O risco do mercado brasileiro

O mercado avalia que o risco de inadimplência das pequenas concessionárias, principalmente as federalizadas, vai inviabilizar o financiamento de bancos privados para os empreendimentos. Para quem esperava vender energia só para uma Eletropaulo ou uma Light, é realmente um problema saber que uma parte do seu faturamento agora dependerá de umaCEPISA ou da CEAL.


Agora, vamos examinar a mesma questão sob outro ponto de vista. Suponha que algum investidor incauto estivesse interessado em construir uma usina para vender para essas distribuidoras do Nordeste. No modelo anterior ele correria o risco sózinho ou, como é de praxe, aumentaria seu preço. Agora, esse mesmo investidor terá no seu portfólio de clientes além das “arriscadas”CEPISA e CEAL as “confiáveis(*)” Eletropaulo e Light. Então, se piorou para aquele que só quer vender para os mercados atrativos, melhorou muito para aquele que iria pegar o mico sózinho, geralmente o Estado.


Mas o aspecto mais interessante é o que está por trás da argumentação daqueles que ainda defendem o livre mercado. Fica óbvio que, de acordo comaquele modelo, o Estado é o depositário de todos os pepinos do mercado. O setor privado se orgulharia de seus contratos “filé mingnon” enquanto o Estado que se virasse para viabilizar o resto. No tão criticado sistema estatal pelo menos o Estado poderia tirar do “filé mignon” para viabilizar o “osso”. O mais impressionante é que ainda há os que defendem a idéia de que o modelo quefoi substituidodesoneraria o Estado. Como?


O diretor da CBIE reclama que as regras mudaram e atrapalhou os negócios da Tractebel e Duke. Ora, será que ele não sabe que há razões para as mudanças? Tarifas caras, racionamento, seguro apagão, contratos abusivos, descontratação… eleição de um novo governo. Será que não é suficiente?


(*) Contanto que não seja o BNDES, que já não tem tanta certeza da confiabilidade de uma Eletropaulo







Risco de inadimplência do pool inibirá financiamento privado, diz executivo Canal Energia


Superintendente de Project Finance para Energia do Unibanco afirma que falta mecanismo de garantia real para bancabilidade de projetos

Roberto Gonzales, Negócios
17/3/2004



A venda de energia elétrica para todas as distribuidoras no pool não preocupa apenas as geradoras. O risco de inadimplência das concessionárias impedirá o financiamento dos bancos privados para os empreendimentos, segundo o superintendente de Project Finance para Energia do Unibanco, Eduardo Serra.


O executivo explica que as pequenas distribuidoras e as federalizadas podem apresentar um risco elevado para captação de financiamento das geradoras, seja pelo desconhecimento do mercado ou pela situação financeira e operacional delicada.Apesar de representar 20% da demanda do pool, o superintendente afirma que o montante é considerável para o equilíbrio financeiro dos empreendimentos.


Apesar de o modelo permitir o sequestro dos recursos da distribuidora inadimplente de uma conta-corrente sediada num banco gestor, o executivo não considera isso eficaz.”Esse mecanismo não pode ser considerado uma garantia real. É bom para liquidação de curto prazo, mas no longo é inócuo”, afirma.


Com o crescimento do risco de crédito, a modicidade tarifária no novo modelo do setor elétrico pode ficar comprometida. Serra explica que os investidores vão querer uma remuneração mais alta para cobrir os riscos. “Com esse desenho, modicidade tarifária e bancos privados não poderão conviver”, afirma.


O superintendente conta que sugeriu ao Ministério de Minas e Energia a criação de fundo para suprir os riscos do pool que poderia utilizar recursos como o seguro-apagão. Além disso, ele considerava importante a criação de fundos para garantir novos investimentos e perdas com a oscilação do câmbio.


Segundo ele, nenhum banco privado financiará projetos sem conhecer os riscos desse modelo. “Tenho dúvidas sobre o sucesso da licitação. O BNDES será o único agente financiador”, diz. O executivo acredita que a entrada de outros financiadores só acontecerá após uma avaliação dos resultados iniciais do modelo.


Comparando com a realidade atual, Serra explica que a avaliação risco era facilitada nas relações bilaterais de compra e venda de energia. Ele, entretanto, reconhece que o modelo era excludente. “Só as boas empresas tinham acesso ao financiamento para novos projetos” conta.


Tanto o superintendente do Unibanco como o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires, destacam o papel das estatais no leilão marcado para esse ano. “Nenhum agente privado que ganha dinheiro negociando energia entrará no processo. Haverá forte participação das empreiteiras, interessadas na execução do serviço”, afirma Pires.


Essa redução de interessados pode prejudicar a queda das tarifas previstas pelo Ministério de Minas e Energia. “Como a concorrência é por preço de tarifa, a tendência é ficar mais alta pela falta de intessados”, comenta Serra. Para Pires, o governo criou um problema quando rompeu o contrato com agentes privados como Tractebel e Duke Energy.


“Essas empresas vieram para o Brasil atraídas pela negociação no mercado livre. Agora, as regras mudam”, observa o diretor. Sobre o interesse das construtoras e estatais, o diretor do CBIE diz que é um retorno às práticas do passado. Ele, entretanto, lembra das restrições de investimento das estatais devido ao superávit primário. O governo, diz, pode colocar em risco a política macroeconômica, se tentar dar fôlego às companhias públicas.

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