Para garantir leilão, governo vai mudar cálculo de preço de energia – Folha de SP

Comentário: Como já é comum no Brasil, discute-se a febre ao invés de discutir a doença. Para o consumidor final, que paga as contas, nada vai mudar. O que se está decidindo é apenas o nome do custo incorrido. Se reduzirem o valor máximo do PLD, o custo que sobra vai se chamar ESS (Encargo de Serviço do Sistema) e vai para a conta de luz do mesmo jeito.

O que chega a ser burlesco é que muitos agentes estão preocupados com o PLD max, mas há pouca discussão sobre o PLD min. Se o PLD max incomoda e deve ser reduzido para traduzir um custo mais representativo do parque térmico, porque não fazer o mesmo com o PLD min? Porque mantê-lo em R$ 15,62/MWh, valor que não tem paralelo em nenhum mercado de energia do mundo?

Aliás, o assunto esbarra outra vez na desastrosa MP 579. A própria reportagem compara o PLD max com o custo médio de geração das usinas que aderiram ao plano de renovação das concessões em 2012 como sendo R$ 30/MWh. Na realidade, se a média for ponderada pela garantia física, esse preço é ainda menor. A média das usinas da Eletrobrás, as maiores, está abaixo de R$ 10/MWh.

Por que insistimos em ter o setor elétrico mais bizarro do planeta?


 

MACHADO DA COSTA
DE SÃO PAULO

Para tentar garantir o sucesso do leilão de energia marcado para 3 de dezembro, o governo vai reduzir o teto do preço da energia no mercado de curto prazo, chamado PLD (preço de liquidação das diferenças).

O objetivo é desestimular que empresas deixem de vender energia no leilão para obter um preço maior no mercado de curto prazo em 2015.

No leilão de dezembro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tenta garantir oferta de energia suficiente para que as distribuidoras de energia não enfrentem um problema semelhante ao deste ano, quando registraram um prejuízo de R$ 19 bilhões.

Isso aconteceu porque, em 2013, dois leilões não atraíram geradores em volume suficiente. Eles preferiram apostar na alta do preço no mercado de curto prazo.

Com a oferta menor, as distribuidoras não conseguiram contratar o volume de energia necessário para garantir o fornecimento de energia. Tiveram, assim, que recorrer ao mercado de curto prazo.

Atualmente, o teto do PLD é de R$ 822,83 por megawatt-hora. Como comparação, o custo médio de geração das usinas que aderiram ao plano de renovação das concessões em 2012 é de R$ 30 por megawatt-hora.

O governo quer reduzir o PLD em até 50%. Algumas possibilidades ainda estão em estudo. Uma delas é trocar a usina que serve de base para o teto –que hoje é a de Camaçari– por uma mais barata. Outra é definir como teto a média ponderada de todas as termelétricas do país.

O Ministério de Minas e Energia afirmou que o corte está na pauta de reunião da Aneel, marcada para esta terça (14). A Aneel se pronunciará somente após a reunião.

Os efeitos desse corte, no entanto, podem elevar encargos cobrados do consumidor, já que o pagamento das usinas termelétricas é feito pelo custo de operação, calculado pelo governo.

Se o Operador Nacional do Sistema define que usinas mais caras que o teto do PLD devem ser ligadas, o custo extra é cobrado na conta de luz. Se o PLD baixar, portanto, como o custo de operação das térmicas continua o mesmo, cresce essa diferença que é repassada ao consumidor.

Cristopher Vlavianos, da comercializadora de energia Comerc, diz que usinas mais caras do que o teto atual somam menos de 500 megawatts de potência. Com um possível corte de 50%, usinas que somam cerca de 10.000 MW (15% da demanda) ficarão acima do novo máximo.

“Hoje, os encargos não ultrapassam R$ 40 milhões por mês. Com o corte, isso poderia subir para quase R$ 1 bilhão mensais”, afirma.

Outra reclamação é sobre o efeito econômico: com pouca oferta de energia, seu preço deveria subir, o contrário do que irá acontecer.

Ildo Sauer, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, diz que a discussão sobre os custos da energia precisam ir além do PLD. Segundo ele, o sistema está desequilibrado e a fórmula de medição do valor da energia é equivocado.

“Fatores aleatórios, como a chuva, são os definidores dos preços da energia no Brasil. Isso causa instabilidade e insegurança. É preciso um debate amplo, de preferência no Congresso, para estabelecer uma nova base de cálculo.” 

 

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