Crescimento Econômico com insegurança energética – Valor

Análise do ILUMINA: O Artigo é importante, pois levanta alguns dos grandes problemas do setor:

  1. A situação do Rio São Francisco que vem nos avisando há mais de uma década sobre suas afluências decrescentes.
  2. A redução da capacidade de armazenamento em relação ao consumo, muito embora ainda sejamos o recordista do estoque energético.
  3. Muito bom lembrar os resultados dos leilões que resultaram na contratação de térmicas muito caras. Ao considerá-las na oferta, compromete-se ainda mais a reserva, pois até o momento de seu despacho, as hidráulicas é que sofrem.
  4. Consequente judicialização do déficit hídrico, que, na realidade não é provocado apenas pela hidrologia.
  5. Excelente lembrança da dependência do mercado cativo para a expansão de longo prazo. Entretanto, houve a omissão do defeito “genético” do modelo no mercado livre, que se estrutura em torno do PLD, que nada mais é do que o Custo Marginal de Operação, um parâmetro do Operador e que, em situações de equilíbrio tem viés de baixa.
  6. A geração solar distribuída é uma das saídas para o nosso sistema, entretanto, ela exigirá mais coordenação, mais estudos e mais planejamento. Não há como o “mercado” dar conta de todas as interseções das fontes no nosso singular sistema.
  7. Finalmente, muito interessante a comparação da atratividade da transmissão em relação aos riscos da geração do nosso modelo “mimetizado” de competição através de um certificado de energia. Exatamente por esse motivo o ILUMINA sugeriu ao governo em 2003 uma migração suave para contratação por capacidade (MW) ao invés de energia (MWh). O investidor não teria riscos hidrológicos, pois sua usina seria remunerada pela potência e não pela energia que no nosso sistema é muito variável.
  8. Infelizmente, o artigo não mostrou que o modelo mercantil foi muito instável. Com cerca de 25% da carga no mercado livre que durante 10 anos apresentou um viés de preços baixos, esse nicho de consumidores obviamente não atraiu nenhuma usina para atendê-lo. Essa é a estrutura arriscada do modelo. Parte da fragilização da Eletrobras é decorrência de remendos que tiveram que ser feitos nessa modelagem.
  9. Finalmente, faltou uma menção ao fato de que, desde a adoção desse sistema a tarifa brasileira só se elevou.

De qualquer maneira, artigos como esse demonstram que um debate de alto nível é possível. Pena que nunca comecemos.

 


Por Adriano Pires e Guilherme Villani

Em 2018 o Brasil iniciará um ciclo de crescimento econômico com o velho problema da insegurança energética. O país que construiu as maiores hidroelétricas do mundo e possui as maiores vantagens comparativas nas energias renováveis ainda busca um modelo regulatório e de planejamento no setor elétrico que afaste de vez as crises.

A energia contínua e disponível graças às Usinas Hidroelétricas com reservatórios construídas durante os anos 70 e 80, aliado com uma abundante e regular pluviometria, ficou para trás. A bacia do Rio São Francisco, responsável por 20% da capacidade de armazenamento de energia hidráulica sofre há mais de uma década com pluviometrias muito abaixo da média histórica e exaustão dos mananciais pela atividade humana.

As bacias do Rio Tocantins e Xingú (Norte) dão sinais mais recentes de que não são mais o “reloginho” do sistema, com chuvas na quantidade e hora certa. Ali se situam as maiores hidroelétricas 100% nacionais – UHE Tucuruí e Belo Monte. As principais bacias do Sudeste – Paranaíba e Grande –  ambém apresentam vazões recentes abaixo da média histórica.

Também foram cometidos equívocos no planejamento da contratação de novas fontes de energia elétrica. A opção dos governos petistas foi usinas hidroelétricas a fio d’agua – com “combustível barato”, contudo intermitente – e usinas térmicas a óleo – com combustível caro e poluente.

O erro de contratação pode ter sido o motivo da origem de outro, ainda mais grave. A operação do sistema elétrico por parte do operador do sistema – ONS entre 2010 e 2014 é altamente questionável. Os dados do ONS mostram que se gastou mais água dos reservatórios do que poderíamos com graves consequências à gestão de reservas e na manutenção de vazão mínima para a operação da Hidrovia Tietê-Paraná.

Geradores e grandes consumidores, cientes desta arbitrariedade, judicializaram a questão para evitar perdas financeiras dos erros operacionais cometidos.

Aparentemente em 2018 o erro se repete com o ONS turbinando as poucas reservas dos reservatórios, com o falso argumento de ajudar a resolver a questão do GSF. Como as afluências dos rios ainda são baixas, provavelmente em abril ou maio será obrigado a ligar todas as térmicas mais caras do sistema. Ou seja, a história se repete e a solução definitiva nunca aparece.

Com a retomada da atividade econômica em 2018, acabou o alívio momentâneo da retração da demanda ocasionada pela mais grave crise econômica que o país passou – 2015 e 2016. Aliás, nesses dois anos evitamos um racionamento de energia devido exatamente a essa crise econômica e ao tarifaço de 2015.

Chegou a hora de o país enfrentar a realidade: precisamos de um modelo energético que sustente sucessivos anos de crescimento econômico sem sustos inflacionários nos preços da energia elétrica e sem margem para dúvidas quanto à capacidade de assegurarmos o suprimento.  

A contratação de oferta de longo prazo sempre foi realizada pelo Mercado Cativo – o das distribuidoras regionais com seus consumidores residenciais, comerciais e industriais pequenos e médios. Desde 1995 os grandes e médios consumidores industriais e comerciais podem fazer sua gestão de contratação de energia no Mercado Livre, contratando o prazo e preço aproveitando-se da enorme volatilidade de preços ocasionados pelo excesso de chuvas ou pelas retrações de demanda ocasionadas por crises econômicas. É preciso democratizar o acesso ao mercado livre que ficou estagnado desde que foi implantado, permitindo que todos os consumidores tenham direito de fazer a gestão que representem a realidade do mercado.

No campo do planejamento, há uma evidente necessidade de reavaliação da expansão do parque gerador brasileiro. Isso inclui reconhecer que os finitos reservatórios das usinas hidroelétricas são cada vez menos capazes de garantir o suprimento nos meses e períodos secos, e, portanto, cada vez menos estratégicos.   

A diversificação geográfica e das fontes do parque gerador é absolutamente necessária, inclusive com fontes térmicas seguras e menos custosas como o gás e o carvão. O uso de térmicas a gás natural na base do sistema é uma opção segura e de baixo impacto ambiental para a garantia de segurança energética que antes era feita pelas hidrelétricas com reservatório.

A expansão em massa da geração solar distribuída para aproveitarmos o enorme potencial do país e a contratação de fontes eólicas e da biomassa são alternativas urgentes, não apenas elogiáveis do ponto de vista ambiental, mas da própria necessidade de diversificação de riscos. E para atrair investidores precisamos de um modelo regulatório com risco-retorno adequado.

Atualmente são os leilões de transmissão de energia quem mais atraem investidores por conta dos baixos riscos envolvidos. O empreendedor assume o risco de construção, e uma vez concluídas as torres de transmissão, ele tem a tarifa para mantê-las em operação. Para tal ele recebe uma remuneração anual definida no momento do leilão. Simples.

O mesmo não ocorre na geração e na distribuição de energia. Na geração uma vez construída a usina, o empreendedor é obrigado a assumir riscos que não pertencem ao seu negócio. Na distribuição o modelo atual concentra o risco de inadimplência de todo o serviço envolvido – geração, transmissão e distribuição – nessas empresas, obrigadas a assumir estes riscos para 100% do mercado cativo. Os riscos atuais ou afasta o investimento ou aumenta as taxas de retorno (e preços) do empreendimento.

Diante de novas e infindáveis discussões sobre os rumos do setor elétrico no Brasil, nos resta perguntar como meros pagadores da conta, seja na conta de luz ou nos produtos e serviços consumidos: Quem garantirá a contratação de longo prazo?  Teremos eletricidade contínua e disponível a preços estáveis?.

São as respostas a estas perguntas que precisam ser debatidas no Congresso Nacional nesse momento onde o governo de forma oportuna e corajosa apresentará as sugestões de mudanças para esse modelo que há muito tempo deixou de responder às necessidades e a realidade da matriz elétrica brasileira.

Adriano Pires e diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE)

Guilherme Villani é administrador com pós-graduação pela Fipecafi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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      4 comentários para “Crescimento Econômico com insegurança energética – Valor

    1. Olavo Cabral Ramos Filho
      7 de Março de 2018 at 11:08

      FEIJÓ,

      TENMHO CERTEZA QUE VERÁS ESTA MENSAGEM E FARÁ SEU COMENTARIO , PRINCIPALMENTE SOBRE
      A TESE SOBRE O VELHO CHICO LOGO NO PRIMEIRO PARÁGRAFO DO COMENTARIO DO ROBERTO.

      NOTE TAMBEM QUE É UM DOS ARTICULISTAS !!

    2. José Antonio Feijó de Melo
      7 de Março de 2018 at 20:37

      Roberto e Olavo
      Este artigo é curioso. De fato, você vai lendo e é levado a concordar com a sucessão de “verdades” que estão colocadas, uma depois da outra, em si a enumeração do grande número de erros que foram cometidos na condução do setor ao longo dos últimos anos e, não sendo o leitor um especialista, ou se for não estando suficientemente atento, naturalmente vai tender a concordar com o todo e consequentemente com sua conclusão e proposta..
      Ocorre, entretanto, que a razão básica de todos os erros cometidos ao longo de mais de vinte anos na condução da política do setor pelos governos do PSDB e do PT, isto é, das “verdades” expostas no artigo, foi omitida. E isto compromete seriamente o conteúdo do artigo e o seu objetivo. Mas, qual seria esta razão básica? Respondo, simplesmente A IMPLANTAÇÃO DO MODELO MERCANTIL, a partir de 1995.
      Claro, com a perspicácia de sempre, nos dois últimos itens do seu Comentário Roberto fez o registro devido. Está lá esta referência fundamental.
      Para não me alongar, mas apenas para fundamentar as minhas observações, citarei como contestação tão somente um ponto particular. Refiro-me à questão levantada no artigo sobre “o erro no uso da água dos reservatórios”. Reproduzo abaixo o que foi expresso pelos autores, literalmente:
      “O erro de contratação pode ter sido o motivo da origem de outro, ainda mais grave. A operação do sistema elétrico por parte do operador do sistema – ONS entre 2010 e 2014 é altamente questionável. Os dados do ONS mostram que se gastou mais água dos reservatórios do que poderíamos…” (sic).
      Ora, Roberto e Olavo. Perguntamos aos autores do artigo. Por acaso esse uso questionável da água dos reservatórios, quer dizer, este erro, teria ocorrido por incompetência do ONS e de seus técnicos? E se não foi por isso, afinal, por qual razão isto teria acontecido?
      Todos nós sabemos que a causa disto não foi erro do ONS, mas sim consequência natural da filosofia operacional intrinsecamente contida no Modelo Mercantil vigente, que estabelece que a operação do sistema seja feita a partir da “otimização do custo marginal de operação”, cujo programa de computador utilizado leva naturalmente ao uso preferencial das hidrelétricas, sempre que haja alguma disponibilidade de água, sem se considerar a garantia de que os reservatórios venham a se reencher na sequência, como ocorria antes do modelo mercantil.
      Aliás, qualquer semelhança com o que está ocorrendo agora, quando as hidrelétricas estão gerando mais de 80% da carga, embora saibamos que os reservatórios ainda estão muito baixos e que a capacidade instalada desta fonte já é inferior a 70% do total do sistema, não seria mera coincidência.

      • Roberto D'Araujo
        7 de Março de 2018 at 21:25

        Feijó:

        O artigo é muito bom porque foi escrito pelo Guilherme Villani e ligeiramente modificado pelo Adriano. Eu fiquei surpreso dele concordar em assinar. Quem sabe, talvez, possamos ter um debate que aprofunde os problemas?

        Abcs

        Roberto

    3. José Antonio Feijó de Melo
      8 de Março de 2018 at 9:28

      OK Roberto
      Entendo, Quem sabe, talvez agora se possa ter um debate que aprofunde as questões. Vale ter a esperança que há anos e anos o Ilumina alimenta e propõe, mas não conseguiu, nem sequer durante os governos do PT.
      O fato é que se fala sempre dos erros cometidos pelos governos do PT, mas sempre se esquecendo do erro mãe, que foi e é o Modelo Mercantil. Agora mesmo se insiste, apostando novamente na privatização e abertura total do mercado livre.
      Santa ingenuidade. Todos querem as tarifas “baixinhas” do mercado livre. Isto seria possível??? Claro que nós sabemos que não. Repito o que venho dizendo há anos: Enquanto o Modelo Mercantil prevalecer, teremos sempre tarifas cada vez mais altas, permanente ameaça de racionamento e baixa qualidade do serviço.

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