O silêncio dos que sabem – Artigo

Roberto Pereira D’Araujo

Aumentos tarifários recordes, a maior empresa pública estatal praticamente quebrada, reservatórios vazios, ações judiciais por todo lado, bandeiras tarifárias ligadas e, ninguém sabe como chegamos a isso??

Não conhecemos melhor método de entender o que ocorreu com o setor elétrico brasileiro do que mostrar os dados.

O ano de 2011, um exemplo de hidrologia exuberante (30% acima da média), “fala” eloquentemente através dos números, mas, …ninguém ouve.

Linha preta – Consumo total no sistema interligado nacional.

Linha azul – Geração total das hidroelétricas.

Linha pontilhada – Garantia Física (GF) total das hidroelétricas.

A GF é a capacidade máxima de contratação das usinas (parte do modelo). Aqui já percebemos algo estranho. A GF no período chuvoso (Janeiro a Março) é menor do que no período seco (Junho a Setembro).

Isso se deve à estratégia comercial dos agentes que, com permissão da regulamentação, alocam mais garantia nos períodos onde o preço spot brasileiro está mais alto. Arranjo puramente especulativo, contrário à lógica física. Mas, estamos no Brasil e como os consumidores não entendem a complexidade do modelo adotado lá atrás em 1995, fica por isso mesmo.

Reparem que as hidráulicas geraram sempre acima da sua garantia física. Tanto que acumularam no ano um excesso de 70 GW médios de sobra, cerca de 12% do consumo total.

Portanto, as nossas caras térmicas e outras fontes geraram apenas cerca de 12% da energia que consumimos nesse ano de 2011.

 

Agora é preciso explicar a quem não conhece. No Brasil existe um mercado das distribuidoras (cativo) e um mercado livre (que não compra a energia das distribuidoras).

Dado incontestável: 25% do consumo total de energia no Brasil é feito no mercado livre. Ou seja, um em cada quatro MWh é “pago” no “mercado”.

Em 2011, 0 custo médio do MWh para o setor residencial, que está no mercado cativo, foi de R$ 311. E o que ocorreu nesse mercado livre brasileiro?

O gráfico acima mostra que o MWh oscilou de R$ 50 a R$ 10! Nas quatro regiões brasileiras!! Isso significa que o setor residencial chegou a pagar 30 vezes mais caro do que no mercado livre. Reparem que o valor mais alto ocorreu no período chuvoso, mostrando que a estratégia especulativa deu certo. Muita água? Garantia menor!

Portanto, a óbvia pergunta é: Quem se aproveitou da exuberância hidrológica do ano 2011, véspera da crise? Resposta: O mercado livre.

Os agentes que estão nesse “nicho” dirão que os preços reais não são os do gráfico, pois ele representa apenas o PLD (preço de liquidação de diferenças).

O ILUMINA responde: OK! Então quais foram os preços reais?

A resposta será como sempre foi, um total silêncio.

O problema é que essa situação injusta não ocorreu só em 2011! O Gráfico abaixo mostra que o mercado livre só teve o preço acima do cativo em Janeiro de 2008 por problemas de garantia de suprimento do gás da Bolívia.

Portanto, um verdadeiro “Bolsa MW” aconteceu de 2003 até 2012! Como São Pedro não tem advogados, as instituições MME, CCEE, ONS, EPE (muitas não?), culpam o Santo por hidrologias ruins.

Esquecem que o estoque de água nos reservatórios depende também de investimentos para a construção de novas usinas. Afinal, nós precisamos de 2.200 MW médios NOVOS a cada ano. Se isso não ocorre, usa-se mais o estoque.

O gráfico abaixo mostra que desde 2012, não conseguimos mais encher os reservatórios.

Pior! Se, ao perceber essa falta de novas usinas, um leilão em 2008 contrata muitas térmicas caras, elas acabam usando mais água em substituição a sua cara energia. É isso mesmo! Térmicas caras comprometem ainda mais a reserva hidráulica.

Mas, se você estivesse nesse bizarro mercado livre brasileiro que mostra preços tão baixos, você faria um contrato de longo prazo para que uma nova usina seja construída? Claro que não! 

Portanto, mais desenhado impossível! Por que a Eletrobras foi obrigada a entrar em parcerias “bondosas” com o setor privado? Por que hoje temos o dobro de térmicas caras contratadas? Quando ¼ dos consumidores, APESAR DE PARTICIPAREM DO MESMO SISTEMA INTERLIGADO, chegam a pagar muito mais barato do que o resto, qual a surpresa para a tarifa brasileira estar entre as mais caras do planeta?


Conclusão: O setor elétrico está em crise. Ela têm raízes estruturais. A complexidade impede que consumidores entendam o que aconteceu. Muitos desconhecem a realidade, mas o grande problema é justamente os que sabiam e se calaram.

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      7 comentários para “O silêncio dos que sabem – Artigo

    1. José Antonio Feijó de Melo
      6 de junho de 2018 at 16:37

      Roberto
      Parabéns pela excelência deste trabalho. Mais claro do que isso, impossível. São 23 anos de erros sucessivos que se vão acumulando e o resultado não poderia ser outro.
      Durante todo esse tempo, diga-se, desde 1996 quando da sua criação, o Ilumina procurou sempre mostrar o que estava errado, mas nunca foi ouvido.
      A questão é saber até quando vamos continuar com a pantomima desse modelo institucional absolutamente inadequado às condições brasileiras.

      • Roberto D'Araujo
        7 de junho de 2018 at 13:55

        Feijó:

        Os que sabiam e sabem, continuam em silêncio.

    2. Olavo Cabral Ramos Filho
      7 de junho de 2018 at 11:53

      Sem usar a palavra esquerdas , usando a palavra progressistas , significando, como base minima, SOBERANIA RADICAL e abandono do COMPELXO DE CACHORRO VIRA LATAS :

      Vamos aguardar outubro e novembro e depois ; SEM CONCILIAÇÕES É CLARO !

    3. VAUCLERC BRAGA CORDEIRO
      9 de junho de 2018 at 22:52

      Muito bom artigo, mas tem uma certa dose de desinformação talvez intencional.
      A maioria das térmicas não foram construídas para substituir hidrelétricas e nem para operar na base. Se isso ocorreu foi por conta de gestão incompetente do setor elétrico brasileiro.

      • Roberto D'Araujo
        10 de junho de 2018 at 10:23

        Vauclerc:

        No passado, quando os nossos reservatórios eram capazes de “guardar” a energia equivalente a um ano de consumo, nossa necessidade de térmicas era mais por razões elétricas do que energéticas. Hoje, essa “poupança” relativa se reduziu a 5 meses ou menos. Portanto, ainda precisamos sim de térmicas na base, pois, infelizmente, o Brasil sempre atrasado nem começou a estudar o que aconteceria com a gestão dos reservatórios caso eólica e solar assumissem proporções significativas.
        Além de desmontes do planejamento em favor do mercantilismo, que você denuncia, térmicas caras ganham uma garantia física, o que significa que são computadas na oferta. Portanto, quanto mais cara uma térmica for mais ela compromete um pedaço da reserva. Eu diria que a incompetência está ligada a uma ideologia mercantil desconectada do mundo físico, o que nos torna cada vez mais ridículos.

    4. José Antonio Feijó de Melo
      12 de junho de 2018 at 11:52

      Pois é Roberto. E apesar desses erros serem claríssimos, os (ir)responsáveis pelo setor continuam insistindo na mesma direção. Mas na verdade, nesses vinte e tantos anos nem todos ficaram em silêncio. O Ilumina gritou o tempo todo. Você mesmo deve estar rouco.

    5. Brunno Siqueira
      14 de junho de 2018 at 12:48

      É lamentável acompanhar esses equívocos durante tanto tempo e ao final ainda vê-los tentarem justificar os prejuízos da Eletrobras para a privatização. Covardia!

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