio ambiente esqueceram que as térmicas que devem substituir essas usinas na missão de dar segurança energética acabam, quase sempre, sendo mais caras e poluentes.

Mas no final do dia, tudo fica fácil porque quem paga a conta sozinho é o consumidor por todos esses erros e barbeiragens cometidas ao longo dos últimos anos.

Outros problemas que precisam ser enfrentados e a questão de preço da energia e os subsídios. Não é possível que os preços sejam definidos por uma única variável que é o nível dos reservatórios.

O tal do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) possui até um teto, o que mostra que não tem nenhuma relação com o mercado. No mercado quem determina preços e a oferta e a demanda e não modelos matemáticos.

É preciso levar a lógica de mercado para o setor elétrico, pois e a única forma de incentivar a concorrência e aumentar a eficiência do sistema e por fim a esse modelo centralizado, antes que o setor exploda.

Os subsídios às fontes renováveis precisam ser revistos. E fundamental que o debate sobre a retirada dos subsídios aconteça sem receios, em particular, por parte dos que defendem essas energias.

A retirada dos subsídios, de forma igualitária para todas as renováveis, vai representar uma nova fase de amadurecimento destes setores, com o desejado efeito de diminuir a tarifa para o consumidor.

O Brasil e um país privilegiado na diversidade regional de fontes primárias de energia. E necessário aproveitar essa vantagem comparativa. A melhor solução seria a realização de leilões regionais, e, em alguns momentos por fontes de energia. Em particular, leilões de térmicas mais eficientes e modernas a gás para funcionar com maior inflexibilidade.

Hoje o custo de geração a gás caiu de forma exponencial devido, como no caso das eólicas, a avanços tecnológicos.

Por fim, temos de ter pressa para incorporar os avanços tecnológicos como a geração distribuída, onde o consumidor passa a ser também produtor de energia, contestando monopólios naturais, mas não quebrando as distribuidoras. Ao contrario sendo complementar ao serviço das distribuidoras ajudando a uma melhor utilização e funcionamento da rede.

É urgente criar uma agenda da vanguarda para o setor elétrico, pensando fora da caixa. Caso contrario continuaremos reféns desse modelo centralizado e corporativo que acabou no Leste Europeu depois da queda do muro de Berlim e que ainda permanece no Brasil.

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