Governo analisa usar térmicas mais caras para enfrentar crise energética – Folha de São Paulo

Análise do ILUMINA: Já avisamos muitas vezes, mas, não adianta ficar mostrando situações conjunturais. Os dilemas atuais do setor elétrico vão passar para a história como uma demonstração de que as autoridades do setor não entendem ou não aceitam a natureza do nosso sistema.

Vamos tentar explicar mais uma vez:

  • O nosso sistema é majoritariamente hidroelétrico e capaz de reservar energia equivalente a aproximadamente 5 meses de consumo (220 TWh). É muita energia!
  • Nosso clima é tropical, o que faz nossa hidrologia ter grande variância.
  • Temos um território longitudinal, o que possibilita diversidade hidrológica entre regiões. Os grandes troncos de transmissão levam energia por grandes distancias.
  • Essas não são características comuns entre sistemas elétricos no mundo. Somos muito diferentes!
  • No nosso, usinas não vendem a quantidade de energia que geram. Todas vendem uma parcela da energia total do sistema interligado. Portanto, a competição não é igual à que ocorre em sistemas térmicos.
  • Entendido essa questão básica, quando leilões contratam usinas térmicas caras, elas são computadas na oferta, mas, se o sistema está em equilíbrio, na maioria do tempo, hidráulicas geram no seu lugar.
  • Se ficassem desligadas sem “vender” energia, seriam inviáveis.
  • Portanto, ao se contratar essa oferta, aumenta-se o risco de “contratar” também o esvaziamento dos reservatórios.
  • Outro efeito são os planos de operação que preveem a entrada de usinas que não se concretizam, gerando um “otimismo” que se frustra.
  • Esse problema sempre existiu. Estava ocluso no fato de que tínhamos maior capacidade de reserva, mas sempre foi previsível e apontado pelo ILUMINA.
  • Foi agravado pela estranha coincidência de que o uso de térmicas foi sendo adiado até o anúncio da MP 579 em setembro de 2012. Gráfico abaixo.

Ao contrário da “culpa de São Pedro”, essa política esvziou os reservatórios.

Evolução da reserva em número de meses de carga.

Portanto, as notícias não são boas. Continuaremos com modelos mimetizados de outras realidades e suas consequências. A úica ideia que parece surgir das nossas autoridades é vender empresas e adotar mais mimetismo.

Para os que estão com dificuldade de acreditar que usinas térmicas não vendem a sua própria energia no sistema brasileiro, vejam um exemplo no gráfico abaixo. Dados oficiais da CCEE.

O gráfico acima mostra dados da geração de todas as termoelétricas do sistema (área azul) e o “certificado” de garantia física associado a elas (linha vermelha).

A área pintada de cinza é a diferença da “oferta” de energia associada ao parque térmico e a energia efetivamente gerada. No período 2004 até 2013, essa diferença ficou em aproximadamente 43 TWh/ano (~10% da carga). Em média, a “oferta” térmica superou a geração efetiva em 130%!

Quem gerou essa oferta que não foi gerada pelas térmicas? Respostas nos comentários.


NICOLA PAMPLONA

DO RIO

30/10/2017  13h56

O ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, admitiu nesta segunda (30) que o uso de térmicas mais caras para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas “está sendo cogitado”.

O governo vem relutando em adotar o modelo de despacho fora da ordem de mérito –o que permite ao ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) mandar ligar térmicas do topo da lista de preços– para evitar novos aumentos na conta de luz.

A situação dos reservatórios, porém, é considerada preocupante, diante da falta de chuvas. Para monitorar mais de perto a questão, o CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) está realizando reuniões semanais.

“Está sendo cogitado, mas ainda não está decidido”, disse Coelho Filho. Ele disse, porém, que “tem sinais de que alguma chuva pode vir”, o que pode influir na decisão.

Devido ao baixo nível dos reservatórios, o governo já vem acionando térmicas a gás natural, com reflexos nas tarifas: este mês, a tarifa nível 2 da bandeira vermelha cobrada na conta de luz subiu de R$ 3,50 para R$ 5 por cada 100 quilowatts-hora consumidos.

O ministro disse ainda que o governo negocia para encontrar gás para três térmicas que estão paradas por falta de combustível. Uma delas é do grupo J&F e teve o fornecimento cortado pela Petrobras após a delação premiada dos controladores da JBS.

Segundo ele, há discussões entre as partes envolvidas para a busca de uma solução. “Essas térmicas são muito importantes para o sistema”, afirmou Coelho Filho.

 

 

 

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      6 comentários para “Governo analisa usar térmicas mais caras para enfrentar crise energética – Folha de São Paulo

    1. José Antonio Feijó de Melo
      31 de outubro de 2017 at 9:34

      È duro, Roberto
      Mas eles não vão entender nunca, mesmo que quisessem, Não vão entender por que não sabem do que estão falando, é puro mimetismo. São incompetentes mesmos, além de outros detalhes que permeiam a questão, como se sabe. O Ilumina já vem mostrando que tudo isto está errado, faz mais de vinte anos. Você mesmo já escreveu isto, com a devida clareza, muitas e muitas vezes, mas isto não adiantou, pois só adiantaria se “eles” entendessem do assunto e, entendendo, quisessem acertar no melhor para o Brasil, mas…deixa prá lá.

      • Fernando
        31 de outubro de 2017 at 10:22

        Eu tendo a discordar em parte do Feijó… apesar de acreditar que existam alguns “true believers” a frente da gestão do setor elétrico (MME, ONS e ANEEL), vejo a complexidade e o mimetismo como a forma encontrada por eles para tentar justificar um modelo torto que beneficia alguns em detrimento da maioria. Eles não entendem principalmente porque não tem interesse em entender. Talvez agora a conta que vai chegar não poupe ninguém.

    2. Pietro Erber
      31 de outubro de 2017 at 9:49

      “ligar térmicas do topo da lista de preços– para evitar novos aumentos na conta de luz.”e “tem sinais de que alguma chuva pode vir” são afirmações memoráveis.

      Mais uma vez adiou-se a geração térmica e o resultado está aí

      • Roberto D'Araujo
        31 de outubro de 2017 at 10:00

        Pietro:

        Se você conversar com o pessoal do ONS eles vão te dar todas as justificativas da modelagem. Portanto, é bem pior do que possíveis influências políticas. O modelo está errado e ainda é usado para definir grandezas comerciais!

    3. Agenor de Oliveira
      31 de outubro de 2017 at 13:21

      Seria muita ingenuidade acreditar que, desde 1995, os “especialistas” que vem definindo a modelagem e a gestão do setor na contramão das características singulares do sistema elétrico brasileiro, não tenham percebido que estão errados.

    4. Luiz Carlos Campbell
      31 de outubro de 2017 at 23:26

      Toda vez que olho para o IPDO eu arregalo os olhos e digo, quanto dinheiro se joga nesse tabuleiro? O dia que a sociedade brasileira organizada discutir essas questões com mai assiduidade e interesse, inclusive a sicuedade acadêmica, vamos partir para uma agência de regulação verdadeiramente independente e com punições proporcionais a suas barbeiragens ou imlericua! Ou seja pagariam pelo prejuízo evitável que causam a sociedade indefesa!

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