O que não se conta sobre o esvaziamento dos reservatórios – Artigo no Valor

 

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-que-nao-se-conta-sobre-o-esvaziamento-dos-reservatorios.ghtml

Roberto Pereira D’Araujo (*)

De repente, bandeira vermelha, onde se cobra um adicional de R$ 6,24/100 kWh, ou R$ 62,4/MWh, valor um pouco menor do que os R$ 84,89/MWh que viabilizam a construção de usinas solares nos últimos leilões! Logo, não se trata de um ínfimo aumento, como o primeiro valor quer induzir. Proclama-se também uma campanha solicitando parcimônia aos consumidores, dado que alguns reservatórios estão com menos de 5% de seu estoque.

Muito estranho, pois o crescimento do consumo de energia brasileiro, evidencia que, fruto da crise econômica e do efeito COVID-19, estamos com uma demanda 10% abaixo da tendência de longo prazo. Caso não estivéssemos patinando na economia, a energia de meia Itaipu estaria em falta! Algo está errado quando, além da súbita bandeira, mesmo sob crise econômica, as autoridades do setor solicitam mais economia de energia.

Ambientalistas têm nos avisado sobre o efeito do desmatamento da Amazônia sobre os “rios voadores” que trazem chuva para nossos rios. Os da região Norte, Sudeste e Sul têm apresentado afluências declinantes há quatro anos. O rio São Francisco está com afluências no entorno de 60% da sua média histórica desde 2014!

Mas, será que, mais uma vez, São Pedro irá levar toda a culpa? É preciso contar toda a história antes de acusar o que não se pode controlar.

O gráfico 1 mostra a evolução do estoque energético de todos os reservatórios do sistema (área cinza) comparado com o consumo total de eletricidade (curva branca), indicando que não se consegue mais recuperar os níveis de conforto desde 2015.

Alguns acham que o sistema interligado deixou de ser plurianual, ou seja, não consegue mais reservar água de um ano chuvoso para o ano seguinte. Conclusão precipitada, pois a capacidade máxima equivale a aproximadamente 5 meses de consumo apenas com hidroeletricidade. Bastaria 30% da carga ser atendida por outra forma de geração para perceber que essa reserva pode cuidar de quase 9 meses de carga. Que outro país tem essa vantagem?

Muitos acham que é urgente a construção de novos reservatórios. Esquecem que, para provocar algum efeito, grandes áreas teriam que ser alagadas com evidentes conflitos. Ressalte-se que a Eletrobras perdeu funções estruturantes na atual arquitetura institucional pró mercado. Por isso, inventários propondo projetos hidroelétricos mais integrados às regiões foram abandonados. Ao contrário do propalado, usinas sem reservatório seriam úteis pois preservariam o estoque das usinas com reservatório. Parece que, até hoje, não entendemos a singularidade do nosso sistema, e, infelizmente, desmontamos estruturas antes de saber se as novas funcionam.

A incrível outra razão dos reservatórios vazios são os “espasmos” térmicos. O gráfico 2 mostra dois períodos com grande adição de capacidade térmica. De 1998 a 2005, contratamos mais de 12.000 MW de térmicas. No segundo “boom” (2008 a 2015), contratamos mais de 20.000 MW (uma vez e meia Itaipu).

Nada contra a inserção de usinas térmicas no nosso sistema. Mas, por que essa concentração em dois períodos? Por que 70% de térmicas em um ano? É fruto de um planejamento bem estruturado? A razão é outra.

De 1994 até 2002, tivemos um grande movimento de privatizações. No setor elétrico, muitas distribuidoras e toda a geração da Eletrosul foram vendidas. Propalava-se a venda de todas as subsidiárias da Eletrobras e, como estratégia, investimentos foram adiados. Perante tal clima de troca de propriedade, o setor privado também não investiu em expansão. O resultado, ajudado por uma seca média, foi o racionamento de 2001. Portanto, o primeiro “arroubo” térmico surgiu da necessidade de socorrer um sistema que corria riscos em função de expectativas frustradas sobre a expansão via mercado.

O segundo “boom” de térmicas também ocorre após a continuidade do mercado livre, que, com redução da carga pós racionamento e descontratação das hidráulicas da Eletrobras, fez o número de consumidores livres saltarem de 5% da carga para 25% em apenas 4 anos! Hidráulicas gerando sem contrato causaram um bizarro festival de preços tão baixos, que esse mercado não contratou expansão da oferta nem para suas próprias necessidades.

Mais uma vez, esperanças sobre o desempenho mercantil se frustram e, entre outras medidas não planejadas, o leilão de 2008 contrata uma expansão térmica singular, não só pela pressa, mas pelo critério de escolha. Grande quantidade de térmicas a óleo e diesel passaram a fazer parte da nossa “oferta” de energia. Pode-se dizer que, hoje, em termos aproximados, 60% das nossas térmicas geram kWh muito caros.

Quando se contrata oferta onerosa, ao gerir o estoque de água, adia-se o uso dessas custosas fontes, pois já somos vice campeões de preço alto (https://www.iea.org/reports/energy-prices-2020). Se elas não geram energia, quem gera em seu lugar são as hidráulicas. Esse é a razão oclusa de reservatórios tão baixos por tanto tempo. Ao contrário do propalado, térmicas podem esvaziar reservatórios!

Enquanto isso, camuflada, a impressionante exceção. Apesar das baixas hidrologias do São Francisco, o reservatório de Sobradinho permanece com níveis elevados ajudado pelas eólicas e solares do Nordeste. O recado histórico está dado. Será que vamos aprender? Pelo jeito, parece que não.

(*) Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico.

 

 

 

  2 comentários para “O que não se conta sobre o esvaziamento dos reservatórios – Artigo no Valor

  1. José de Araújo
    17 de dezembro de 2020 at 12:12

    Caro Roberto:
    Faço a observação de que só aprende quem quer ou procura. Efetivamente, da década de noventa do século 20 para cá, instituiu-se uma escola onde o lucro da comercialização da energia é o objetivo.
    Daí o planejamento de longo prazo, estratégico para o desenvolvimento da nação, virou coisa de esquerdista. Só vale o curto ou curtíssimo prazo. Não vejo saída senão a volta aos valores que o setor antes praticava.
    Abraços

  2. Sérgio
    25 de dezembro de 2020 at 22:01

    Roberto

    O Rio São Francisco só não foi mais explorado este ano (Reservatório de Sobradinho), pois existe limitação na rede de transmissão com a Região Sudeste, se não, como se diz no ditado popular “tinha pisado pé na jaca”.

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