O Futuro em perigo

Roberto Pereira D´Araujo

Não se iludam com as recentes chuvas. Se realmente almejássemos uma redução da nossa cara conta de luz, seria necessário que, em abril de 2022, estivéssemos com os reservatórios em aproximadamente 80% de reserva máxima (232 GW médios). Para atingir esse nível precisaríamos uma “chuva” equivalente a adicionais 160 GW médios nos próximos 5 meses. Como precisamos de aproximadamente 30 GW médios mensais para manter a geração hídrica atual, precisaríamos de 190 GW médios de energia afluente, cerca de 130% da média de longo termo do período úmido. Se as previsões meteorológicas estão corretas, é muito improvável que isso ocorra.

O gráfico abaixo mostra, de maneira aproximada, como está evoluindo a nossa reserva de energia nas nossas usinas hidroelétricas ao longo de 2021. Até o dia 18/10.

A parte em azul registra, dia a dia, os momentos nos quais, com ajuda das nucleares, eólicas, solares e térmicas, o sistema conseguiu guardar uma parte das afluências dos rios. Pode-se perceber que, até início de Março, conseguimos “economizar” até 20% da nossa capacidade máxima, que chega a 290 GW médios.

Desse ponto em diante, fomos diminuindo a capacidade de guardar água e, a partir de final de Maio, passamos a gastar mais água do que a que chega aos reservatórios.

Esse quadro atual é extremamente preocupante, pois estamos usando todas as usinas térmicas disponíveis, como mostra o gráfico abaixo. Até 18/10

Aproximadamente metade de nossas térmicas têm custos extremamente elevados, o que provoca, em boa parte da estratégia de operação, a escolha técnica de não usá-las. Por isso insistimos em afirmar que térmicas caras esvaziam reservatórios, pois quem gera no lugar dessa oferta cara, são as hidráulicas.

Além das Nucleares que estão gerando no seu máximo, 2.000 MW médios, as eólicas e solares estão fazendo o que podem.

Essa última curva das fotovoltaicas deixa evidente que, apesar de ter crescido bastante nos últimos anos, inclusive com ajuda de subsídios no mercado livre, o que faltou foi investimento em novas usinas cujo preço não impacte ainda mais a nossa cara energia. Outras hidráulicas, principalmente as médias, eólicas, e, evidentemente, dada a nossa condição de insolação, as fotovoltaicas.

Por que estamos com o futuro ameaçado?

  • Porque, até agora, não foi possível perceber uma redução significativa do consumo. A não ser a diminuição do período do inverno, que ocorre todos os anos, parece que estamos voltando ao nível de 70.000 MW médios registrados no início do ano. Ver gráfico abaixo.
  • O sistema Sudeste-Centroeste está com apenas 16,6 % de sua capacidade, que representa 70% do total. Portanto, aproximadamente 33 GW médios.
  • O Sul e Norte que representam apenas 7 e 5% respectivamente, estão com 28% e 60%, representando apenas 5 GW no Sul e 9 GW no Norte.
  • O sistema Nordeste, que representa 18% da reserva, está com 60%, representando cerca de 20 GW, mas tem tido problemas para envio dessa energia para o Sudeste.
  • Portanto, no total, só temos 67 GW reservados, o que representa apenas 22% de “poupança” total.
  • Como faltam apenas 6 meses para o final de março, e, imaginando que, seria desejável uma volta à uma normalidade de 80% de reserva, precisamos que São Pedro nos envie 456 GW até 30 de março, em média 76 GW em cada mês até Abril de 2022 (Geração hidráulica + recomposição da reserva).
  • Como as previsões são pessimistas e o solo está muito seco, adicione-se o fato concreto que os dados mostram que isso não ocorreu em diversos anos do histórico de 91 anos. Por exemplo, o registro de 1954 é de apenas 54 GW médios/mês. No histórico de 91 anos, em 33, esses 456 GW médios não foram atingidos (36%).
  • O mês de setembro de 2021 registrou apenas 22 GW, 66% da média histórica.
  • A capitalização da Eletrobras, ao contrário do que afirma o governo, é um desestimulante para novos investimentos, pois nenhum capital do planeta despreza a prioridade de adquirir ativos prontos.

Portanto, não dá para prever o “amanhã”, mas, devemos ficar muito preocupados com as decisões do passado que nos reservaram um futuro caro e, possivelmente, de falta de energia de tal ordem, que podem romper a atual situação do modelo vigente.

  6 comentários para “O Futuro em perigo

  1. Diomedes Cesario da Silva
    4 de outubro de 2021 at 20:39

    “… nenhum capital do planeta despreza a prioridade de adquirir ativos prontos.”
    Esta verdade, que não necessitaria ser dita, se vivêssemos num país sério, esconde outra maís real: há os que constroem, como faz o Estado, e os que se apropriam destes bens em proveito próprio. E procuram passar a imagem de que isso é feito em benefício da população.

  2. ZAGA-Luiz Gonzaga Rennó Salomon
    6 de outubro de 2021 at 9:10

    Nestes dias tive a satisfação de ler dois bons artigos sobre o Tema da Crise que estamos vivendo no setor elétrico, cuja denomInação genérica deveria ser A CRISE NO SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO, daí geram sub-temas específicos e são muitos, passando por técnicos, chegam a escassez de talentos, de recursos humanos.e de modelos adequados.
    Os dois bons artigos que cito são: “O Futuro em Perigo”, aqui publicado em 03/10/21, pelo Roberto D’Araújo e “Falta Rumo ao Setor Elétrico ” – Canal Energia -04/10/21, de Armando Ribeiro Araújo, que abordam o mesmo sub-tema e um complementa o outro muito bem, coincidentemente dois Araújos.
    Mas, hoje sou surpreendido com “Risco no suprimento caiu significativamente, avalia PSR” publicado no Canal Energia, que me parece mais um artigo “chapa branca”, pois analisa o mesmo cenário, olhando o “copo meio cheio”, para depois escrever em um trecho do mesmo: “Apesar do cenário alentador, os níveis dos reservatórios devem chegar ao fim de 2021 em nível bem reduzido, trazendo preocupações para 2022” … Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão

  3. 9 de outubro de 2021 at 16:18

    Olá, seria legal se vocês, do Ilumina, analisassem o parecer do deputado Edio Lopes ao projeto que liberaliza o mercado de energia elétrica (PL 1917/2015, na Câmara). Só temos análises pormenorizadas feitas por pessoas do lado defensor das mudanças (governo, distribuidoras e comercializadores). Há uma bem alentada do pessoal da Abraceel, tecendo mil elogios a cada artigo do parecer.

    • Roberto D'Araujo
      9 de outubro de 2021 at 17:51

      Jorge:
      Mais tarde posso mostrar com dados que suportam essa minha opinião. O sistema brasileiro é único pois é capaz de reservar 290 GW médios, o equivalente a 4 meses de consumo. Esse estoque é compartilhado com todos. As afluências dos rios têm grande variância e o critério para estabelecer um equilíbrio entre oferta e demanda é que o custo de operar esse parque não fique mais caro do que o custo de expandi-lo. Só que, quando se simula o sistema, percebe-se que a distribuição dos custos operativos parece uma onda. Ou seja, a maioria das ocorrências de custo situam-se abaixo da média. Isso é possível porque, apesar de estarem acima da média, os custos altos são muito maiores do que a média. Bem, se, sob a hipótese de equilíbrio, há uma probabilidade de ter custos de operação baixos, e, como o modelo adotado adota o custo de operação como parâmetro, esse sistema destrói o equuilíbrio, pois o mercado fica viciado em contratos de curto prazo para aproveitar a vantagem da distribuição de preços.

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