O debate que não existe – sobre reportagem do Valor

Para deixar evidente que o grande problema brasileiro é que os temas, por mais polêmicos que sejam, não merecem um confronto de ideias opostas, vejam a reportagem abaixo:

https://www.valor.com.br/empresas/6389833/eletrobras-preve-emissao-de-acoes-e-privatizacao-no-inicio-de-2020

Pinçamos alguns trechos.

Já que as autoridades do Brasil não debatem questões polêmicas para não sofrer o risco de contestações constrangedoras, simulamos aqui o que poderia ser uma controvérsia saudável, se existisse.


Trecho I:

“A operação de capitalização é simples, se faz em 90 a 120 dias. A ação precisa ser arquitetada pelo governo junto ao Congresso”, disse o executivo, durante entrevista coletiva concedida ontem. Ele explicou que, como a União não vai subscrever a emissão de novas ações, terá sua participação diluída para menos de 50%, perdendo o controle. Caberá ao governo decidir também se haverá ou não uma ação preferencial especial (“golden share”). Para Ferreira, a ação não é “fundamental” para o país, já que o setor elétrico já é extremamente regulado pelo governo.”

Considerações do ILUMINA: Todos os eventos registrados até agora no setor indicam que o controle da Eletrobras pelo estado brasileiro foi absolutamente essencial.

As experiências concretas mostram que, se não fosse a Eletrobras, estaríamos em péssima situação. Ela foi usada para consertar problemas da modelagem de cunho privatista e mercantilista realizada sem saber privatizar (basta ver o caso da CELG). É preciso reconhecer que temos um modelo de mercado que, até hoje, está repleto de conflitos, indefinições e judicializações.

O mencionado “extremamente regulado” setor exigiu que a Eletrobras adquirisse distribuidoras rejeitadas, gerasse energia quase gratuita para o mercado livre, aceitasse ser parceira minoritária em projetos privados para “viabilizar” a decantada “pujança” do capital e assumisse praticamente sozinha uma desastrada tentativa de redução tarifária, já que, desde a adoção desse modelo incompleto, a tarifa só aumenta, aliás, assunto ausente da entrevista. 

O ILUMINA tem dados concretos sobre esses temas. Como garantir que tudo isso que ocorreu, documentado e registrado, não ocorra outra vez? Que plano B o estado brasileiro terá caso o cenário idealizado não aconteça?


Trecho II:

“Segundo Wilson Ferreira, a reforma da Previdência enfrenta o tema da dívida pública ao impedir que ela cresça, a reforma tributária simplifica tudo, e a redução da dívida acontece com venda de ativos ou ingresso de outorga.

Considerações do ILUMINA: A capitalização da Eletrobras não chega a 5% da dívida pública prevista para 2019.

A experiência da década de 90 mostrou que o Brasil vendeu quase 80 empresas estatais de diversos setores e sua dívida e carga fiscal aumentou ainda mais. O ILUMINA tem dados concretos sobre esse assunto.

Por que o estado brasileiro teve que investir em tantos setores diferentes? É bom lembrar que esse período registrou grande crescimento econômico. Não estamos propondo reestatizações, mas é preciso reconhecer que depois do fim dessa experiência, o crescimento foi muito menor. O que será diferente agora?


Trecho III:

“Segundo Ferreira, a situação da companhia hoje é muito melhor que a de três anos atrás, quando ele assumiu a presidência. Ainda assim, a estatal tem um custo de captação muito maior que o de suas concorrentes, o que inviabiliza novos investimentos.”

Considerações do ILUMINA: A estatal tem esse custo de captação justamente por ter exercido o papel de “remendos” no modelo que não funciona a contento.

Seria conveniente que o Dr. Wilson mencionasse que o crescimento do consumo brasileiro exige que sejam ofertados 2.000 MW médios novos por ano! Isso equivale a duas usinas de Itumbiara a cada ano! Seria bastante correto que o Dr. Wilson mencionasse que o mercado livre praticamente não participou da expansão da oferta. Isso obrigou a Eletrobras a entrar nas contestáveis SPE’s. Afinal de contas, é preciso dizer que, do outro lado desses “maus negócios” da estatal, há um setor privado que não compartilha do crescimento do país sem BNDES e sem parcerias.

Na realidade, o nível de consumo de energia elétrica atual é apenas ligeiramente superior ao registrado 3 anos atrás e isso proporciona estagnação de receita e, evidentemente, paralisa novos investimentos. A capacidade de Eletrobras foi esgotada justamente pela ausência do setor privado, que, hoje, segundo o discurso oficial, irá resolver tudo.

O ILUMINA tem dados concretos sobre o assunto. O que o senhor tem a dizer sobre essa ausência de independência do capital privado num setor que gerou tantos lucros para tantas empresas? Que mecanismos vão garantir que essa dependência não seja mais registrada?


Trecho IV:

“Uma das estratégias para obter a redução da dívida é a venda de ativos. Segundo Ferreira, a Eletrobras recebeu manifestações de interesse por todos os seis pacotes de participações em Sociedades de Propósito Específico (SPEs) colocados à venda, que envolvem quase 1 gigawatt (GW) de potência em parques eólicos e uma linha de transmissão de pouco mais de 500 km de extensão. O prazo para que interessados iniciassem negociações terminou na segunda-feira.”

Considerações do ILUMINA: O ILUMINA tem dados concretos sobre o assunto. Que motivos fizeram a Eletrobras ter que entrar em tantos projetos, que, hoje, depois de assumidos custos e dívidas, serão vendidos? O que aconteceria se ela não fizesse esse papel de auxiliar de um modelo que falha? O senhor conhece os dados de carga e garantia física do período 2007 – 2012?


Trecho V:

Os cortes de custos também fazem parte da reestruturação da companhia. Segundo Ferreira, a estatal deve lançar em setembro um novo programa de demissão consensual (PDC), com objetivo de desligar 1.681 funcionários, e chegar ao total de 12.088 colaboradores em 2020. “Temos duas mil pessoas em condição de se aposentar, o que pode nos ajudar a atingir o número ano que vem”, disse. Haverá dois meses para adesão, com prazo final para desligamento em dezembro.

Considerações do ILUMINA: O senhor conhece os dados internacionais sobre as corporações semelhantes à Eletrobras no mundo? Ao contrário do que o Sr. afirma, a Eletrobras é a que tem menos empregados por MW instalado. Abaixo a comparação foi feita quando o total era de 18.000 empregados. Imaginem o recorde com 12.000!

O ILUMINA tem dados concretos sobre isso, como pode ver. Gostaríamos que o senhor explicasse o que é tão diferente na Eletrobras para poder ter um índice tão baixo? Isso não é um sintoma de que o papel estratégico que ela exerceu até agora está sendo destruído? Como justificar a aceitação de saída de técnicos independente da expertise? Que Eletrobras será vendida? Apenas a caixa registradora, algumas salas e mesas?


Trecho VI:

A Eletrobras obteve lucro líquido de R$ 5,56 bilhões no segundo trimestre do ano, crescimento de 305% em relação ao mesmo intervalo do ano passado. A receita líquida somou R$ 6,64 bilhões, crescimento de 12%. O resultado foi possível devido à venda das distribuidoras de energia no grupo, privatizadas ano passado. Segundo a estatal, do resultado de abril a junho, R$ 301 milhões foram relativos às operações continuadas. Outros R$ 5,26 bilhões foram referentes às operações descontinuadas de distribuição, resultado da reversão do patrimônio líquido da Amazonas Energia, que teve a venda concluída em abril. A conclusão da obra da termelétrica de Mauá 3, da Amazonas GT, também ajudou no resultado.

Considerações do ILUMINA:  Lucro advindo de venda de ativos não pode ser confundido com lucros originários da atividade permanente e natural que é a venda de energia. Na realidade, mostrando que a empresa não tem custos altos como frequentemente é afirmado, a Eletrobras teve lucro de R$ 1,6 bilhões nas atividades específicas da empresa. Mesmo tendo que vender energia a custos 1/5 dos praticados no “mercado”!

O ILUMINA tem dados concretos sobre a história tarifária O que o Sr. tem a dizer sobre isso? Por que a questão da alta tarifária e o papel que a Eletrobras exerceu nessa vergonhosa performance nunca é examinado?

Alguém já viu alguma conversa como essa em algum orgão da mídia brasileira?

 

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