Ninguém sabe e ninguém liga – Artigo

 

Roberto Pereira D’Araujo

Eu sou contra a privatização da Eletrobrás. Alguns dirão que eu sou petista, outros acham que eu quero manter alguma “mamata” por ter sido engenheiro na estatal por 30 anos e um outro grupo acha que toda empresa estatal é ineficiente e o setor privado é a eficiência por definição.

A desinformação é o grande mal desse país e, apesar de não ter concordâncias com o atual governo, acho que a nossa mídia realmente toma partido em diversos temas e exerce pressão com suas teses sem a mínima autocrítica.

Realmente, hoje, a Eletrobrás está praticamente aniquilada. O atual presidente da empresa brada maledicências sem cerimônia. Cita cabide de empregos, a mídia reverbera e, como o povo é manso, aceita. Na realidade, mesmo antes do desmonte de seu corpo técnico realizado pelo atual presidente, ela tinha o menor índice de empregados por capacidade de geração de energia. O que adianta isso? Ninguém liga!

A tese da privatização está reforçada nos pífios resultados da empresa. Ninguém pergunta a razão e o Dr. Paulo Guedes agradece essa falta de curiosidade.

Quem “preparou” a empresa para ter índices que reforçam a ideia da privatização? O governo Dilma, que, decidindo não incomodar o setor privado, resolve usar a Eletrobrás para reduzir tarifas, que, mesmo assim, só ficam mais caras há 24 anos! O que adianta dizer que as usinas e linhas da estatal “vendem” energia por menos de 5% do preço pago pelo consumidor? Ninguém sabe e ninguém liga!

Nesse cenário, a parcela privada do setor, que já é majoritária, assistiu confortavelmente e silenciosamente o absurdo, pois essa história está fora dos jornais. Se a “eficiência” significa cobrar caro e se calar sobre teses bizarras, o setor privado é eficiente!

Mas, será que só isso foi capaz de arrasar a estatal? Claro que não! O setor privado, “eficientemente”, não investiu na expansão necessária. O governo supostamente “contra” a privatização da estatal, não teve cerimônia. Obrigou a Eletrobrás a ser sócia minoritária nos projetos privados. Só 178 projetos! Mas,… não tem o BNDES? Claro! Só que, para o “eficiente” setor privado, não é o bastante. Resultado? Aumenta o endividamento da estatal e avança-se para a futura privatização. Que conforto para o eficiente setor privado! Mas, ninguém sabe e ninguém liga!

Continuando essa história rumo ao passado, não é que encontramos mais uma vez a estatal sendo obrigada a “doar” energia? Será que foi doação para os pobres? Claro que não! Ao contrário! No pós racionamento, a Eletrobrás perdeu os contratos e teve que continuar a gerar energia, que, dada a singularidade do modelo brasileiro, foi liquidada no “mercado” livre por menos de 10% do valor médio por quatro anos no início do governo Lula!! Nesse “nicho” só grandes empresas e comercializadores. Nada para os pobres! Mas, ninguém sabe e ninguém liga!

Continuando rumo ao passado, encontramos o governo FHC que, como o povão não sabe, realizou o maior processo de privatização do planeta. Simplesmente 80 empresas estatais foram vendidas. Não são pequenas empresas não! A Vale, a Embraer, todas as siderúrgicas, metalúrgicas, bancos, mais de 20 empresas elétricas passaram para o eficiente setor privado. A dívida pública dobrou e o crescimento da economia se reduziu. Mas, ninguém sabe e ninguém liga!

Claro que os “eficientes” não iam querer as distribuidoras do Acre, Rondônia, Roraima, Piauí, Alagoas. Faz o que? Obriga a Eletrobrás a “comprar” as rejeitadas. A estatal era especialista em distribuição? Claro que não! Tinha dinheiro para comprar “na marra” 5 empresas? Evidentemente que não, mas o jeitinho foi usar um fundo público que jamais foi criado para isso. E daí? Como sempre, ninguém sabe e ninguém liga!

Portanto, que me perdoem os meus colegas, mas está muito difícil continuar acreditando que essa história camuflada, não fez parte de um projeto de desmonte do estado brasileiro, desconstrução essa que se percebe em muitos outros setores.

Como ninguém sabe e ninguém liga, no Rio de Janeiro, assistem-se as notícias de ridícula briga entre a prefeitura e a concessionária de uma via urbana. O que impressiona é que ninguém mencione que cobrar quase US$ 2 por 25 km é um recorde mundial no mundo dos pedágios. Isso mostra que, além da destruição, o Brasil é um país que não tem a mínima ideia do que seja privatização. No caso da Eletrobrás, a receita esperada é equivalente a construção de apenas duas das 48 grandes hidroelétricas da estatal.

Uma doação? Qual a surpresa? No Brasil, ninguém sabe e ninguém liga!

  2 comentários para “Ninguém sabe e ninguém liga – Artigo

  1. Antônio M M Rocha
    5 de novembro de 2019 at 12:48

    Com 57 anos, consigo passar pra UERJ, a fim de fazer Engenharia Elétrica, um sonho de adolescente. Procuro informar-me, entender a complexidade do setor na leitura não apenas de bibliografia técnica, mas também da legislação, a dicussão (rala e restrita) do anteprojeto do Código Nacional de Energia Elétrica, Aneel, Eletrobras etc. O entendimento é lento, buscando relações e padrões, pela própria limitação de neófito recém-chegado.
    Lembro-me, entretanto, do Brizola. O que não diria vendo o que teremos pela frente, em um setor vital, estratégico, a começar pelo projeto de privatização da Eletrobras que chegará hoje ao Congresso pelas mãos do Fridman caboclo, acompanhado do caipira da Barra.
    Em entrevista recente, Fukuyama, o historiador do “fim da história”, até ele reconhece que o socialismo pode voltar diante desse capitalismo predador em que não há mais sequer a solidariedade tácita entre classes que se verificava quando do industrialismo. Nesta mesma entrevista, aliás, Fukuyama apresenta como fato dado serviços públicos estatais. Enquanto aqui, a jabucaticaba só é servida quando apetece ao cinismo.
    Excelente, pra terminar, o Ilumina.
    Antônio M M Rocha, de Vila Isabel, terra de Noel.

  2. Gueiver
    6 de novembro de 2019 at 12:56

    Excelente artigo.
    Não podemos permitir a privatização da Eletrobras

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