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O Insustentável equilíbrio


Continuamos cobrando do governo uma análise imparcial do equilíbrio estrutural entre oferta e demanda sob um critério de garantia confiável. O equilíbrio só estará refeito o dia em que se mostrar que, mesmo sob hidrologia desfavorável, o sistema consegue manter a regularização plurianual dos reservatórios. Quando esse critério estiver definido e o sistema equilibrado sob essa ótica, não precisaremos desse absurdo e ilegal seguro apagão. Enquanto isso, continuamos andando no obscuro mundo da falta de planejamento e critérios. Que tal debater essa questão publicamente?



Um ano depois, sistema elétrico ainda é vulnerável

Mirelle de França e Ramona Ordoñez (GLOBO 26/05)


Há um ano o Brasil se preparava para o início do racionamento de energia, que durou nove meses e custou U$ 10 bilhões ao país. Hoje, o risco de ter de apagar a luz novamente de forma compulsória está afastado até 2003. De acordo com especialistas, no entanto, o alívio a curto prazo se deve mais ao aumento das chuvas e à queda da demanda por parte do consumidor do que ao resultado das obras de expansão da capacidade de geração, o grande gargalo do sistema elétrico brasileiro.


A luz amarela, segundo eles, continua acesa. E também segundo o presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Mário Santos, que previu risco de racionamento para o ano de 2006 na última semana.


Especialistas defendem mudança do modelo


Os especialistas defendem que, para depender menos do clima, atender a um crescimento do consumo em torno de 5% ao ano – cerca de 3.500 megawatts (MW) – e evitar um novo déficit de energia, seria necessário acelerar os projetos de ampliação da oferta e modificar o modelo regulatório (normas) do sistema elétrico para permitir mais investimentos.


– A perspectiva de risco iminente é pequena, há um certo otimismo, mas é preciso aproveitar esse momento para colocar em prática as obras de expansão do sistema com mais rapidez e mudar as regras para permitir investimentos novos de longo prazo e não apenas emergenciais – afirmou o professor da Universidade de São Paulo (USP), Ildo Sauer.


Para o diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina) , Roberto Araújo, é difícil saber se o que foi agregado ao sistema nos últimos meses foi suficiente, já que a queda da demanda de energia foi extrema no racionamento e os mesmos níveis se mantêm. Segundo ele, para este ano, estava previsto um consumo de 330 mil gigawatts(GWh), mas o consumo está 64 mil GWh inferior ao esperado.

Nota do LUMINA


O que foi dito para a jornalista é que se a evolução do mercado obedecesse a tendêencia anterior ao racionamento, seriam necessários mais 64.000 GWh do que foi consumido realmente.



– Como a demanda está muito menor, não se sabe exatamente se as obras são suficientes ou se a situação está sob controle, já que o mercado se retraiu – disse Araújo.


Faltam regras claras para investimentos


Na opinião do professor da Coppe/UFRJ Luiz Pinguelli Rosa, apesar da perspectiva de uma certa tranqüilidade a curto prazo, o país ainda tem o que ele classificou de um sistema elétrico mambembe.


– Falta o principal, que são regras mais claras para o setor, que permitam a expansão da oferta de forma definitiva. Sem elas, não há estímulo para o investimento do setor privado e nem para o desenvolvimento de outras fontes de energia – ressaltou.


O temor pelo futuro do sistema elétrico brasileiro não se limita ao meio acadêmico. Para o presidente do ONS, Mário Santos, que prevê risco de um déficit de energia em 2006, seria necessário um incremento de mais 1.500 MW na oferta para evitar novo racionamento.



Ministro admite que pouco foi feito

Mônica Tavares e Eliane Oliveira (Globo 26/05)


BRASÍLIA. O ministro de Minas e Energia, Francisco Gomide, admitiu que o que foi feito depois do racionamento do ano passado no setor elétrico ficou aquém do previsto. Segundo o ministro, isso acontece porque, como as regras do jogo ainda estão sendo aperfeiçoadas, os empresários retardam seus investimentos. Entre as normas em discussão estão o custo de expansão da energia (ou seja, da criação de energia nova) e a realização dos leilões da chamada "energia velha" (cujo custo de geração já foi pago pelo sistema como um todo).


– Poderia ter sido feito mais este ano e nos últimos meses – admitiu Gomide.


O ministro lembrou que, atualmente, só existe um custo calculado para a energia, o da hidrelétrica. Para o ministro, a energia termelétrica pode se tornar competitiva, se houver subsídio para o gás natural (que é o combustível mais adequado no país para essas usinas).


O Brasil não deixará de ser dependente das chuvas, diz Gomide, mas haveria alternativas para proteger os brasileiros de problemas decorrentes da estiagem.


Sinais verde, amarelo e vermelho para reservatórios


Uma das opções seria a criação, via projeto de lei, até o fim do ano, de um novo indicador que mostre para as empresas do setor elétrico, os governantes e a sociedade em geral quais são os níveis de risco de falta de energia, tendo como base sinais verde, amarelo e vermelho.


– Sempre há a possibilidade de uma estiagem que baixe a vazão dos rios e reduza a oferta de energia. A idéia é que a luz verde seja reservatório cheio, com abundância de água, por exemplo.


Apesar dos poucos avanços, o ministro faz um balanço positivo do último ano, pois o problema do setor elétrico foi enfrentado com coragem pela Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE).


– O problema foi superado. Abalou o consumidor, atrapalhou a vida de todo mundo, segurou o consumo de energia elétrica, criou todo aquele impacto, mas o balanço é positivo, porque aprendemos com as experiências do racionamento, que foi suspenso ao fim de nove meses. Agora, estamos na fase de revitalização do modelo do setor elétrico – disse o ministro.


O Ministério de Minas e Energia prevê que entrem no sistema este ano novos 10.924 MW – quase a energia de uma Itaipu, que gera 12.000 MW. Desse total, 3.045 MW são de hidrelétricas e 3.765 MW de termelétricas. O restante deverá vir de fontes alternativas, como energia eólica (dos ventos). O que existe até agora são 1.070 MW de hidrelétricas e 624 MW de termelétricas. A energia importada deverá ser de 1.110 MW, dos quais 550 MW já vieram da Argentina.


Para situações de emergência, serão construídas 58 usinas termelétricas, com capacidade total de 2.153 MW. Do total, 30 já estão prontas. As obras estão realmente atrasadas, pois teriam que estar todas concluídas até julho.


– Haverá a aplicação de multas, por causa dos atrasos, que entrarão no caixa da CBEE (Comercializadora Brasileira de Energia Emergencial) – enfatizou Gomide.



Cronologia da crise


13/3/01 . ONS alerta para crise de energia elétrica no país.


20/3/01 . O nível dos reservatórios no Sudeste é o menor dos últimos 40 anos


6/4/01 . Governo lança 33 medidas de racionalização do uso de energia para evitar o racionamento. Objetivo é economizar 10% do consumo.


27/4/01 . ONS anuncia que país terá racionamento de energia de até 20% a partir de junho.


11/5/01 . É criada Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE).


12/5/01 . Governo afirma que não sabia da gravidade do problema.


17/5/01 . A iluminação pública é reduzida em 35%. São suspensos shows ao ar livre e jogos à noite.


19/5/01 . Corte de luz e tarifas até 200% mais caras estão entre as medidas do racionamento.


1/6/01 . Racionamento começa para a indústria.


4/6/2001 . Racionamento começa para 32,3 milhões de famílias das regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste.


12/7/01 . Governo anuncia o Plano B do racionamento: feriados, aumento de meta e apagão.


11/10/01 . A GCE anuncia feriadões para o Nordeste. A região cumpre meta e chuvas são insuficientes.


23/11/01 . Meta de racionamento é reduzida para 7% no Rio.


18/12/01 . Contas de luz do consumidor residencial e rural terão um aumento extraordinário de 2,9%. Indústria e comércio vão pagar 7,9% a mais. O aumento compensará prejuízos de distribuidoras e geradoras.


9/1/02 . Governo cria seguro contra apagão e conta do consumidor aumenta 2% a partir de março.


13/2/02 . Nível dos reservatórios atinge 53,31%, permitindo o fim do racionamento.


19/2/02 . Fernando Henrique anuncia que racionamento termina dia 28 de fevereiro.



Energia precisa de US$ 7 bi por ano


O grande desafio do setor elétrico é como garantir os pesados investimentos que são necessários para o atendimento do consumo. Segundo o presidente da Eletrobrás, Altino Ventura, para atender a um aumento da demanda da ordem de 5% ao ano nos próximos anos – o que significa um crescimento da economia do país menor do que o da energia – são necessários cerca de US 7 bilhões anuais.


O problema é que o setor elétrico passa por um momento de total indefinição quanto aos seus rumos. Por isso mesmo, o governo federal está elaborando um conjunto de novas regras com o objetivo de revitalizar o setor. O modelo de transição que vinha sendo adotado se mostrou ineficiente criando atritos entre o governo e o setor privado.


Novo modelo deve atrair investimentos privados


O presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE), Pedro Parente, garantiu que as novas medidas de revitalização do setor, que serão anunciadas no início do mês que vem, terão como objetivo atrair investimentos privados para o setor elétrico.


Para garantir que não haverá novos racionamentos, o presidente da Eletrobrás afirmou que a estatal está disposta a participar de novos projetos de expansão do sistema, associada a sócios privados.


Ventura ressaltou, contudo, que nos projetos nos quais a iniciativa privada não se apresente, a Eletrobrás vai realizá-los sozinha, se for preciso. Para Altino Ventura o setor atravessa uma crise, com investimentos privados abaixo do esperado. ( Ramona Ordoñez e Mirelle de França ).


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