Despedida

Eu mesmo fico surpreso de ter sido o mais frequente publicador de artigos na página do Ilumina desde 1996. Foram 25 anos ininterruptos de análises sempre baseadas em dados reais sobre o “melancólico” trajeto do setor elétrico brasileiro. Desculpem o adjetivo, mas, não consigo ver melhoras.

Tentei várias formas de expor que há uma fenomenal ausência de informações, transparência, regulamentação, positividade e real modernização de um setor que deveria ser um dos maiores orgulhos nacionais. Usei as formas de: Grandes artigos, sarcásticos textos, pequenos filmes com alguma dose de humor e outras loucuras. A eficiência dessa tática foi extremamente decepcionante, pois parece haver uma intransponível muralha entre esses estudos mais profundos e a grande mídia.

Quando algum historiador fizer uma checagem da evolução explosiva dos custos e preços da energia, comparando as vantagens desse nosso vasto território com os resultados decepcionantes oferecidos ao consumidor brasileiro, provavelmente, se o estudo for divulgado, causará grande espanto.

Menciono o historiador porque, pedindo desculpas a meus colegas, estou abdicando dessa tentativa frustrada. Também deixo implícito que, sob a arquitetura política brasileira, talvez demore muito para que os descaminhos sejam evidenciados e, infelizmente, só surgirão no horizonte da história.

Nesses últimos 35 anos enfrentei complexos problemas de saúde e, agora, depois de mais uma brusca surpresa, passei a entender que há um limite em que, qualquer um, reavalia sua vida.

Aqueles que me conhecem sabem que não há exageros nesse relato. Podem testemunhar que, apesar das repetidas derrotas, nunca desisti de continuar a publicar a real situação. Essa ocupação de quase diariamente postar artigos toma muito tempo e depende de uma grande força de vontade. Portanto, peço desculpas por abdicar dessa tarefa.

Eu não estaria sendo sincero se o motivo da desistência fosse apenas o trabalho braçal. É preciso reconhecer que, apesar das evidências, não houve um consenso e nem o estabelecimento de uma tática única entre aqueles que travam a luta contra o desmonte das instituições públicas brasileiras.

Apesar de todas as evidências de que a visão mercantil causou um verdadeiro estrago nacional, as formas de luta estão muito fragmentadas. Sempre repeti que as duas grandes vítimas desse modelo são a Eletrobras e os próprios consumidores.

Há uma espécie de “lavagem cerebral” que tenta vender a ideia de que o mercado é sempre o mais eficiente. Sequer entendem que uma atividade econômica, quando explorada pelo estado, não tem apenas a função de assumir “prejuízos” e oferecer o produto a preços baixos aos pobres. A função mais importante é estabelecer um paradigma para o capital. Se o mercado quer investir e realmente ter lucros, tem que entender que existe uma espécie de piso referência que tem que ser vencido. Num país que é marretado diariamente com a tese de que o que importa é o “teto”, ninguém se importa com o papel de referência mínima.

Estou vivo e continuo pensando o que sempre pensei. Espero apenas que entendam que, assim como eu, muitos técnicos de mais alto gabarito do que esse que escreve, também desistiram.

Estarei disponível para conversas, sejam concordantes ou discordantes.

Finalizo com o incrivelmente brilhante e atual artigo de Hebert de Souza, Betinho. (1990).

Como matar uma estatal

Elas levam tempo para nascer e para morrer, porque, ao contrário do que pensam certos economistas agora em Brasília, elas não são seres sem sentido histórico. No Brasil, elas começaram a crescer no tempo de Getúlio e depois não pararam de se desenvolver. Às vezes seguindo a onda nacionalista, mas também na onda internacionalista do período militar. No período Sarney, as estatais sofreram o que todos sofremos — a vingança da incompetência. Agora, com Collor, foi prometido o ataque final da privatização.

Esta variação, no entanto, tem um sentido. Quando as estatais servem ao capitalismo, elas são criadas, desenvolvidas, prestigiadas, louvadas e promovidas. Quando o conjunto da sociedade pode tirar proveito delas, ou elas não servem mais e até competem com certos setores capitalistas, a coisa vira e as campanhas antiestatais prosperam. Vivemos agora a moda antiestatal, e o governo está encontrando alguma dificuldade em levar adiante o seu programa de privatização, porque não é fácil destruir em alguns meses o que foi construído ao longo de muitas décadas. Aqui vai, no entanto, uma modesta contribuição para ajudar o presidente Collor a cumprir esta tarefa que o colocará na história como o coveiro das estatais. Para se destruir uma estatal é necessário realizar as seguintes medidas;

Produzir com eficiência e vender abaixo do custo

Dado que as estatais no Brasil existem para atender aos interesses das grandes empresas transnacionais e nacionais e, secundariamente, para defender alguns interesses nacionais, é fundamental dotá-las inicialmente de uma boa base técnica, para que os produtos ou serviços sejam bons, e vendê-los abaixo do custo para garantir os lucros dos seus usuários privados. A eletricidade, o petróleo, o diesel, o ferro e o aço são os melhores exemplos. A Companhia Siderúrgica Nacional vende bobinas e chapas de aço pela metade do preço do mercado mundial para as montadoras da indústria automobilística. Ao vender abaixo do custo, estatais como a CSN entram no vermelho, passam a ser deficitárias e a ser apresentadas como “exemplo ideal” de estatais: maus negócios, incompetentes, destinadas ao fracasso. A maior parte dos subsídios dados, quase de graça, pelo poder público à chamada livre iniciativa, assume essa forma. A CSN que o diga.

Contrair dívidas no exterior

Uma ‘boa” estatal deve servir para contrair dívidas no exterior e transferir os recursos para outros setores deficitários ou simplesmente para os recursos do Tesouro em momentos de crise. Que o diga a Eletrobrás. Ao contrair as dívidas, as estatais ficam na mira das pressões internacionais e. por que não, de seus interesses. Afinal, uma estatal é um bom patrimônio em caso de negociação, venda ou alienação. A pressão da dívida imobiliza a capacidade de investimento e reinvestimento da estatal. Essa é uma boa fragilidade a ser utilizada quando necessário.

Não investir em pesquisa e desenvolvimento

Conter os investimentos programados. Esta política tem como objetivo colocar as estatais na fronteira da vulnerabilidade. Uma estatal muito eficiente é um mau exemplo no mundo dos negócios como argumento pró-estatização. Uma estatal ineficiente é um argumento imbatível sempre que for necessário restabelecer o primado neoliberal da livre iniciativa e das leis do mercado. O pior é quando a estatal vira símbolo de eficiência, como a Petrobrás ou a Vale do Rio Doce — faca de dois gumes que dá lucro e dor de cabeça. Para salvar a cabeça, o capital, às vezes, prefere acabar com as estatais que lhe dão lucro. Uma estatal atrasada perde a credibilidade e pede para ser alienada como bem público.

Colocar afilhados civis e militares na direção das estatais

É fundamental dirigir politicamente as estatais, retirá-las do domínio do bem público. Para isso deve- se colocar à frente das estatais dirigentes que respondam pelos interesses de turno à frente da Presidência da República. No período Geisel, tudo pelas estatais. No período Collor, tudo contra as estatais. Esse empreguismo político tem como objetivo não somente dirigir as estatais segundo os princípios da política econômica de turno, como pretende também desestabilizar sua base ética de sustentação. Ao se privatizar a direção de uma estatal, ela perde o seu carisma público. Ao se politizar ou partidarizar a direção de uma estatal, ela fica indefensável aos olhos do público. Empresa fragilizada, empresa privatizável. Sarney fez a sua parte. Collor arremata. Afinal, eles já combinaram outras coisas.

Provocar os sindicatos

É importante também provocar os sindicatos e levá-los a situações de impasse. O desgaste progressivo dos sindicatos é uma boa preparação para a privatização. Sindicatos fracos, privatização forte. Sindicatos colocados diante de dilemas, de situação sem alternativa, de derrotas sucessivas, do cansaço das lutas sem futuro, das tensões intermináveis, dos confrontos com as Forças Armadas, têm um papel na trama. Quem sabe um dia eles não estarão pedindo pelo amor de Deus uma solução qualquer, ou um empresário qualquer que venha, nem que seja para garantir o emprego de todos? Quando se vende abaixo de custo, o culpado não aparece. Quando os operários param os fornos, o culpado tem nome — chama-se sindicato, ou CUT. Uma empresa que vive em crise tem baixa cotação no mercado. A privatização gosta de preços baixos, principalmente de empresas públicas que acumularam durante décadas o patrimônio que foi construído com o dinheiro e o esforço de todos.

Desenvolver os impasses até o absurdo

É preciso esticar a corda até o fim, com ciência e paciência. E preciso vencer a lógica da própria acumulação capitalista. Afinal, não é usual no capitalismo desperdiçar riqueza acumulada. Nesse caso é diferente. E preciso ter coragem para dizer que até a Petrobrás pode ser privatizada, que a eletricidade pode ser um bom negócio nas mãos da iniciativa privada, que os telefones, as rodovias, as hidrovias, os portos, as praias, afinal de contas, podem ser muito mais bem administradas pelo gerente de turno que pelo administrador público submetido ao controle da sociedade. Afinal, a memória já é coisa do passado. A eletricidade era da Light, que por sua vez era da Brascan, que é uma transnacional canadense. O petróleo, para ser nosso, foi uma longa história, onde um tal de mister Link jurava por Deus que no Brasil só dava goiaba, petróleo nunca. E, para quem é da época, é fácil lembrar: o Repórter Esso confirmava! Afinal, essa coisa de entreguista parece que não tem Ibope porque agora todo mundo, e principalmente o Collor, só quer saber de ser primeiro mundo. Pena que vivem no Brasil. Por isso, é necessário levar os impasses entre as empresas estatais e o desenvolvimento do país ao extremo, para que o absurdo pareça ser a solução e a solução que convém a uns poucos acabe nascendo, como resultado natural do absurdo.

Vender ou fechar

Para se completar a obra só falta vender a estatal para aqueles grupos que participaram da confecção da lista ou então fechá-las, como ato final, se nada der certo e a sociedade não for capaz de se pôr de pé para defender o que é seu. Do jeito que a coisa vai, na medida em que a sociedade brasileira não se levanta, parece que se vai é vender e fechar. E pensar que tudo isso que será dado, vendido ou fechado, foi construído com os impostos pagos por todos nós.

 

 

 

  12 comentários para “Despedida

  1. José Antonio Feijó de Melo
    8 de novembro de 2021 at 10:20

    Roberto
    Não posso dizer que gostei dessa sua atitude limite, para não dizer extrema. Lamento-a, mas compreendo-a perfeitamente. Afinal, como você bem sabe, sendo mais idoso que você, pelos mesmos motivos eu tive que tomar a mesma decisão cerca de cinco anos atrás. Infelizmente, o nosso Brasil parece que não muda. A sociedade não consegue enxergar a realidade e se deixa envolver facilmente por aventureiros, embusteiros, fascistas e até por traidores. Até quando?
    Depois de tudo que você fez a frente do Ilumina, por tantos anos, esta despedida não podia ser mais brilhante do que está sendo, com o registro memorável do magnifico pronunciamento do saudoso mestre BETINHO.
    Resta-nos agora apelar para que os mais novos, como Bicalho, Ícaro, Maílson e Clarice, entre outros, deem continuidade a esta luta que, apesar de todas as frustrações, é do interesse de todo o Povo Brasileiro e não pode ser abandonada.

    • Roberto D'Araujo
      8 de novembro de 2021 at 18:53

      Prezados:

      Não estou saindo do ILUMINA. Estou apenas tomando uma decisão pessoal sobre o que fazer no Instituto. Há um trabalho “braçal” na edição quase diária de artigos, sempre com dados a serem acompanhados.
      Continuo disposto a conversar, concordando e discordando.
      Convidem-me e estarei presente.

  2. Ricardo C G Nogueira
    8 de novembro de 2021 at 10:55

    Compreendo que, na vida, temos que tomar decisões difíceis e vc está tomando uma. Lamento a perda de Inteligencia analítica a que estaremos sujeitos, mas compreendo e …… cuide-se!
    Abs

    • Roberto D'Araujo
      8 de novembro de 2021 at 18:52

      Prezados:

      Não estou saindo do ILUMINA. Estou apenas tomando uma decisão pessoal sobre o que fazer no Instituto. Há um trabalho “braçal” na edição quase diária de artigos, sempre com dados a serem acompanhados.
      Continuo disposto a conversar, concordando e discordando.
      Convidem-me e estarei presente.

  3. Fernando Machado
    8 de novembro de 2021 at 15:04

    Seus textos farão muita falta Roberto, com certeza!!!
    De minha parte, fica o agradecimento pelas brilhantes análises, todas marcadas pelo necessário pensamento crítico, pelo rigor na avaliação dos dados e pela honestidade intelectual.
    Suas contribuições com certeza continuarão a ser referência para estudandes, técnicos do setor elétrico e movimentos sociais ligados ao setor de energia.

    • Roberto D'Araujo
      8 de novembro de 2021 at 18:52

      Prezados:

      Não estou saindo do ILUMINA. Estou apenas tomando uma decisão pessoal sobre o que fazer no Instituto. Há um trabalho “braçal” na edição quase diária de artigos, sempre com dados a serem acompanhados.
      Continuo disposto a conversar, concordando e discordando.
      Convidem-me e estarei presente.

  4. Luiz Laercio Simões Machado
    8 de novembro de 2021 at 15:41

    Embora inconformado mas de uma certa forma entendendo sua decisão, encaminho-lhe meu respeito e admiração pela sua enorme competência e conhecimento desse nosso mundo elétrico. Seus textos construíram a visão que hoje tenho do nosso Setor e, por isso e também pela qualidade de suas ideias em geral, sou-lhe muitíssimo grato. Um abraço, amigo.

  5. Sérgio
    8 de novembro de 2021 at 15:41

    Roberto,

    Muito obrigado pelos seus ensinamentos, desejo a você muita Paz e Saúde!

    Parafraseando o Mestre Darcy Ribeiro:

    “Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária, a Luta por uma Eletrobras do Povo Brasileiro (acrescentado por mim). Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas”.

    Iremos vencer um dia!!!!!

    • Roberto D'Araujo
      8 de novembro de 2021 at 18:50

      Prezados:

      Não estou saindo do ILUMINA. Estou apenas tomando uma decisão pessoal sobre o que fazer no Instituto. Há um trabalho “braçal” na edição quase diária de artigos, sempre com dados a serem acompanhados.
      Continuo disposto a conversar, concordando e discordando.
      Convidem-me e estarei presente.

      • Roberto D'Araujo
        8 de novembro de 2021 at 18:51

        Prezados:

        Não estou saindo do ILUMINA. Estou apenas tomando uma decisão pessoal sobre o que fazer no Instituto. Há um trabalho “braçal” na edição quase diária de artigos, sempre com dados a serem acompanhados.
        Continuo disposto a conversar, concordando e discordando.
        Convidem-me e estarei presente.

  6. José Antonio Feijó de Melo
    10 de novembro de 2021 at 7:03

    Ainda bem, Roberto, você continuará por perto, iluminando o Setor Elétrico e a mente de tantos que teimam em não compreender a realidade do que é e que deve ser um serviço de utilidade e interesse público e não apenas um ambiente para realização de “bons negócios”.

  7. Eduardo de Azevedo Silva
    13 de novembro de 2021 at 23:43

    Grande Roberto! Suas análises impecáveis, tanto do aspecto técnico quanto econômico, do setor elétrico brasileiro farão uma falta inestimável ao Brasil, mesmo sendo ignoradas pela grande mídia e pelos agentes do setor. Mas é um alívio saber que você permanecerá a disposição, quando procurado. Como jovem que sou, não vejo outra escolha a não ser continuar acreditando no futuro do Brasil, pois acredito que esse modelo econômico possa enganar por algum tempo, mas não para sempre…

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