Gasto da indústria com energia deve crescer 47% – Valor

Comentário: Nada mais constrangedor do que números que mostram um lado ocluso de uma notícia onde a indústria reclama sem explicar outras “facetas” do modelo.

Primeiro é preciso desmontar a tese da imprevisibilidade ou da “surpresa”. O gráfico abaixo é simplesmente a reserva do sistema interligado dividida pela carga mês a mês. A linha vermelha é a tendência. 

  • Estamos numa situação muito parecida com a de 2001 nesse indicador. Temos nos reservatórios o equivalente a 2 meses de consumo.
  • A tendência declinante do período 2008-2014 não foi notada?
  • Hoje temos térmicas que diferenciam as duas situações. Mas, vejam abaixo….

Seria o ano de 2014 uma verdadeira tragédia hidrológica recorde no histórico? Abaixo as energias naturais do sistema interligado ordenadas da menor para a maior. 

  • O ano de 2014, que, no gráfico, foi subestimado mantendo os meses de outubro a dezembro com o dado verificado de setembro, ainda é melhor do que 5 anos dos registros, sendo que a sequencia 1952 – 1956  é, com folga, ainda a pior do histórico.

Por último, abaixo o gráfico do PLD desde 2002.

  • De 2003 até 2007 as usinas da Eletrobras, descontratadas, mas obrigadas a gerar, fizeram a festa do mercado livre com energia quase gratuita.
  • No ano de 2011, já sob a tendência declinante da reserva, segundo dados da CCEE, cerca de 25% dos contratos do mercado livre eram mensais.
  • Não eram “pequenas diferenças”, pois quase 30% da energia transacionada era liquidada assim.
  • Qual a explicação? Liquidados mensalmente era possível pagar 1 MWh por menos de R$ 20!
  • Nesse período, grande parte dos consumidores não queria “se livrar das flutuações do preço spot” como a reportagem cita.
  • Porque as térmicas só foram acionadas depois do anúncio da medida provisória 579?
  • Por que a CCEE não disponibiliza quem capturou essa vantagem mesmo com uma tendência declinante na reserva estratégica?

Portanto, a indústria não pode reclamar. Onde está parte da energia barata que faz falta hoje? Lá em 2011, quando, em silêncio, o mercado livre possibilitava preços inacreditavelmente baixos.


Por Daniel Rittner | De Brasília

A grande indústria prevê um aumento em torno de R$ 20 bilhões nos gastos com eletricidade até 2018. O montante deve elevar em 47% a fatura paga atualmente pelo setor, conforme estimativas feitas pela Abrace, entidade que representa consumidores industriais de energia.

Em levantamento recém-concluído com seus 46 associados, que respondem por uma demanda de aproximadamente 10 mil megawatts (MW) e 40% do consumo industrial, a Abrace aponta o vencimento de contratos antigos como principal razão para a disparada de gastos com o suprimento de eletricidade nos próximos quatro anos. Quase todas as grandes empresas do setor estão no mercado livre, onde têm liberdade para negociar com qualquer fornecedor, sem a obrigação de comprar energia das distribuidoras. “Os contratos novos vão sendo contaminados pelo cenário de preços mais altos”, diz o presidente da associação, Paulo Pedrosa.

Segundo ele, a maioria das indústrias trabalha com um horizonte de longo prazo – duração média de cinco anos dos contratos de fornecimento – para se livrar das flutuações do mercado “spot”, onde o valor do megawatt-hora se manteve em patamar elevado nos últimos meses. O problema é que, nas circunstâncias atuais, não tem mais sido possível à indústria renovar contratos perto do vencimento sem enfrentar aumentos dolorosos. “Os preços médios estão subindo de R$ 130 para uma faixa de R$ 180 a R$ 200 por megawatt-hora”, diz Pedrosa.

 

Só em 2015, a Abrace calcula que a conta subirá R$ 5,5 bilhões. Fontes do mercado afirmam que fabricantes de ferro-liga em Minas Gerais estão entre os mais afetados. Indústrias na região teriam mais de 500 MW em contratos prestes a expirar, com a Cemig, nos quais hoje pagam apenas US$ 27 por megawatt-hora.

O presidente da comercializadora Trade Energy, Walfrido Ávila, relata que novos contratos de suprimento por um período de cinco anos estão sendo fechados por R$ 200 o megawatt-hora. Para o fornecimento por 12 meses, cobrindo todo o ano de 2015, o valor alcança até R$ 350. Diante do cenário desfavorável, ele afirma que a prioridade da comercializadora tem sido renovar contratos próximos do vencimento, mas houve até recusa de novos clientes por causa da escassez de eletricidade.

Ávila ressalta que medidas recentes do governo provocaram um enxugamento da oferta de energia no mercado livre e, como consequência, a disparada de preços, independentemente da estiagem mais severa. O empresário cita o leilão emergencial promovido em abril deste ano. Para reduzir a exposição involuntária das distribuidoras, o governo fixou uma tarifa-teto relativamente alta – R$ 271 – no certame, que era capaz de seduzir as geradoras. A estratégia deu certo e muita gente que tinha energia disponível fechou contratos com as distribuidoras que duram até 2019. O lado perverso da história é que diminuiu a oferta para consumidores livres.

O maior desequilíbrio apontado pela indústria, no entanto, é a MP 579. Convertida posteriormente na Lei 12.783, a medida provisória estendeu por 30 anos as concessões de usinas hidrelétricas e viabilizou a redução de 20% nas contas de luz dos consumidores residenciais. A queixa da indústria está no fato de que toda a energia barata de usinas já amortizadas foi entregue, em regime de cotas, às distribuidoras.

Em 2015, mais usinas – hoje operadas pelas estatais Cemig, Cesp e Copel – voltam às mãos da União. Com isso, um volume adicional de eletricidade será alocado para as distribuidoras. “A entrada de novas cotas enxugará ainda mais a oferta no mercado livre. Isso é injusto porque todos os consumidores, industriais ou residenciais, pagaram pela amortização dessas usinas e deveriam ter direito a um pedaço da energia mais barata”, afirma Pedrosa.

Procurado pelo Valor, o Ministério de Minas e Energia informou que desconhece o levantamento da Abrace e preferiu não se pronunciar, mas observou: “O governo não interfere na atuação de empresas no mercado livre, que tem suas próprias regras”.

Outro fantasma que aflige a indústria é o fim, em junho de 2015, de um contrato entre a Chesf e um grupo de sete pesos-pesados com operações no Nordeste. Gerdau, Braskem, Vale, Dow, Ferbasa, Paranapanema e Mineração Caraíba compram eletricidade por R$ 110 o megawatt-hora. O contrato prevê o fornecimento de 700 MW.

Com a renovação das concessões de hidrelétricas da Chesf, essa energia passará para o suprimento das distribuidoras. Desde meados do ano, emendas foram incluídas, sem avanços, em diversas medidas provisórias, na tentativa de permitir uma extensão do contrato com as indústrias.

Em ofício enviado em agosto ao secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, as federações das indústrias da Bahia (Fieb) e de Alagoas (Fiea) afirmam que “a interrupção desses contratos terá graves consequências para a economia da região, principalmente no que tange à descontinuidade de investimentos e geração de emprego, renda, impostos e divisas”.

Zimmermann, em entrevista recente ao Valor, fechou as portas para uma mudança na legislação que permita a extensão do contrato entre Chesf e indústrias do Nordeste. “Se mudar no Nordeste, as indústrias do Sul e do Sudeste também vão querer. A lógica é a mesma”, concluiu o secretário.

 

 

  2 comentários para “Gasto da indústria com energia deve crescer 47% – Valor

  1. José Antonio Feijó de Melo
    20 de outubro de 2014 at 12:15

    As observações do ILUMINA (Roberto D’Araujo) estão absolutamente precisas e corretas. Por que não reclamaram quando se aproveitavam da frouxidão das regras e compraram energia elétrica a preço de “bolo de goma”? Claro, o parque industrial brasileiro não deveria ser penalizado pelo erros da política energética, mas também não deveria aproveitar-se desses mesmos erros.

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