O kWh caro é o sintoma

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-encarecimento-da-energia.ghtml

Roberto Pereira D’Araujo (*)

Preparem-se para pagar um kWh mais caro. Não se enganem com comparações de tarifa usando o câmbio, pois basta uma instável política econômica para a moeda americana disparar e sua conta parecer módica em dólar. Óbvio que não é assim que se cotejam preços de energia. A maneira correta é mostrar o valor relativo do kWh em relação a outros serviços.

A Agência Internacional de Energia, já publicou um estudo (https://www.iea.org/reports/energy-prices-2020) mostrando que a tarifa residencial brasileira é a vice campeã da carestia. Em 2018, já estava só 10% abaixo da tarifa da campeã da Alemanha, e, com as péssimas notícias que surgem, talvez sejamos os campeões em breve.

Desde 2014 as afluências da maioria das bacias hidrográficas estão em declínio. Como exemplo, cito o Rio São Francisco que apresenta afluências abaixo de 50% da média de longo termo. Outro exemplo é o rio Grande, com 64% da média. Nessas bacias estão as principais hidroelétricas que nos geram eletricidade. Visões fragmentadas de muitas instituições do setor levam a conflitos crescentes entre os usos múltiplos dos reservatórios e a visão puramente energética. 

Assim como há o negacionismo da ciência no caso da pandemia, o mesmo ocorre com a questão ambiental. O professor Antônio Nobre já mostrou muitas vezes o incrivelmente desacreditado “Rio Voador” https://youtu.be/lyp83uYdtbk. O desmatamento está secando esse rio aéreo que, por sua vez, está esgotando os nossos rios reais. Como cerca de 67% da nossa energia vem das usinas hídricas, estamos mais do que avisados.

Contudo, é preciso rejeitar a confortável atribuição de culpa a São Pedro. Primeiro porque isso não resolve o problema. Segundo porque, no histórico de afluências, temos amostra de situação semelhante (período crítico 1951–1956) e, se não nos prepararmos para essa condição, podemos passar por outro racionamento.

Em terceiro, um efeito peculiar. Dada a singularidade do sistema brasileiro, temos reservatórios capazes de “estocar” água equivalente a 212 TWh, quase a metade do que consumimos em um ano. Quando parte da oferta de energia vem de térmicas muito caras (cerca de 20%), a lógica de operação evita usá-las e quem gera no seu lugar é a água dos reservatórios. Pode parecer estranho, mas, temos térmicas caras que esvaziam reservatórios!

O modelo mercantil gerou afobações para resolver problemas previsíveis. Tanto no racionamento de 2001, com as térmicas emergenciais, quanto no leilão de 2008, sequela do mercado livre, que não participou da expansão da oferta, houve ampliação súbita de térmicas, chegando a 70% da expansão total em alguns anos.  Evidentemente, novos encargos surgiram para socorrer a oferta mal programada e encarecer o kWh, sinal de que estamos planejando muito mal.

Como exemplo da instabilidade, foi preciso que a Eletrobras oferecesse sociedades, onde ela é minoritária, para viabilizar investimento privado. Não são números desprezíveis! Só em geração de energia foram mais de 25.000 MW, quase duas usinas de Itaipu com ajuda da estatal.

Mesmo assim, vende-se a ideia de que o setor privado no Brasil tem pujança e independência para assumir o controle da Eletrobras, e resolver os problemas da tarifa cara. Esquecem que, não fosse a interferência nos preços do governo Dilma, numa dose totalmente exagerada que fragilizou a estatal, já seríamos os campeões de altas tarifas.

Os dados mostram o oposto da crença. De cerca de 120 GW de usinas hidroelétricas, apenas 11 GW foram construídas pelo setor privado sem ter sido compradas prontas ou construídas em parceria com estatais. Além disso, dados do BNDES mostram dispêndios de mais de R$ 650 bilhões a preços de 2020 apenas para o setor elétrico. De fato, nunca houve esse vigor e coragem do capital em correr riscos num país com tantos problemas sociais e políticos.

Lembrar que, com o anúncio de privatização de todo o setor elétrico no governo FHC, os investimentos se interromperam. Houve um déficit capacidade nova, essa sim, a verdadeira causa do racionamento de 2001. Não é muito difícil imaginar que isso possa se repetir!

É bom lembrar o que são os nossos reservatórios! Apenas as usinas da Eletrobrás são capazes de reservar cerca 300 km cúbicos de água. Imagine um cubo com 6,7 km de lado repleto de água potável! As áreas somam mais de 18.000 km quadrados, 83% do estado de Sergipe! Imaginem o potencial de energia solar em placas fotovoltaicas flutuantes! https://www.power-technology.com/features/worlds-biggest-floating-solar-farms/

Por isso, nenhum país com sistema semelhante ao nosso privatizou todo seu setor elétrico. China, Índia, Suécia, Noruega, Rússia, Venezuela e Estados Unidos certamente vão achar bizarra a saída do Brasil desse clube tão seleto e privilegiado.

O argumento dos favoráveis à privatização é o conceito de que o Brasil não pode ter empresas públicas por conta do mau comportamento político no entorno dessas estatais. Só resta lamentar a “maldição”, pois, apenas como exemplo, todos os absurdos cometidos pelas direções que passaram pela Eletrobras feriram seu estatuto. No capítulo II, ¶ 3º, ele estabelece limites para uso da empresa em políticas que impliquem em prejuízo, caso onde ela deveria ser ressarcida pelo tesouro. Parece que o desprezo pela regra ultrapassou todos os governos.

Alvo de acusações de excesso de funcionários, qualquer comparação com empresas semelhantes mostra o inverso (https://www.power-technology.com/features/worlds-biggest-power-companies-2018/ ). A recente redução de pessoal só revela a intenção de descartar qualquer expertise do seu quadro técnico. Trata-se de limitar a empresa a seus ativos, mesmo com a venda ainda não esteja decidida.

Seja qual for o modelo de privatização, a redução de preços prometida é apenas transferência de encargos, estamos numa crise de saúde com graves implicações econômicas, o valor a ser arrecadado não altera o problema fiscal brasileiro e grandes mudanças estruturais no meio ambiente e na energia nos aconselham que esse não é o momento.

Credibilidade se faz com instituições respeitadas no mundo. A Eletrobras ainda é uma delas, mas parece que o KWh caro vai vencer.

(*) Engenheiro Eletricista, M.Sc, em Planejamento – Diretor do Instituto Ilumina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *