Não é só agua que falta!

Não é só água que está faltando. Falta também critério consistente. Duas coisas aconteceram nos últimos 10 anos. A primeira é que o sistema de reservatórios interligados que, no passado, era capaz de guardar energia suficiente para 2 anos de consumo, agora só consegue guadar 6 meses(*). A segunda é o desmonte do planejamento que trouxe um desprezo pela atualização dos critérios que regem o tanto o planejamento quanto a operação do sistema. Qual é o sistema parecido com o brasileiro no mundo? Hydro-Quebec. 90% hidráulico, reserva para 3 meses. Lá os Canadenses avaliam que um déficit acima de 12% da carga causaria um prejuizo de Can $ 3600 para cada MWh. Aqui, um déficit acima de 20% vale a terça parte disso. Esses números são os valores da curva do custo do déficit que é o parâmetro mais importante para determinar a operação. Caso essa curva fosse alterada poderíamos usar as térmicas do PPT (mais baratas) antes e não precisar usar as absurdas usinas do seguro apaggão. Isso, o novo modelo ainda não pensou.


(*) Apesar da redução o sistema brasileiro ainda é o que apresenta a maior capacidade de reserva em relação à carga.





Falta de água no NE pode elevar conta de luz

HUMBERTO MEDINA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA


O governo decidiu acionar as usinas termelétricas do seguro anti-racionamento no Nordeste na semana que vem. A decisão foi tomada para evitar falta de energia, pois os reservatórios das principais hidrelétricas da região estão com níveis baixos. Isso poderá significar aumento de tarifa para os consumidores de energia.


Os reservatórios da região Nordeste, na última quinta-feira, estavam com 14,2% de sua capacidade. Os técnicos do governo já sabem que não haverá água suficiente no mês de dezembro. O nível de risco para que o governo adote medidas para evitar falta de energia é 10%. A expectativa é que, dependendo da quantidade de chuva a partir de dezembro, o uso do seguro possa ser interrompido em janeiro.


Pelos cálculos feitos pelo governo, o Nordeste precisa de aproximadamente 500 MW (megawatts) médios, que terão de ser gerados por usinas termelétricas (cuja fonte primária de energia é térmica). A intenção do governo é aproveitar ao máximo a capacidade das usinas do PPT (Programa Prioritário de Termeletricidade), que não fazem parte do seguro. Essas usinas usam gás e cobram menos pela energia gerada do que as integrantes do seguro.


A expectativa é que as usinas do PPT possam gerar aproximadamente 400 MW médios. Nesse caso, as usinas do seguro teriam que gerar aproximadamente 100 MW médios. O que os consumidores pagam nas contas de luz, a título de “encargo de capacidade emergencial”, serve apenas para custear o aluguel das usinas.


Quando há geração, a regulamentação do seguro prevê que os consumidores paguem pelo óleo combustível usado pelas usinas. Nesse caso, é cobrado novo encargo “de aquisição emergencial” nas contas de luz. Na geração de energia do seguro, os consumidores residenciais que consomem até 350 kWh/mês não pagam o novo encargo.


Mário Santos, presidente do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), informou que o uso da energia termelétrica custará entre R$ 12 milhões e R$ 13 milhões na primeira semana. As usinas do PPT vão custar cerca de R$ 5 milhões, e o restante será o custo das usinas do seguro.


“Está valendo a pena estar pagando o seguro, porque agora vamos preventivamente fazer despacho de geração térmica e manter a geração sob controle”, disse o presidente do ONS.


Ele informou ainda que, de acordo com a previsão dos técnicos, se não houver geração termelétrica, o nível dos reservatórios iria baixar além da curva de segurança em meados de dezembro. Ele disse que não há data para terminar a geração termelétrica. “Todo dia o nível dos reservatórios será avaliado”, disse.


Racionamento
O seguro anti-racionamento foi criado pelo extinto “ministério do apagão” (Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, GCE), comandado pelo ex-ministro da Casa Civil Pedro Parente. Na ocasião, foi a solução encontrada pelo governo para acabar mais cedo, em fevereiro de 2002, com o racionamento de energia.


O governo então contratou usinas termelétricas emergenciais, que usam óleo combustível e cobram caro pelo MW gerado. Na ocasião, a contratação do seguro foi muito criticada.


Quando o seguro começou a ser cobrado, custava R$ 0,0049 por kWh consumido no mês. Em setembro, o valor do seguro foi reajustado em 28,46%. Desde o início de sua cobrança, em março do ano passado, esse encargo já acumula reajuste de 73,47%.


Hoje, o consumidor paga R$ 0,0085 por kWh consumido no mês para pagar o aluguel de 57 usinas termelétricas, que podem gerar cerca de 2.000 MW em caso de risco de racionamento. Em uma conta de 500 kWh, R$ 4,25 vão para o pagamento do seguro (cálculo sem imposto).


O governo teve dificuldades ontem para assumir a responsabilidade por ter acionado as usinas do seguro. A reunião aconteceu às 11h de ontem no Ministério de Minas e Energia e não teve participação da ministra Dilma Rousseff. Participaram secretários do ministério, diretores do ONS e membros da Aneel.

A notícia só foi divulgada no fim da tarde, e pela ABPEE (Associação Brasileira dos Produtores de Energia Emergencial).





Decisão sobre o futuro de Angra 3 deve sair em 6 meses


Rodrigo Nery


O ministro de Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, disse ontem que em seis meses o Governo federal deverá decidir se constrói ou não a usina nuclear de Angra 3. Amaral participou ontem, no Rio, do lançamento do Fórum Pró-Angra 3, formado por 18 entidades que reúnem técnicos e trabalhadores do setor de energia. O Fórum tem como objetivo a articulação com lideranças políticas estaduais e nacionais para trabalhar pela aprovação da obra.


Amaral disse que um dos principais obstáculos à construção da usina são os custos, e apontou como possível solução a busca por parcerias internacionais. O ministro citou a China, Estados Unidos e França como grandes investidores em energia nuclear, e potenciais parceiros brasileiros caso o projeto seja aprovado.


– Estes países estão retomando seus programas nucleares. Nós ofereceríamos aos eventuais parceiros a matéria-prima, o urânio enriquecido, e garantiríamos o consumo. Já estamos trabalhando com os EUA em cooperação científica para estudos avançados na área nuclear, com o objetivo de melhorar os atuais projetos, reduzindo os rejeitos nucleares e aumentando a vida útil das usinas – afirmou.


O ministro disse que o racionamento de energia, em 2001, mostrou que o País deve explorar outras fontes de energia além da hidráulica, e garantiu que não faltarão recursos para a obra, porque o Orçamento de 2004 não será contingenciado, como o deste ano.


– O Orçamento de 2004 não será contingenciado. Nada do que se disse de 2003 poderá ser dito do próximo ano. O Orçamento deste ano era artificial – garantiu.


Ao contrário de Amaral, o senador Saturnino Braga (PT-RJ), que também compareceu ao lançamento do Fórum, disse que ainda existe risco de contingenciamento, sobretudo se persistir a rejeição de parte da sociedade e dos ambientalistas ao projeto. Mesmo assim, Saturnino, que é relator do Plano Plurianual (PPA) de investimentos do Governo – que define os investimentos até 2007 – afirmou que incluirá no projeto os recursos para a execução da obra.


– Garanto que os recursos estarão no PPA e no Orçamento, mas sabemos que há resistências. Um dos maiores obstáculos é o que o Darc Costa (vice-presidente do BNDES) chamou de “Secretaria da Tesoura”. Os recursos destinados à construção da usina são uma tentação à geração de superávit fiscal. A certeza que tenho de que a verba estará lá é a mesma que tenho de que ela será contingenciada, se não houver vontade política – disse.


Auditorias estimam custo de até us$ 1,8 bilhão
Segundo o diretor da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Edson Kuramoto, os recursos necessários à conclusão de Angra 3 foram calculados, em cinco auditorias independentes contratadas pela Eletronuclear, em algo entre US$ 1,7 bilhão e US$ 1,8 bilhão. Já foram investidos US$ 750 milhões em equipamentos e na preparação do terreno para a obra. Segundo técnicos da estatal, somente a conservação dos equipamentos, adquiridos na década de 1980, custa aos cofres públicos US$ 20 milhões por ano.


– Do total de investimentos previstos para a conclusão da obra, cerca de US$ 120 milhões seriam investidos no Brasil, na compra de equipamentos e contratação de serviços. Além disso, 35% deste dinheiro retornariam aos cofres públicos na forma de impostos, como IPI e ICMS – disse.

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