Capitalizar a Eletrobras – Artigo no Valor Econômico

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/capitalizar-a-eletrobras

Análise do Ilumina: Tentando iniciar um debate inédito com quem defende a privatização da Eletrobras, acrescentamos comentários e outras visões ao artigo do Dr. Falconi. Pedimos a quem tenha o contato com o autor que envie essa argumentação. Quem sabe começamos uma verdadeira discussão sobre o tema?

Roberto Pereira D’Araujo


Vicente Falconi

Fui conselheiro da Eletrobrás nos últimos quatro anos. Tive o privilégio, neste período, de assistir à ressurreição de uma empresa comandada por um presidente técnico, experiente no setor e obstinado. Quando lá chegamos a empresa pagava juros escorchantes e as surpresas de encargos financeiros eram frequentes.

Não havia um simples fluxo de caixa livre confiável nem indicadores operacionais. Os analistas de bancos não analisavam a empresa porque ninguém acreditava em seus números. Estávamos muito perto de um colapso. Perigosamente perto. Alguns conselheiros saíram. Eu fiquei porque tínhamos um presidente executivo extraordinário no qual eu confiava e o governo estava respeitando a empresa, o que permitiu que a governança evoluísse muito.

No ano de 2015, imediatamente antes da atual gestão, a empresa teve um prejuízo de R$ 14,9 bilhões mas, ao final de quatro anos de gestão séria e competente, a empresa tem hoje um caixa livre de R$ 8 bilhões e um lucro recorrente de aproximadamente R$ 10,7 bilhões por ano. O valor de mercado da empresa que era de R$ 9 bilhões em 2015 hoje é de R$ 55 bilhões.

Primeira pergunta: Qual a razão desse endividamento, Dr. Falconi? Não encontramos uma explicação para tão grave denúncia  no texto. Na nossa opinião, não é correto tratar desse tema sem analisar a história recente da empresa.

Na realidade a estatal teve que assumir investimentos porque o setor privado não teve a iniciativa de fazê-lo. Não é à toa que a empresa foi obrigada a oferecer 178 sociedades de propósito específico, onde ela é minoritária, mas, por ter uma estrutura montada, muitas vezes assumiu custos administrativos. Uma situação muito confortável para o setor privado tão endeusado no Brasil. Por acaso a iniciativa privada iria fazer esses investimentos e foi impedida?

Será que a Eletrobras ousou fazer investimentos desnecessários? Fez isso tendo um custo de capital mais alto, função de outras tarefas que teve que assumir por conta da omissão do capital privado?

Dr. Falconi, se tiver curiosidade, peça que a CCEE lhe envie o histórico do consumo total com a “Garantia Física do Sistema”. Assim o sr. irá perceber que, de 2008 até 2014, a “carga” tangenciou e até ultrapassou o limite máximo da garantia oficial do sistema.

Peça também ao ONS o dado comparativo de energias naturais do triênio 2009 – 2011. Ali é fácil perceber que esses 3 anos forneceram afluências 20% acima da média.

Portanto, não fosse a ajuda de São Pedro e o sacrifício da Eletrobras, provavelmente teríamos grandes problemas de suprimento. Não esqueça do enorme problema do mercado livre que não expandiu a oferta nem para as suas próprias necessidades!

Dr. Falconi, quaisquer referências a essas afirmações poderão ser fornecidas, apesar de já estarem disponíveis no site do Ilumina.

Um estudo conduzido por uma instituição do mercado de capitais mostrou que o patrimônio líquido da empresa, ajustado pelo custo de capital (Selic) desde final de 2002, sofreu uma perda de aproximadamente R$ 360 bilhões por má gestão e decisões obtusas do governo federal. Os atuais resultados da Eletrobras foram conseguidos por uma política governamental séria em relação à empresa, com respeito ao seu conselho e a sua diretoria, praticados pelos governos Temer e Bolsonaro (única estatal que teve continuidade de gestão). Hoje não existe nomeação de protegidos incompetentes.

Todas as indicações para conselhos passam por uma peneira muito fina que finaliza num Comitê de Pessoas e Elegibilidade, do qual fiz parte, e depois são, ou não, sacramentadas pelo conselho. No Brasil ainda existe muito da antiga cultura política (cultura leva muito tempo para mudar) de indicação de amigos e correligionários (geralmente incompetentes, quando não desonestos) para cargos em empresas públicas e, certamente, caso tenhamos uma mudança no governo, com a volta de abusos por parte do controlador, a empresa voltará para seus piores dias. É dificílimo recuperar uma empresa e muito fácil derrubá-la.

Durante a atual gestão o número de funcionários foi reduzido de 26.008 para 12.619 e a empresa funciona bem melhor. Todos os compromissos com as bolsas de valores, reguladores e judiciário foram cumpridos e as pendências eliminadas. Além da economia anual de R$ 2,8 bilhões com a redução de pessoal, as despesas da empresa foram reduzidas em outros R$ 2,6 bilhões por meio da redução de terceirizados e aluguéis, privatização das 7 distribuidoras, venda de SPEs, orçamento base zero, centro de serviços compartilhados e sistema ERP único para todas as empresas do grupo.

Mais um questionamento: Alguém que tenha feito parte dessa “competente” gestão fez alguma comparação sobre algum índice de empregados por MW instalado, por exemplo? Se tivessem feito talvez ficassem surpresos com o resultado, pois mesmo com as distribuidoras que a Eletrobras teve que adquirir por omissão do setor privado, seus índices eram inferiores ao de várias empresas similares.

Evidentemente, nenhuma empresa despede metade de seu corpo técnico sem afetar atividades que, sob um ponto de vista puramente financeiro, escorrem para baixo do tapete.

Como estão as seguintes atribuições? CEPEL, Laboratórios de Engenharia, Levantamento de potencial hidráulico, PROCEL, Luz para Todos, Centro Técnico de Ensaios e Medições, Simulador de Sistemas Elétricos, Centro de Hidrobiologia e Piscicultura

Além dessas funções, há a usina de Itaipu e as Nucleares.

Perceba Dr. Falconi: Nem a transição do regime de serviço público para o de mercado foi feita completamente! Não nos parece que haja algum traço de competência nessa gestão do setor e, mais uma vez, custos não são assumidos pela iniciativa privada.

Tudo o que está sendo afirmado aqui tem comprovação com dados.

O nível de endividamento da empresa, representado pela relação “Dívida Líquida/Ebitda”, caiu de 8,8 para 2,3, agora num nível civilizado o que reduz suas despesas financeiras. Todos os outros índices estão batendo recordes e num nível competitivo. Hoje os bancos respeitam a empresa e os analistas voltaram. Os acionistas voltaram a receber dividendos.

A empresa, apesar de ter 30% da geração e 45% da transmissão do mercado brasileiro, não participa de nenhum novo leilão de geração ou transmissão desde 2012. Quando participou em 2014 seus projetos foram vergonhosamente relicitados por falta de capacidade financeira. A Eletrobras precisa de capital para expandir suas atividades e prover a energia necessária ao desenvolvimento do povo brasileiro.

Mais uma observação: Se o setor já é majoritariamente privado e apresentando índices de lucratividade excepcionais, por que a Eletrobras seria obrigada a investir? Onde esteve a “iniciativa” do setor privado nesse tempo todo?

Repare que a crise econômica e a tragédia do COVID reduziram em muito a perspectiva de crescimento do consumo. Mas, o Sr. tem ideia do crescimento da carga no período anterior?

Nós informamos: Média de 3,5% ao ano. O que significa isso? Que precisamos de 2 usinas de Itumbiara por ano! Novas! São 2.000 MW médios adicionais a cada ano! A usina de Itumbiara é apenas a nona maior usina brasileira! O Sr. garante que o setor privado é capaz de enfrentar esse desafio? Perguntamos isso porque, até agora, não foi capaz!

Agora, dê uma olhada no crescimento do mercado livre de 2002 até 2019. Ele subiu de 5% para 30% do consumo total. Nós perguntamos: Qual foi a expansão de oferta feita por esse grupo de agentes para atender sua própria necessidade?

Nós não acreditamos que o Sr. não saiba o que ocorreu no período 2003 – 2008! A Eletrobras foi obrigada a gerar para o mercado livre sua energia mais barata. Atenção! O “mais barata” aqui significa preços até 40 vezes mais baixos do que a média.

Caso permaneça como estatal, e for mantida uma boa gestão, a empresa poderá investir, nos próximos anos, no máximo, R$ 6 bilhões por ano, insuficientes para as necessidades do país.

Caso haja a pretendida capitalização a empresa poderá investir R$ 14 bilhões por ano, em geração limpa e renovável e em transmissão para aumentar a confiabilidade e a integração do território nacional, sendo que no mínimo 70% deste montante será destinado às regiões Norte e Nordeste em novos projetos, regiões que dispõem de água, sol e vento abundantes.

Os atuais dirigentes da empresa estimam que, uma vez privatizada, a Eletrobras ainda poderá ter incrementos substanciais de produtividade somente pelo fato de ter mais liberdade e menos amarras burocráticas. Depois de feita a capitalização o Estado poderá ficar com algo ao redor de 40% da empresa. O mais interessante disto tudo é que estes 40% irão valer muito mais que os 63% que o Estado detém hoje. Muito mais.

Existem argumentos contra a capitalização oriundos de pessoas honestas, mas equivocadas, pessoas com motivos ideológicos e pessoas com interesses pessoais. No entanto vimos, em nossa história recente, a desfaçatez com que empresas estatais foram assaltadas pela combinação dos dois últimos fatores.

Certa feita eu estava em dúvidas se venderia ou não certa ação que tinha e comentei com um amigo experiente no mercado financeiro. Ele falou: “Você compraria esta ação hoje?” Eu disse: “Não”. Então venda! Eu pergunto ao leitor:

“Você, brasileiro, gostaria que seu governo tirasse recursos sociais, da educação, da saúde e da segurança para comprar empresas? Não? Então venda!”

Mais uma pergunta: Dr. Falconi, por acaso já deu uma olhada no histórico valor das ações da Eletrobras? Se fizer, vai perceber que em 2010, a ação chegou a valer R$ 27. Basta aplicar o IPCA a esse valor e compará-lo aos preços atuais. É mais alto Dr. Falconi!

E qual a razão da queda vertiginosa? Porque, sem um diagnóstico sobre o inacreditável aumento tarifário desde a reforma, a política foi a de concentrar uma tentativa de redução apenas sobre a Eletrobras. Mais uma vez, pela ausência de análise, o setor privado saiu praticamente ileso desse ataque.

A beleza do modelo de capitalização é que ele fortalece o mercado de capitais, pulverizando a propriedade e criando empresas institucionalizadas denominadas corporações. A maioria das grandes empresas estrangeiras que já atuam no Brasil são corporações com controle pulverizado: Enel, Engie, EDP, entre outras. Este modelo dá muito acesso a capital e ajuda a dar competitividade para a empresa nos seus futuros investimentos.

A perda do controle da empresa pelo Estado não é o fim do mundo. Ninguém vai carregar a empresa para fora do país. Ela continuará por aqui, sendo brasileira, mas, muito melhor e muito mais forte.

Último questionamento: O que é carregado para fora é o lucro Dr. Falconi! Apesar de não pertencer a capitais externos, pense um pouco no que aconteceu com a Vale do Rio Doce. Parece que um rio “sumiu”.

Vicente Falconi, PhD em Engenharia (1972, Colorado School of Mines, EUA), professor emérito da UFMG, sócio fundador e conselheiro da Falconi Consultoria.

  5 comentários para “Capitalizar a Eletrobras – Artigo no Valor Econômico

  1. José Luiz Alquéres
    24 de julho de 2020 at 14:13

    Os argumentos do Pro Falconi são irrefutáveis quanto ao antes e o depois da sua participação com Conselheiro. Como ocorre , quase sempre, uma boa gestão bota as coisas no lugar e valoriza a emorsa.
    O Roberto traz uma série de perguntas sobre o por que as coisas estão erradas e mistura preocupações sobre como andam algumas atividades ( corretamente) e tenta uma defesa impossível da gestão das distribuidoras ( muitas vezes criminosa e incompetente ao extremo).
    Há que se reconhecer dois grandes papéis em discussão.

    O papel de agente do estado exige uma entidade estatal, com recursos, livre das amarras da administração direta, sob controle da sociedade, com representante de stakeholders eleitos. Esta pode e deve ser a Eletrobrás: cuidando de aproveitamentos internacionais, nucleares, rede de Cepeis regionais preparados para analise de futuros possíveis da energia e experiencias, cuidar da memória e museus tecnológicos e científicos, concepção de mecanismos de universalização da energia, representação internacional em fóruns técnicos e de energia limpa etc. Eletrobrás já existe e pode fazer isso. Temporariamente ( algumas décadas) poderia ser uma espécie de um TVA nosso: tratar a complexa questão de transposição do Tocantins para o S Francisco e a criação da grande authority brasileira a partir da Chesf , recuperando nascentes e garantindo agua para o semiárido. Deveria apoiar ou liderar uma ação supraempresarial de fortalecer o controle na Amazonia nãoo só impedindo desmatamento como promovendo reflorestamento para que água flua e chova no cerrado . Nada disso empresa privada alguma pode fazer.

    A parte operativa pode e deve ser privatizada. o que impede é o choro corporativista e fisiológico do Congresso, pragas que destroem o valor e atrasam o Brasil.

    Privatizada as empresas operacionais, uma agencia reguladora independente, asseguraria atratividade a investidores nacionais e estrangeiros. Naturalmente não se meteriam a fazer as besteiras “estruturantes”a serem construídas pela churrascaria Bertin e similares.34 bi de reais numa delas…

    Livre das operacionais, ONS e EPE poderiam muito bem voltar para a Eletrobrás. Alem de concentrar competência e economizar recursos, muitos conflitos seria sanáveis em casa.

    Os quadros da Eletrobras tem que ser técnicos, superexperientes, com ocasionbais estágios em empresas privadas. Uma filosofia de descorporativização é imperiosa e possível. O interesse é o Brasil e não a categoria como hoje se sente na defesa do arcaico. “modelo”.

    • Roberto D'Araujo
      24 de julho de 2020 at 14:57

      Alqueres

      Excelentes pontos. Não tenho nenhuma dúvida de que a Eletrobras cometeu muitos erros. Só acho que, no Brasil, temos uma estranha complacência com o setor privado. Mas, muito grato pelo seu comentário. Vamos ao ponto principal: a ausência de debates.

      Abraço

      Roberto

  2. pietro erber
    24 de julho de 2020 at 14:17

    Parece que o artigo do Dr. Vicente Falconi responde àquele que saiu, esta semana, no Valor Econômico, questionando a privatização da Eletrobrás, neste momento. Apresenta muitos números que procuram demonstrar os bons resultados financeiros da Empresa desde 2016, sob a presente administração. Mas é necessário considerar que uma empresa estatal é diferente de uma empresa privada, pois tem funções complementares às da primeira, de interesse do estado, senão não precisaria existir. Mas não responde à questão básica, que papel poderá exercer a Eletrobrás no futuro setor elétrico, que será bem diferente do atual, estrutural e financeiramente.
    Gostaria de saber se foi feito o cálculo de quanto seria a taxa de retorno do possível investimento de R$ 18 bilhões, previstos, em função da descotização das usinas e linhas de transmissão da Eletrobrás. Abrir mão do controle da Eletrobrás por um valor que pouco afeta a dívida pública e mal dá para concluir a obra de Angra III não é o fim do mundo mas é, pelo menos, um mau negócio.

  3. Felipe Sousa Chaves
    24 de julho de 2020 at 17:56

    Debate de alto nível nos comentários. Parabéns aos técnicos do setor. Vemos aqui uma discussão muito mais profunda que se faz na mídia. Tratam a Eletrobras como uma empresa qualquer, mas esquecem que ainda hoje ela opera 30% da geração, 50% da transmissão de alta e ultra alta tensão e 50% da energia armazenável brasileira. Uma empresa que lucra 10 bi por ano, paga bons dividendos aos acionistas (inclusive a União que os recebe e pode investir em saúde, educação, etc), tem um baixíssimo nível de envididamento que pode ser muito explorado com a Selic no chão. Presente em todos os estados da federação, opera dezenas de barragens importantes, faz gestão de grandes rios e bacias hidrográficas. Opera metade das instalações de transmissão e geração classificadas como estratégicas pelo ONS.
    Enfim, há que se discutir muito o caráter de estratégia, soberania, segurança energética, meio ambiente, social, universalização do acesso à eletricidade.

  4. Ikaro Chaves - AESEL
    24 de julho de 2020 at 18:50

    O Sr. Vicente Falconi demonstrou em seu artigo, “Capitalizar a Eletrobras”, que a empresa conseguiu se recuperar de uma das maiores crises de sua história e hoje apresenta resultados robustos de uma estatal saudável, pouco endividada e lucrativa, pronta para investir. Mas no mesmo artigo o Sr. Falconi afirma que a Eletrobras precisa ser privatizada, argumentando que assim ela poderia investir mais. Há que se fazer algumas perguntas ao autor e ao público em geral. Quem garante que uma Eletrobras privada, controlada certamente pelo capital estrangeiro, vai preferir transformar seus lucros em investimentos em energia, sabidamente de longo prazo de retorno, a enviá-los a seus acionistas? Se a iniciativa privada tem tanto interesse em investir no setor, porque não o faz? Qual a vedação que existe no marco legal brasileiro ao investimento privado no setor elétrico? Por que a iniciativa privada necessita comprar a Eletrobras para só aí realizar investimentos? Por fim. Admitindo que os proprietários da Eletrobras privada resolvam de fato investir no país e a empresa aumente sua fatia de participação no mercado. Que benefício o consumidor teria em ter uma única grande empresa privada, sob controle estrangeiro, com mais de 1/3 da geração e quase a metade das linhas de transmissão do país? Será que um oligopólio privado é o melhor para nosso setor Elétrico?

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