Os Indícios – Artigo

Roberto Pereira D’Araujo

Aproveitando, como metáfora, o fato de que a Eletrobras e São Pedro estarem sendo acusados de todos os problemas do setor elétrico, resolvemos tentar mostrar o enorme grau de desinformação que tem sido praticado no Brasil.

Quem não conhece os números do setor, geralmente, fica confuso com essa explicação. Entretanto, como temos constantemente afirmado, os consumidores brasileiros desconhecem a história do setor baseada em dados reais.


Em primeiro lugar, é preciso esclarecer o que é o sistema brasileiro quando comparado ao de outros países.

  • Quais são os maiores produtores de energia hidroelétrica no mundo?

  • Como se pode ver no gráfico acima, o Brasil é o segundo colocado, atrás da China.
  • Apesar dessa liderança mundial, a hidroeletricidade chinesa representa apenas 20% da energia elétrica consumida naquele país!
  • Entre os outros mencionados, apenas a Noruega é quase 100% hidroelétrica. Nos Estados Unidos, por exemplo, a hidroeletricidade responde por apenas 8% da sua matriz.
  • O Brasil tem cerca de 70% da nossa capacidade em usinas hidráulicas. Entretanto, por conta da nossa hidrologia tropical exuberante, há anos onde quase 90% da energia consumida veio dos nossos rios!
  • Então seríamos comparáveis à Noruega?
  • Não, por dois evidentes motivos. 1 – Nós temos um clima tropical, eles têm neve! 2 – Nós temos grandes reservatórios de água nas usinas e podemos controlá-los, eles não.
  • Se todas as nossas “caixas d’água” estiverem cheias ao mesmo tempo, a energia reservada seria equivalente a quase ½ ano de consumo. Recorde no planeta!
  • O outro grande diferencial é que essas usinas são interligadas por um sistema de transmissão que faz com que esses reservatórios e linhas funcionem com um sistema de “vasos comunicantes”, onde regiões com eventos hidrológicos distintos podem exportar e importar energia entre elas melhorando a eficiência do sistema. Essa conexão coordenada possibilita um aumento da oferta de energia hidráulica, algo inusitado para ser associado a linhas de transmissão!
  • O nosso sistema tem a lógica de um controle de estoque, algo inexistente na maioria dos setores elétricos do mundo.
  • Se há um sistema com alguma semelhança com o brasileiro seria o do Canadá, mas apenas nas províncias de Quebec e British Columbia, justamente por conta dos reservatórios, mas não por conta da sua extensão territorial.

Dito isso, podemos concluir que não existe sistema semelhante ao brasileiro no mundo!

Apesar desse aspecto não ser o único foco desse artigo, é muito estranho e contestável que um sistema tão singular como o nosso esteja sendo tratado como outro qualquer. Além disso, é preocupante estarmos às vésperas da possível privatização da Eletrobras! A empresa foi, simplesmente, a criadora desse sistema integrado e único! Nos últimos anos, para mimetizar situações fisicamente distintas, a fantástica metodologia de expansão e gestão, criada pela Eletrobras, foi muito mal aplicada. É fácil confundir os temas e cometer o erro de julgar as ferramentas, ao invés de condenar quem faz mal uso delas.

Além disso, estamos fazendo isso eclusivamente por problemas fiscais do estado, sem debates e sem avaliar as consequencias.

No mínimo poderíamos perguntar as razões que justificam muitos dos países citados permanecerem com empresas estatais e estratégicas.

Que estranha maldicão tem o estado brasileiro para não poder ter empresas públicas, mesmo quando tantos indícios mostram que o inverso deveria ser adotado?


Mas, o problema não é só esse!!! Em 1995, o Brasil deu duas grandes guinadas simultâneas:

  • A primeira, a privatização da maioria das empresas distribuidoras e parte da geração.
  • Vendemos 26 empresas elétricas por aproximadamente US$ 30 bilhões líquidos. Essa “venda por atacado” pouco afetou o problema fiscal do estado brasileiro. Na realidade, a dívida pública, que era de aproximadamente 37% do PIB, passou para 76%, mais do que dobrando em valor real.
  • A lista de empresas está abaixo, para quem quiser conferir.

 

  • Ao contrário do que querem fazer parecer, o setor elétrico brasileiro é de maioria privada! Não estamos “demonizando” as empresas privadas! Estamos apenas recuperando a verdade dos fatos.

  • A segunda ginada, no modelo de comercialização.
  • Apesar de toda essa singularidade brasileira e da relativa “novidade” da experiência mercantil no mundo, adotamos um sistema onde a geração de energia é vista como uma “mercadoria”.
  • É como se o consumidor pudesse encomendar X kWh de uma usina e recebe-los através do sistema de “transporte” (transmissão) em sua casa.
  • Num sistema de base térmica, essa ideia pode fazer algum sentido, pois o preço da geração depende apenas do combustível e da eficiência das usinas. A competição pode ser real, e, quem tem energia mais cara que o preço do mercado pode ficar com a usina desligada.
  • Mas num sistema de base hidráulica, com as variações de energia das afluências num clima tropical e com a possibilidade de ter um estoque de energia de tamanho comparável a vários meses de carga, essa escolha é, no mínimo, arriscada.
  • Aqui, por razões ligadas à nossa singularidade, uma usina térmica pode ficar desligada e vendendo energia. Essa situação esdrúxula é justificada pelo fato de que não teria nenhuma lógica gerar com térmicas quando as hidráulicas poderiam gerar no seu lugar.
  • E quando elas são capazes de gerar no lugar das térmicas?
  1. Quando realmente há muita água sobrando, ou…
  2. Quando as térmicas, sendo contabilizadas na oferta de energia, por serem muito caras, não são ligadas. Essa lógica acaba por exigir mais do que as hidráulicas podem gerar sem correr risco.
  • Esse parece ter sido o que ocorreu, pois, em 2008, confiando exclusivamente na filosofia mercantil com uma adaptação ao sistema brasileiro, o governo contratou grande quantidade de térmicas a óleo e diesel.
  • Ao fazer isso, foi “contratado” também o aumento do risco de esvaziamento dos reservatórios. Esse risco passou a ser uma realidade. como mostra o gráfico abaixo (unidade do eixo vertical em número de meses equivalentes de consumo).

Quem não entendeu o que estamos explicando, não nos culpe pela complexidade. Acreditem ou não, a responsabilidade é da modelagem repleta de subjetividade e instabilidades adotada desde 1995 e mantida até hoje. Um modelo contábil extramamente complicado tenta fazer o “acerto” da competição, mesmo com o fato das usinas não comercializarem a sua própria energia!


Na prática, qual foi o resultado importante para o consumidor?

Aumento tarifário, como pode ser visto nos gráficos abaixo. Industrial (+ 134% real) e residencial (+ 55% real).

Portanto, é essencial recuperar a verdade. A prometida eficiência do sistema mercantil e privado resultou no inverso da promessa. Problemas na modelagem? Então vamos aprofundar a questão, mas sem esconder o fato concreto, pois não vemos essa informação sendo explicitada pela imprensa ou pelas autoridades. A linha pontilhada (eixo vertical direito) é o percentual de sobrepreço em relação a tarifa inicial corrigida pelo IPCA.


A culpa de São Pedro:

Considerando que, quase diariamente, tentando justificar os aumentos tarifários das bandeiras, o governo e a mídia declaram que a atual situação hidrológica é “a pior já registrada”, resolvemos checar.

O Brasil tem um registro histórico das afluências dos rios que alimentam nossas usinas. Na prática, ao invés de mostrarmos esses dados em metros cúbicos por segundo, o que se faz é “simular” essas afluências históricas sendo “turbinadas” e transformadas em energia (MW médio) no sistema atual.

Portanto, os números abaixo, que representam a energia natural ocorrida em cada ano, não são o que ocorreu naquele ano com o sistema existente na época. São as afluências daqueles anos valorizadas energeticamente pelo atual sistema. Estão ordenadas do ano mais seco ao mais úmido.

Só assim podemos comparar as “secas” históricas.

  • Esses valores representam o total de energia natural bruta nos 4 subsistemas (Sudeste-Centro-oeste, Sul, Nordeste e Norte) somados.
  • Estão ordenados de forma crescente. Por exemplo, o registro mais seco foi o ano de 1953, o mais úmido, o ano de 1983.
  • As colunas vermelhas são os registros da década de 1950 (1951 – 1956)
  • As colunas amarelas são os registros atuais (2011 – 2016) que, segundo as autoridades e, infelizmente, a mídia, são os mais terríveis registrados.
  • À título de comparação, a coluna verde representa a hidrologia do ano do racionamento (2001).
  • A barra marrom o nível atual da carga.

Portanto, não há como enganar. A sequência de registros da década de 1950 é bem pior do que a sequência atual. Atenção! Estamos apenas afirmando que, considerando o histórico, há registros piores do que os do período atual. Como a base de dados da gestão do sistema é o histórico, essa “seca” não deveria ser surpresa.

Para terminar, nos dirigimos ao Sr. Ministro pedindo explicações sobre o aumento de “eficiência” que seria conseguido com a privatização da Eletrobras (*).

Quem é mais eficiente? Um sistema anterior, onde a Eletrobras exercia o que hoje é preenchido pelo ONS, CCEE e EPE com tarifa mais baixa, ou sistema atual, onde a Eletrobras cobra preços irrisórios e, mesmo assim, a tarifa é muito mais cara?


(*) Se algum leitor tiver algum meio de enviar essas observações e perguntas ao MME, agradecemos. Já tentamos obter respostas, inutilmente.

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      2 comentários para “Os Indícios – Artigo

    1. adilson de oliveira
      4 de outubro de 2017 at 19:20

      Roberto

      Um dos mitos que é preciso desmistificar é que as hidrelétricas são necessariamente mais baratas que as térmicas, .

      O custo do KWh resulta da soma do custo de investimento com o custo operacional.

      As hidrelétricas têm custo OPERACIONAL mais baixo que as térmicas.

      No entanto, o custo de seu KWh depende do seu custo de investimento.

      Não é claro que hidrelétricas com custos de investimento corretamente estimados (como Belo Monte) tëm KWh com custo mais baixo que o de uma térmica alimentada com gás natural.

      Esse aforismo é insistentemente veiculado para justificar a atual tunga no bolso dos consumidores de R$ 2 milhões por hora para pagar a jabuticaba denominada bandeira tarifária.

      • Roberto D'Araujo
        5 de outubro de 2017 at 12:48

        Adilson:
        Penso que há alguma lógica na possibilidade de que usinas hidroelétricas de 50 anos possam ter tarifas mais baixas do que outra de 5 anos. Claro que se pode “arrebentar” com essa lógica, que foi mais ou menos o que ocorreu aqui.
        Agora, dá uma olhada no MWmédio afluente de 1983, ou até de 2011. Mesmo usinas novas podem ceder essa energia extra às térmicas. O que não pode, e isso acho que concordamos, é esse preço valer uma cocada sem a mariola e ser apropriado no mercado livre.
        O que chega a ser RIDÍCULO é que nós já tivemos a CCC do sistema interligado, que fazia um fundo para reduzir o custo dos períodos de vacas magras. Mas, aqui, você sabe, nós somos bons em demolição.

        Abcs

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