O ILUMINA comenta essa entrevista do Dr. Mario Santos no Canal Energia. Ela é ilustrativa e reveladora da grande inconveniência de um modelo de mercado no sistema brasileiro. O Dr. Mario, sem querer deixa escapar as raz&oti …

O ILUMINA comenta essa entrevista do Dr. Mario Santos no Canal Energia. Ela é ilustrativa e reveladora da grande inconveniência de um modelo de mercado no sistema brasileiro. O Dr. Mario, sem querer deixa escapar as razões pelas quais o sistema tem tudo para dar errado. E mais! Lido nas entrelinhas, os conceitos emitidos pelo Dr. Mario provam a imensa trapalhada armada pelo governo. O cachorro morde o próprio rabo! Comentários nos campos azuis.


Mário Santos, presidente do ONS: "Debater medidas do plano de revitalização do setor é positivo"

"Se precisar ser feita alguma modificação estatutária, será para atender exatamente à máxima neutralidade do ONS no exercício de suas ações técnicas"


Júlio Santos, Entrevistas

18/01/2002


Além dos aspectos econômicos, regulátórios e financeiros para estimular a expansão do setor de energia elétrica, o pacote de medidas anunciadas pelo governo também tratou de olhar para o aspecto operacional do sistema. Duas das 18 medidas envolvem, especificamento, fatores técnicos da operação: o aperfeiçoamento do processo de despacho e formação de preço e as mudanças no sistema de governança do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).


"Vale a pena o modelo ser revisto para que todos estes pontos que foram levantados sejam avaliados, inclusive com a participação dos agentes, conforme definido no âmbito da GCE (Câmara de Gestão da Crise)", opina Mário Santos.


Nesta entrevista exclusiva aoCanalEnergia , Mário Santos traça um autêntico raio-x da situação operacional do sistema elétrico do país, fazendo um quadro das regiões sob racionamento, o Sudeste-Centro-Oeste e o Nordeste. "As tendências são positivas, porém sempre só se deve contar para tomar decisões de encerrar o racionamento com a água já dentro dos reservatórios", diz.


"Em síntese: boas afluências, reservatórios com armazenamento em recuperação e consumo inferior às metas (deve chegar ao final do mês com consumo cerca de 6% abaixo das metas nas duas regiões) representam sinais positivos, mas a cautela deve ser mantida, apesar das tendências realmente favoráveis", comenta.



CanalEnergia – Uns falam em fevereiro, outros em março e outros em abril. Em termos de tendência, é possível prever a saída do país do racionamento para quando?


Mário Santos – Na realidade, hoje temos duas áreas sob racionamento ainda, o Nordeste e o Sudeste/Centro-Oeste, que representam cerca de 80% do mercado nacional de energia e nas quais estão 90% da capacidade de armazenamento do país. Ou seja, onde está situada a maior parte dos grandes reservatórios de regularização e das grandes usinas do parque hidrelétrico. Esse parque representa 92% da capacidade total de geração do SIN (Sistema Interligado Nacional). Essa predominância da hidroeletricidade faz com que qualquer resposta de quando sairemos do racionamento vá depender das condições hidrológicas, sobretudo nesta época do ano, que caracteriza o período úmido, indo de novembro a abril. Vale destacar que neste período se registra praticamente 70% de toda energia afluente anual em forma de água nos reservatórios. É importante atentar para as proporções mencionadas pelo Dr. Mario Santos



CanalEnergia – Que leitura podemos fazer das previsões de chuvas para este período?


Mário Santos – Cabe ressaltar que as previsões do ONS, como qualquer outra, são de alcance mensal e, mesmo assim, por força da aleatoriedade da hidrologia, elas são revistas semanalmente. As previsões em horizonte mais estendido têm-se mostrado erráticas, como por exemplo em passado recente. Em dezembro de 2000, as previsões de todos os institutos de meteorologia eram de que o período de chuvas no SE/CO e NE seria de hidrologia média e deu no que deu. Tanto no SE/CO como no NE, os reservatórios ao final de dezembro do ano passado estavam baixos. No SE/CO atingiam 32% de sua capacidade máxima de armazenamento e no NE apenas 14% – que é praticamente um pouco mais de um terço do verificado nesta mesma época de 2000. Nestas duas primeiras semanas de janeiro tivemos afluências muito boas: no SE/CO estão próximas à média histórica e no NE já estamos com cerca de 70% dessa média, com uma tendência a chegar a 80% no mês.


É importante atentar para inviabilidade de estabelecer qualquer previsão confiável para as afluências. Num país tropical, o inverso seria surpreendente.



CanalEnergia – Que avaliação o senhor pode fazer da situação da região Nordeste, considerada a mais crítica?


Mário Santos – No caso do NE, o armazenamento está crescendo em torno de 1% ao dia, o que já asseguraria um armazenamento da ordem de 30% no final do mês. Assim, em síntese, se o armazenamento equivalente da região, essencialmente representado pelos reservatórios de Três Marias e Sobradinho, atingir valores equivalentes a cerca de 50%, o governo poderá, com segurança, após estudo da GCE, tomar a decisão de encerrar o racionamento na região. Para isto ocorrer, porém, vai depender das chuvas de fevereiro e eventualmente das de março. Se ocorrerem afluências de cerca de 90% da média desta data até o final de fevereiro, esse armazenamento seria atingido. Porém, no ano passado, com todos os institutos de meteorologia prevendo a ocorrência de vazões médias, infelizmente janeiro foi apenas razoável e depois em fevereiro tivemos vazões da ordem de 36% e em março de 38%, o que levou a afluências de período úmido no NE de apenas 45% da média. Então, é prematuro definir quando poderemos sair do racionamento. É muito mais seguro buscar uma meta de armazenamento, que é de 50% para a região Nordeste.


CanalEnergia – E a situação da região Sudeste/Centro-Oeste?


Mário Santos – No caso do SE/CO, a situação é um pouco mais complexa porque existem muito mais bacias do que no Nordeste e muitas opções. Aqui precisamos chegar a valores de armazenamento de cerca de 52%. Quando chegarmos em valores dessa ordem, a GCE poderá propor então o final do racionamento na região com mais segurança, pois o sistema suportaria até o biênio crítico. As previsões atuais, passadas duas semanas do mês, indicam que as afluências da região devem ficar em torno da média. Uma previsão que chamamos de conservadora, porque é baseada no mínimo, indica afluências da ordem de 85% da média no mês. Neste caso, deveremos chegar ao final do mês de janeiro com armazenamentos da ordem de 43% do máximo. Hoje, já estamos com 38%. Assim, a partir de agora, faltariam apenas 14 pontos percentuais para se chegar aos 52%. Afluências da ordem de 65% até o final de fevereiro farão com que este valor seja atingido. Portanto as tendências são positivas, porém sempre só se deve contar para tomar decisões de encerrar racionamento com a água já dentro dos reservatórios. Depende da hidrologia.


É importante atentar para a inexorabilidade da dependênia da hidrologia.



CanalEnergia – Nesses primeiros dias do ano, que avaliação o senhor faz do comportamentoa do consumo?


Mário Santos – Nesse quadro, ressaltamos que é necessário ainda continuar a perseguir as metas que estão determinadas e que estão sendo seguidas. Destacamos ainda que, justiça seja feita, o êxito do racionamento, assim como esses ganhos de armazenamento só se tornaram possíveis porque a sociedade assumiu o compromisso do racionamento e vem cumprindo as metas, o que nos leva a trazer aqui de público nosso agradecimento. Tanto no NE quanto no SE/CO estamos consumindo energia abaixo dos valores das metas (23.500 MW médios no SE/CO e 5.400 MW médios no NE). A se confirmar essa tendência, devemos chegar ao final do mês com consumo cerca de 6% abaixo das metas nas duas regiões. Em síntese: boas afluências, reservatórios com armazenamento em recuperação e consumo inferior às metas representam sinais positivos, mas a cautela deve ser mantida, apesar das tendências realmente favoráveis.


É importante observar que parte dessa redução do consumo é devido a recessão economica, que em parte é provocada pelo próprio racionamento.



CanalEnergia – O governo criou duas curvas guias para balizar a situação dos reservatórios. Por quê criar estes mecanismos e como elas vão refletir a real situação de armazenamento para futuras decisões?


Mário Santos – Estes mecanismos são excepcionalmente positivos. As curvas de balizamento da máxima e mínima sempre foram elaboradas pelo ONS. Esta experiência mostrou posteriormente que estes instrumentos, com devidos aperfeiçoamentos, deveriam ser formalizados e tornados instrumentos permanentes, juntamente com as curvas de aversão a risco. Isto é das grandes contribuições da GCE para melhoria do modelo do setor. Com base nestas curvas, o governo, que administrou todo o racionamento, pôde realizar as gradualizações, reduções e flexibilizações necessárias. Tudo foi feito levando-se em conta as condições de curva guia que nada mais era que assegurar que no final do ano, no final da transição do período seco para o úmido, em novembro, pudesse haver aquele nível mínimo de armazenamento, aquela reserva mínima no reservatório, que evitasse a operação a fio d’água. Tudo isso para que o controle operacional não se perdesse com eventual atraso do início do período úmido.


Aqui o Dr. Mario Santos "entrega" a estratégia anual da operação a que ficamos reduzidos. Não há nenhuma tática para a ocorrência de dois períodos secos seguidos, evento anteriormente trivial no sistema.



CanalEnergia – O que existe de novidade no mecanismo proposto agora?


Mário Santos – Hoje temos novas curvas que, agora, são guias de segurança que determinam níveis mínimos operativos que devem ocorrer no período úmido e serão utilizadas da mesma forma que as curvas anteriores. A novidade é a introdução das curvas superior e inferior que indicam os valores necessários para o atendimento do mercado sem racionamento. Elas são traçadas da seguinte forma: a superior indica qual nível deve ocorrer no final do período úmido, sem considerar o despacho da oferta emergencial e nem o das usinas do PPT; a curva inferior (que fica sete pontos percentuais abaixo) é a mesma curva, mas admite que o ONS terá à sua disposição para despacho todas as térmicas integrantes do PPT e do programa emergencial para que o mercado possa ser atendido plenamente, caso ocorra novamente a mesma situação hidrológica de um ano criticamente seco. Enfim, durante muito tempo, a variável mais importante, de maior peso, será o comportamento hidrológico.


Na realidade, não há nenhuma novidade. Os problemas conceituais enfrentados pelos defensores do sistema de mercado já eram estudados pela área de planejamento antes dela ser destruida pelo governo FHC em parceria com o setor privado. Mais uma vez o Dr. Mario enfatiza a dependência hidrológica.



CanalEnergia – Qual será o papel das termelétricas para mudar esta característica do sistema no futuro?


Mário Santos – À medida em que o programa térmico for cada vez maior, ou seja, que a participação térmica no parque gerador do SIN crescer, é que esta dependência da hidrologia vai ser relativizada. Nos próximos cinco ou 10 anos esta dependência ainda será muito grande. Portanto, as curvas são fundamentais para o acompanhamento e avaliação das condições de atendimento e, sobretudo, são um instrumento de gerência que o governo, o setor elétrico e a própria sociedade passam a ter para saber quão seguro é o atendimento presente e futuro. Com efeito, à medida que o governo, através da CBEE, está contratando as térmicas do Programa de Oferta Emergencial, o SIN passa a contar com uma reserva, um verdadeiro seguro, que pode ser acionado no caso do armazenamento se aproximar dos limites indicados pelas curvas de segurança.


O tipo de geração térmica que o Brasil necessita é o complementar. Jamais o esquema armado pelas térmicas a gás.



CanalEnergia – Uma das medidas do governo prevê o aperfeiçoamento do processo de despacho e formação de preço. O que realmente precisa ser feito? Quais serão os possíveis impactos desta medida para a operação do sistema?


Mário Santos – Este é um ponto extremamente complexo e importante, sobretudo num sistema como o nosso onde está envolvido o valor da água, não só o preço de térmica. Nos países onde a geração térmica é predominante, a tomada de preço é feita por leilão. No caso brasileiro é diferente porque está envolvido algo muito mais profundo. Nós temos um pequeno parque térmico, logo o que pesa mesmo é o custo do valor da oportunidade do uso do parque hidrelétrico. Então, na realidade nós temos um sistema muito hídrico e pouco térmico. Mas há um modelo matemático, um modelo de computação, centralizado, que levou 20 anos para ser desenvolvido, e é uma experiência brasileira, que define uma seqüência baseada no processo de otimização hidrotérmica, que define o custo da oportunidade da água. Daí, no caso brasileiro, temos uma grande vantagem: a sazonalidade de cada uma das 12 diferentes bacias e sua integração, através da rede de transmissão de integração, formam verdadeiras usinas virtuais, que vem recebendo grandes investimentos, e que permite explorar sua complementaridade a níveis anuais, gerando ganhos sinérgicos em benefício de todos.



O Dr. Mario Santos "admite" nessa resposta que o sistema brasileiro é único no mundo. A natureza e complexidade do problema operativo bresileiro não tem similar . Apenas o Canadá e a Noruega têm uma longínqua semelhança. Quanto a existência de uma modelagem matemática genuinamente brasileira, tudo é muito bonito, mas os conceitos embutidos nesse modelo estão longe de serem debatidos pela sociedade brasileira. Antes o sistema era estatal e já não era muito transparente. Agora com uma estrutura privada e meercantil, é impossível se manter essas questões controladas por alguns "iluminados".(*)


(*) Os iluminados nesse caso não pertencem ao ILUMINA



CanalEnergia – O senhor falou em valor da oportunidade do uso do parque hidrelétrico. Como isso funciona?


Mário Santos – Este conjunto, que cada vez mais deverá ser mais integrado, faz com que o sistema seja conduzido como se fosse virtualmente de um único proprietário para fins de otimização operacional: um grande condomínio coercitivo onde ao ONS cabe gerenciar o despacho hidrotérmico e este despacho de cada bacia, entre as diferentes regiões ou até mesmo entre países (no caso dos intercâmbios com Argentina e Paraguai). Todo este conjunto é integrado e daí é calculado um valor da água que define, por sua vez, o custo da operação a cada momento, a cada semana, a cada mês, garantindo o menor custo operacional para o conjunto, logo o menor preço para a sociedade.


Atentem para essa resposta! O sistema ideal para tratar a questão energética brasileira é, nas palavras do Dr. Mario Santos, o "monopólio" integrado. Isso significa que os agentes de mercado atuando no sistema não percebem as questões envolvidas. A "simulação" do monopólio será sempre necessária. Será que com essas características, é possível se implantar um sistema concorrencial sem causar confusão?



CanalEnergia – Este modelo é influenciado por que fatores?


Mário Santos – O modelo, entretanto, é muito sensível a variações de níveis de armazenamento e época de ano. Por conta disso (ele demonstrou isso agora claramente quando o sistema perdeu capacidade de regularização plurianual), os sinais de preço tinham uma volatilidade muito grande. E ainda estávamos num período de transição comercial (contratos iniciais) onde as empresas geradoras receberam a titulação de energia assegurada e todas, geradoras e distribuidoras, se achando contratadas. Isso fez com que ninguém buscasse se segurar, se cobrir, contra os atrasos de obra e a hidrologia ruim e não havia nenhum comando legal normativo regulador que viesse a correlacionar a energia assegurada (que era valor comercial) com o estoque físico real e daí orientar o despacho do sistema. Dessa forma o sistema era operado com riscos de déficit superiores a 5%, o que significa que já se despachava geração acima da energia assegurada.


Aqui, nos descculpe o Dr. Mario Santos, mas a perda de regularização plurianual, que o Dr. Mario santos admite, foi provocada pelo próprio modelo implantado pelo governo em parceria com o setor privado. Ou seja, se havia a intenção de se implantar um modelo concorrencial no sistema brasileiro, jamais se deveria se ter perdido a capacidade de regularização plurianual. Essa perda traz grandes incertezas ao sistema incompatibilando-o com um ambiente de mercado. A verdade é: O sistema de mercado inviabilizou a ele mesmo.



CanalEnergia – Quais as conseqüências disso?


Mário Santos – Isso provocou a necessidade de se reavaliar todo este problema quer quanto à volatilidade, a grande variação de preço que provocava difícil previsibilidade para contratos de longo prazo, e também quanto à necessidade de dar mais liberdade e mais responsabilidade a cada agente de fazer a sua própria oferta de preço. Claro que no caso brasileiro não pode ser qualquer preço. Para os geradores térmicos com certeza sim, mas para os geradores hidrelétricos é preciso cuidado, muito cuidado, enfatizamos, para saber qual será o grau de liberdade que se dará. Se for muito grande, com certeza a sociedade como um todo e cada agente individualmente, no final, vai perder, porque haverá a desotimização do sistema.


Vejam o risco que se corre ao tentar implantar de qualquer modo o sistema mercantil.



CanalEnergia – O governo também vai alterar o regime de governança do ONS. Na prática, o que isto vai representar?


Mário Santos – Esta foi uma medida, segundo o Comitê de Revitalização do Setor, preventiva conceitual de fazer uma reavaliação do papel do Conselho e o papel da Diretoria Executiva, de maneira que as questões técnicas de gestão que são cobertas pelos Procedimentos de Rede possam ser mais facilmente desenvolvidas pela diretoria sem precisar de necessariamente, quando for o caso, envolver o Conselho. E o Conselho como é de praxe, cuidar (como muito bem o faz hoje) das questões de gestão do Operador como entidade de direito privado que tem que ter orçamento, que tem que ter políticas de gestão e tem que seguir seus objetivos e metas que forem definidas pelo Conselho. Este assunto também vai ser discutido em audiência pública, e com certeza será esclarecido. Pessoalmente eu acho que será positivo. Se precisar ser feita alguma modificação estatutária, será para atender exatamente à máxima neutralidade do ONS no exercício de suas ações técnicas.

O ONS, dado sua imensa responsabilidade, jamais poderia ser uma entidade privada. Esses remendos não conseguem alterar esse absurdo.


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