Em clima de refugiados – Artigo

Paulo Ludmer

O cenário é de separação entre política e moral. Políticos sem moral podem produzir bem público. Moralistas podem impedir. Se a ética se afasta da economia, a recíproca é verdadeira. Ora, está em voga a separação do homem da natureza; e, pouco se fala em meio ambiente sob este mote. Uma ilustração relevante é a construção de hidrelétricas com amplos reservatórios, que não se realiza desde 1986. Contudo, as áreas verdes mais bem preservadas no Brasil, fora da Amazônia, são justamente em torno das hidrelétricas dos anos 50, 60 e 70 do século passado.

Não se preserva nem mesmo a Serra da Cantareira em São Paulo, ou a represa de Guarapiranga, e histericamente se grita contra o desmatamento do Pará. Não se debate o uso irracional da energia, mas se esquece que é impossível produzi-la sem afetar o meio ambiente.

A mania agora é abençoar a eólica e a solar, ambas intermitentes. A eólica voraz consumidora de aço e de resinas, metais, terras raras e cimento. A solar carecendo de metais, gálio, silício, germânio e que tais. Tanto uma quanto a outra demandando backup, por qual preço? Incentivos creditícios, renúncias fiscais, varrição de encargos para debaixo do tapete dos contribuintes e demais consumidores. E pedindo defesas contra os dumpings asiáticos entranhados no país.

Chega-nos o marketing do carro elétrico (que necessita de cobalto, chumbo, lítio da Bolívia e do Afeganistão, terras raras da China e assim por diante). Silenciosos terão de inventar ruídos para atropelar menos gente. Nada melhoram a mobilidade urbana. E requisitarão usinas geradoras de energia elétrica para abastecerem de carga as suas milhões de baterias.

Vamos incentivar a instalação de seus fornecedores de bens e de serviços (a exemplo de eólicas), com obsolescência tecnológica programada, que num instante viram passado sem competitividade no mercado internacional? Vamos transferir os encargos dos quais nos livramos no mercado livre para os impotentes que permanecerem no mercado cativo das distribuidoras?

É ingênuo pensar que os atritos de interesses se dissiparão em algum momento da história. Ela, a própria vida, se move sob a regência de contenciosos. A aquisição de arcabouços regulatórios, recursos humanos, introdução subversiva de tecnologias, tudo segue à mercê de desequilíbrios (da mesma forma que o ar frio empurra o quente mais rarefeito na atmosfera).

O fato de agentes do setor elétrico não se sentirem representados ou se perceberem sem voz neste ou naquele processo (ora em curso está em marcha o da reformulação do setor elétrico nacional) faz parte de um template histórico. Não basta se envolver em lutas, há que comprometer os gladiadores. Isso se as batalhas obedecessem algumas regras. Mas não soe acontecer.

O que se viu no Brasil são agentes biliardários comandando as instituições em instâncias inimagináveis via corrupção. Tudo assim ficou desigual. Modelos e pessoas, desempenhos e crenças, não puderam mais ser avaliados e metrificados. Resultados foram conspurcados. Ministérios feudais não conversavam entre si, porque não miravam mais a mesma Nação.

Fomos destroçados por uma guerra de nêutrons na qual os ativos estão à nossa frente, intactos, mas nossa consciência não difere dos refugiados irmãos sírios com suas cidades dizimadas.

Paulo Ludmer é engenheiro, consultor, professor.

 

 

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      1 comentário para “Em clima de refugiados – Artigo

    1. José Antonio Feijó de Melo
      4 de Janeiro de 2018 at 18:54

      Este excelente artigo não pode passar sem um comentário. Muitos até seriam desejáveis, para consubstanciar um debate, mesmo que fosse limitado ao site do Ilumina, já que em outros fóruns parece que debate tornou-se coisa fora de moda.
      A verdade é que vejo neste artigo justamente isto, uma proposta para que se abra um debate sobre os (des)caminhos que o setor elétrico brasileiro vem trilhando já há mais de vinte anos.
      De pronto, quero dizer que em linhas gerais concordo com os termos explicitados pelo Eng. Paulo Ludmer.

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