Carta enviada para o Painel do Leitor da Folha de São Paulo

A CARTA ABAIXO, ENVIADA PARA O PAINEL DO LEITOR DA FOLHA DE S. PAULO FOI PUBLICADA NO SÁBADO, 27 DE MAIO, “EDITADA” COM UMA REDUÇÃO DO TEXTO DE 423 PARA 104 PALAVRAS. O TEXTO REDUZIDO FOI PUBLICADO NO CANTO INFERIOR ESQUERDO DO PAINEL DO LEITOR, NA PÁGINA 3 DO PRIMEIRO CADERNO DO JORNAL . ASSINADA INICIALMENTE COMO MOSTRADO ABAIXO, A PEDIDO DO JORNAL EM TROCA DE “EMAILS”, FORAM INFORMADOS OS NOMES DE 3 DIRETORES DO ILUMINA.
SEGUNDO A EDITORA DO PAINEL DO LEITOR SEM ESSE NOMES A CARTA NÃO PODERIA SER PUBLICADA .
COMENTÁRIOS ADICIONAIS ESTÃO EM CARTA ENVIADA POR EMAIL AO SR. OTAVIO FRIAS FILHO EM 29 DE MAIO.
A PARTE “EDITADA” ESTÁ EM NEGRITO NO TEXTO COMPLETO DE 423 PALAVRAS. NAS EDIÇÕES DO JORNAL ENTRE A DATA DO ENVIO DA CARTA E 27/05 FORAM PUBLICADAS, PELO MENOS DUAS CARTA COM MAIS DE 450 PALAVRAS.


Rio de Janeiro, 15 de maio de 2000


Para: PAINEL DO LEITOR ­ FOLHA DE S. PAULO


Prezados Senhores,


Com relação à matéria assinada pelo jornalista Chico Santos, publicada na primeira página de “FolhaDinheiro” de 14 de maio, passamos a fazer os seguintes esclarecimentos e comentários:
Qualificar a postura da direção de Furnas, em relação a privatização, como “boicote”, logo na manchete da reportagem, é editorializar uma matéria que deveria, com isenção, informar o que está ocorrendo no setor elétrico.
A Folha parece desprezar essa nobre função da imprensa e prefere colocar sutilezas desqualificando os entendimentos entre o presidente de Furnas e seu quadro técnico
. Preferiu também definir o ILUMINA como ” centro de pensamento das esquerdas que atuam no setor” , em vez de divulgar, com os detalhes absolutamente necessários para a opinião pública, os argumentos técnicos há muito apresentados contra a privatização tal como idealizada e colocada em marcha pelo governo. Nenhuma palavra sobre a relação da privatização de Furnas com a crise de abastecimento que ronda o setor elétrico. Nenhuma tentativa de aprofundar análise sobre a recente divisão no seio do governo – na qual vislumbramos benvinda lucidez em uma parte – sobre o modelo a ser adotado para as empresas de geração.
A apressada definição no plural ­ “das esquerdas” – joga o veneno que poderia ter sido evitado se os editores responsáveis da Folha e o jornalista signatário tivessem consultado nosso estatuto, sobretudo os itens do Artigo 2º (Objetivos) consolidados na Assembléia de 12 de julho de 1999. O ILUMINA é uma ONG não partidária que congrega profissionais preocupados com os rumos tomados pelo governo para o setor elétrico. Nosso estatuto está disponível na página eletrônica www.ilumina.org.br.

Também veneno desnecessário e improcedente é colocado nas relações do Sr. Luis Carlos Santos com os empregados de Furnas, inferindo que as atitudes de entendimento não seriam para valer. Sugere, através de fonte não identificada da Eletrobrás, ser essa aliança uma esperta forma de apaziguar os ímpetos dos empregados, ávidos por provocar, por ação direta, um apagão.
A reportagem, como redigida, nos dá o direito de filtrar suas sutilezas. Segundo a Folha, os empregados seriam guerrilheiros, o presidente de Furnas um traidor do governo e o ILUMINA um “aparelho” das esquerdas.
Não é a primeira vez que o ILUMINA concede entrevistas e tem suas declarações mutiladas, deturpadas e colocadas em um contexto de rotulagem e preconceito. Nossa ONG quer debater tecnicamente os problemas gerados pelo modelo de privatização do governo, bem como os caminhos para a gestão pública e cidadã das empresas do setor. Mas, esbarra na falta de transparência e no indisfarçavel viés fisiológico dos meios de comunicação do país.
Estamos certos da publicação integral desta carta, subscrevemo-nos,


Atenciosamente


A Diretoria do ILUMINA ­ Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor
Elétrico
Rua Capistrano de Abreu, 12 ­ 3O andar
Botafogo ­ Cep 22271 000
Tel: 5355398
Fax: 2869037
Email: ilumina@ ax.apc.org





Rio de Janeiro, 29 de maio de 2000


Exmo. Sr. Otávio Frias Filho


Prezado Senhor,


Sou, como “pessoa física”, não como diretor da ONG ILUMINA, assinante da Folha desde os anos finais da ditadura militar, quando os jornais cariocas tiveram seu paroxismo de mal comportamento. A Folha foi uma agradável opção, principalmente pela presença, como articulistas, de Jânio de Freitas e Clovis Rossi. Também, como pessoa física, tive ao longo de 15 anos diversas cartas publicadas no Painel do Leitor. Repentinamente, mas com a usual satisfação epistolar do editor do Painel, deixaram de publicar minhas cartas, talvez, analiso-as, por pouco inspiradas.
Como diretor do ILUMINA, naquele momento recém fundado, tivemos publicado em 14/06/1997, na segunda página do Caderno Dinheiro, o artigo “Os Blecautes de Abril”.
Enviamos carta de 423 palavras ( palavras do texto essencial) em 15 de maio passado, com comentários sobre a matéria assinada por Chico Santos na primeira página do caderno dinheiro em 14/05.
Com rapidez, em dia da própria semana de 15/05, o Painel do Leitor publicou, como primeira carta da coluna, aquela enviada pelo presidente de Furnas sobre a mesma matéria. Carta, digamos, com a “suavidade” gasosa dos políticos de carreira. Por “email”, nos dias que se seguiram, cobramos a publicação integral da nossa carta. Em dia da semana iniciada em 22/05, a editora do Painel do Leitor solicitou, também por “email”, nomes dos diretores do ILUMINA. Sem eles a carta não poderia ser publicada. Enviamos prontamente os nomes solicitados.
Nas duas últimas semanas notamos a publicação de, pelo menos, duas carta com 450 a 500 palavras. Uma, do Ministro da Educação. Outra de simples mortal. Deduzimos que nossas 423 palavras não se constituiriam em grosso impedimento, sobretudo pela pertinência da parte omitida na versão “editada” de 104 palavras finalmente publicada no canto inferior direito do Painel do Leitor.
Não me alongarei. Seria necessária mais uma tese de mestrado ou doutorado sobre as características da impalpabilidade ética da grande imprensa brasileira, seja no grande atacado seja no pequeno varejo dos assuntos com que lida diariamente. Jânio de Freitas tem colocado com perfeição, em inúmeras colunas, esse tipo de comportamento. Como as coisas chegam nesse final de século, continua valendo, com todo seu significado pejorativo, a velha classificação, até bastante limitada, de “Imprensa Burguesa” .
Oh! como poderia ser útil inspirarem-se no Guardian de Manchester ­ UK. Em Pindorama não me ocorrem exemplos.
Como, se não me engano, V.Sa. se interessa por teatro, sugiro procurar no “site” do ILUMINA o texto assinado “O Auto da Pusilanimidade”. A Folha tem feito grande esforço para se tornar personagem dos
” infindáveis atos, sem intervalos ou baixar de cortinas, a não ser as que encobrem com pouca sutileza qualquer possibilidade de boas intenções”.
Candidamente…, reiteramos a publicação integral de nossa carta de 15 de maio e, sobretudo, que o seu jornal comece a divulgar análises e informações como aquelas nela sugeridas em sua parte omitida.


Atenciosamente


Olavo Cabral Ramos Filho
Ex Superintendente de Engenharia
de Transmissão de Furnas, aposentado, digo,
exilado em 1991, depois de 30 anos na empresa.
Professor aposentado de Eng. Elétrica da Escola
de Engenharia da UFRJ (1961 ­ 1996 )
Diretor do ILUMINA


Em anexo eletrônico é enviada também a carta de 15/05 com a parte publicada marcada em negrito.

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