Lição de Economia Global

No dia 27 de abril último, a TV Globo apresentou em seu Jornal Nacional duas reportagens especiais do tipo “fazer a cabeça do espectador”.


Na primeira mostrava que os EUA estão em pleno milagre econômico, com inflação baixa, desenvolvimento e que os investidores estão ganhando muito dinheiro nas bolsas. Mas que o investidor está preocupado pois as bolsas dão sinais de que isso pode acabar. A seguir, um economista alertou que o aumento do número de empregos não é necessariamente um bom sinal. Nós agradecemos pois pensávamos que, ao menos aqui no Brasil, o aumento de empregos estivesse solidamente ligado com o crescimento da economia e que isso representaria um bom sinal, afinal aqui os empregos são de sobrevivência já que os salários são baixos. Essa reportagem terminou com a repórter A. P. Padrão nos lembrando que se os EUA entrarem em recessão e os investidores começarem a perder dinheiro, não vai mais sobrar nada para ser empregado em países como o Brasil. O que nos coloca na condição de torcedores para que o milagre econômico americano continue ainda por muitos e muitos anos até forever, se for possível. Estamos liberados agora de nosso peso na consciência: torcendo para eles estamos indiretamente torcendo para nós mesmos. Uff, que alívio!


A segunda reportagem, apresentada nesse mesmo dia, mostrava os efeitos da privatização das empresas de energia elétrica brasileiras no bolso do consumidor.
Aprendemos que se o Brasil crescer nos próximos anos, vai faltar energia elétrica e a luz pode apagar. E que o Brasil não tem mais dinheiro para gastar em grandes obras como ITAIPU, mas que para manter e modernizar nosso sistema elétrico fomos buscar dinheiro com as empresas particulares. O presidente chegou mesmo a declarar que “mantemos os braços abertos aos investidores estrangeiro para que venham se juntar (a nós) nesse rumo traçado pelo país”.
Uma das soluções para minorar o problema seria importar gás da Bolívia, comprado em dólar, para alimentar nossas termelétricas. Informação cultural: as termelétricas são fabricadas pelos países hegemônicos.


O prof. José Goldemberg, uma autoridade no assunto energia, nos informou que o governo está oferecendo aos investidores privados condições nunca vistas, como, por exemplo, a garantia de compra da eletricidade por eles produzida, por 20 anos, além de garantir o preço do gás a um valor inferior ao preço de mercado atual. Ele fala isso como uma crítica de que tal fato evidenciaria o fim do livre-mercado, tão defendido por neoliberais como ele.
O ministro Tourinho por sua vez desmentiu isso, mas informou que os custos em dólares serão repassados para as tarifas, isto é, nós os consumidores, é que vamos pagar.


Como se vê as reportagens foram muito instrutivas e informativas, parecendo até um programa do Telecurso 2000.


Para concluir, a reportagem, que procurava mostrar como o setor elétrico está mudando com as privatizações, foram apresentados alguns gráficos com a evolução do preço da eletricidade após as privatizações, comparada com a elevação do custo de vida, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Vejamos. Em SP o custo de vida subiu 24% contra 32% da energia elétrica. No Rio de Janeiro o custo de vida subiu 29% contra 59% da energia elétrica.
O repórter esclareceu que esses números são o resultado de três fatores: os erros do passado, a crise do presente e as necessidades do futuro.
Agora que já estamos bem informados pela TV-cabeça, podemos ao menos usar nosso livre-pensar, para tirar algumas conclusões próprias.


Temos algumas interrogações:


-Se não temos dinheiro para novas obras, porque em vez de vender nossas empresas que são lucrativas, não convocamos o capital privado, nacional e internacional, para participar da construção de novos empreendimentos e assim expandir nossa oferta de energia elétrica? Desse modo o Brasil poderia crescer sem faltar eletricidade e sem abrir mão de suas empresas lucrativas.


-Quanto ao gás, cabe perguntar quais são as reservas comprovadas do Brasil, Argentina e Bolívia? Será que seriam suficientes, a médio e longo prazos, para atender a capacidade de geração tão propalada pelo governo?


-Quem autorizou o governo brasileiro a garantir, às custas do consumidor, a compra da eletricidade por 20 anos, e o gás a preços inferiores, para as empresas privadas?


Uma conclusão clara: a privatização está fazendo o preço da eletricidade subir muito acima do custo de vida e dos salários.
O ILUMINA já afirma isso há muito tempo e agora os números comprovam.


Luiz Pereira

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