Pioram os sintomas de republiqueta de banana – Artigo

Roberto Pereira D’Araujo

Ao nascer do ano 2019, o mundo do “mercado” está esfuziante. O discurso de posse do Dr. Paulo Guedes reafirmou o que a entidade mercado esperava. O mundo do mercado acionário é assim mesmo. Bastam algumas frases para que rios de dinheiro corram atrás de imaginários ganhos.

Entretanto, surpreendente foi sua afirmação sobre o gasto de “um plano Marshall por ano” para transferir renda aos “rentistas”. É preciso reconhecer que, pelo menos no discurso, ele incluiu as grandes empresas privadas que funcionaram durante muito tempo sob os favores do estado. “Piratas privados” foi o termo usado para denunciar “criaturas do pântano político que se associaram contra o povo brasileiro”. É preciso distinguir que esse diagnóstico é perfeito.

Então qual é problema?

Duas principais reformas foram anunciadas: Previdência e privatização.

Nessa última, figura como principal protagonista a Eletrobrás. A imprensa, que sempre foi favorável a venda, apoia o discurso do próprio presidente da empresa, que alardeia que, finalmente, o povo brasileiro ficará livre dessa fonte de “ineficiência”. Será? Alguém já conferiu essa “ineficiência”? Na realidade, a empresa está sendo posta à venda para tentar reduzir o imenso déficit fiscal do estado.

Primeiro, me dirijo aos que apoiam a venda da Eletrobrás tal como está sendo anunciada. Por favor, respondam a essas perguntas:

  1. Imagine o valor que ela atingiria se, na década de 90, não tivesse sido obrigada a adquirir empresas distribuidoras que não interessaram ao mercado. A pergunta é: Onde estava a pujança do capital privado para enfrentar os desafios de mercados desiguais? Empresas deficitárias por pertencerem a estados com grandes complexidades ficam com a Eletrobrás? Lucrativas com o privado? Essa “ineficiência” nasce onde? Dentro da estatal?
  2. Imagine o valor que ela atingiria se não tivesse sido obrigada a fornecer energia quase gratuita ao mercado livre no período pós racionamento (informem-se). A pergunta é: Será que o “sucesso” desse nicho que hoje representa 30% do consumo total não é devido a essa “ineficiência” imposta à Eletrobrás?
  3. Imagine o valor que ela atingiria se não tivesse sido obrigada a fazer sociedades com o setor privado para viabilizar empreendimentos que, mesmo com os subsídios dos empréstimos BNDES, ainda exigiam uma estatal para dar uma “ajudinha”. Onde estava o comprometimento com a expansão da oferta de energia das empresas privadas que estavam se “lambuzando” de energia barata no mercado livre? Quantas usinas contratou?  
  4. Imagine o valor que ela atingiria se não tivesse sido obrigada a tentar reduzir tarifas sem incomodar o setor privado. Lembrando, o privado já é majoritário no setor! Perante toda a sociedade e perante todos os especialistas, assistiu-se passivamente à destruição de uma estatal que, da noite para o dia, perdeu 70% de sua cotação. Num governo dito de “esquerda”!!
  5. Um setor majoritariamente privado, com um regime mercantil aprovado por todos os empresários, só elevou os preços do kWh. Nem com a “ineficiência” forçada da Eletrobrás consegue reduzir tarifas?
  6. Imagine o valor que ela atingiria se não tivesse feito investimentos de ampliação de rede nas distribuidoras que foi obrigada a assumir. Na CEPISA (Piauí) por exemplo, esses investimentos superam os compromissos firmados pelo grupo Equatorial que adquiriu a concessão. Isso também é ineficiência?
  7. Finalmente, imagine o valor que ela atingiria se não tivesse perdido toda a sua expertise técnica comprovada pela sua própria história que, infelizmente, a republiqueta parece ter esquecido? Mesmo com índices de empregado por MW instalado menores do que as grandes empresas internacionais, a estatal incentivou o desligamento de funcionários, não importando seu conhecimento técnico.

Infelizmente, na atmosfera de republiqueta, a força da desinformação é descomunal. Na republiqueta é fácil destruir instituições que ruem com a mesma naturalidade do palácio do Monroe. Na republiqueta não interessa a história. Na republiqueta usa-se e abusa-se de instituições até seu esgotamento e, depois, vende-se. Na republiqueta culpa-se o estado e perdoa-se o capital privado. Na republiqueta as diversas parcelas da sociedade não se reconhecem como responsáveis pelo enredo dessa tragédia brasileira. Na republiqueta o individualismo supera o conceito do público.

O Ilumina fez o que pode.

 

 

  7 comentários para “Pioram os sintomas de republiqueta de banana – Artigo

  1. Ruderico Pimentel
    3 de janeiro de 2019 at 12:25

    Roberto, acabou o dinheiro e agora…e agora José??

    Voltando no tempo apenas um pouco, pós 95, com as leis das concessões não teria sido a hora de arrumar essa falsa e pretensa multi-divisional? nessa época mudaram radicalmente os modelos de negócios do setor que deixaram de ser regionais, cartoriais e com as grandes obras diretamente dentro das empresas? que tal redesenhar essa estrutura, que não se adequava mais à realidade??

    … pior, era que nem fora nem dentro das empresas se tinha apoio para uma arrumação que lhe devolvesse competitividade… E como gerenciar isso, se a cada tímido movimento de arrumação, algum governador, senador, deputado.. se levantava e e dizia que em seu sagrado solo ninguém mexia… e ainda com o apoio dos sindicatos….

    Isso é saudosismo de velho… Mas, mais perto de hoje, o governo Dilma jogou a pá de cal e acabou com o fluxo de caixa da empresa, que era gerado ainda pelas usinas antigas, sem tirar dela todos os prejuízos nela históricamente espetados… e ficaram os compromissos futuros em grandes projetos com tarifas tão comprimidas (modicidade tarifaria.. a qualquer custo… para alegria da fiesp) quanto possível…. honestamente, de fora, sem dados, não sei dizer se os recebimentos por conta da antecipação da entrega de investimentos antigos possam ter compensado um pouco as perdas…. mas creio que não…. e sem ebitda não tem gestor que de jeito

    Esquecendo os problemas críticos de gestão das bacias hidrelétricas e alguns outros…. hoje, como manter o papel, que sempre me pareceu mais crucial, de garantidor dos grandes investimentos setoriais, frente às inevitáveis falhas de mercado do setor? sem dinheiro???

    Só recuperando as tarifas das usinas antigas para valores mais realistas… mas… em um Estado contando seus poucos caraminguás … se isso for feito para onde irão esses recursos?

    Só resta torcer para que esse novo campo institucional do setor, com muita energia eólica e solar, de conta do que vem por aí… mas temo que a complementação dos grande projetos e das binacionais ainda farão muita falta.. e o mercado é ótimo, mas não pode tudo…

    • Roberto D'Araujo
      3 de janeiro de 2019 at 13:03

      Ruderico:
      O que estou tentando apontar é que, olhando sob uma perspectiva de longo prazo, um observador externo diria que houve um projeto de destruição de valor. Esse mesmo observador diria que isso não é comum em repúblicas não bananeiras. O que é inacreditável é que isso foi feito multipartidariamente com a crença de que havia diferenças ideológicas marcantes entre os comandantes dessa política. O observador externo pensaria: Típico de republiqueta!
      Eu assisti na internet uma palestra do Hubner sobre a MP 579. Ele mostra que a Noruega aplicou a amortização e por isso tem preços mais baratos. Ele só esqueceu de uma pequena diferença. O Brasil, mesmo com um crescimento econômico ridículo precisou de 2 usinas como Itumbiara por ano! A MP 579 simplesmente esterilizou o auto financiamento. Em que tipo de país se faz esse crime sem consequencias? Nas republiquetas.
      O artigo é um reconhecimento de derrota. Se vai dar certo, não sei. Pela experiência com o capitalismo brasileiro, acho que vai dar errado. Mas, talvez com os Chineses….

  2. Sebastião Dussel
    4 de janeiro de 2019 at 16:58

    Meu caro Roberto Pereira D’Araujo
    Na verdade o próprio Presidente Bolsonaro já havia manifestado em outra ocasião que não irá privatizar a Eletrobras, Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa Econômica, por entender tratar-se de instituições estratégicas para o país. Será privatizado apenas o lado ineficiente dessas empresas, a exemplo do que já ocorreu (graças a Deus) com as 5 Distribuidoras que estavam sob a tutela da Eletrobrás. Tanto que é verdade que a Eletrobrás será valorizada no Governo Bolsonaro, que irá manter o competente Wilson Ferreira Júnior em sua direção.

    • Roberto D'Araujo
      4 de janeiro de 2019 at 20:14

      Prezado Sebastião:
      A ineficiência dessas distribuidoras vem de longe. É verdade que o governo Lula, que recebeu esse presente de grego do governo FHC, ao invés de tentar recuperar as empresas, usou seus cargos politicamente o que só piorou a situação. Quanto à competência do Sr. Wilson, é preciso entender que, hoje, a Eletrobras é uma empresa sem capacidade de investimento, o que, pela nossa história, nos coloca em risco, pois os investimentos de longo prazo foram ainda dependentes dela.

  3. Arthur
    8 de janeiro de 2019 at 1:13

    Parabéns pelo belo artigo, Roberto. E o engraçado é que a tal da ineficiência posta como justificativa só serve pra estatal. Quando privatizar, o valor da energia das usinas cotizadas será revisado para valor de mercado! Compromisso zero com a sociedade. A tarifa vai aumentar e muito! Se na geração há está situação, na Transmissão há muitos ativos que, embora em bom estado operacional, já possuem vida útil contábil vencida. A iniciativa privada sabe dessa mina de ouro e vai substituir estes ativos a título de investimento com retorno todo na tarifa! Soma-se a isso, toda malha de fibra óptica que encontra-se nas Linhas de Transmissão. Um verdadeiro tesouro! O instituto Ilumina está de parabéns por ser uma das poucas entidades que demonstra conhecimento profundo do setor, sendo claro e duro quando preciso for. Por favor, não desistam de tentar iluminar a engenharia brasileira.

  4. Ednaldo SANTOS
    9 de janeiro de 2019 at 12:16

    Também parabéns ao excelente artigo do Ilumina, especificamente do Roberto, que traduz a análise crítica que temos que ter quando se pensa em privatizar algo neste país. Como bem descrito, não e a ação de privatizar e sim que não sabemos privatizar tudo tem que ser para o interesse do público e não do privado, pois a sociedade só tem valor quando vive no interesse de todos e o que historicamente estamos vendo é a falta de avaliação diagnóstica para que se possa aprender com o erros cometidos e com isso se fazer um melhor planejamento e prognóstico para o país, principalmente no setor que move-o, Energia!
    Continuem a serem críticos em um mundo sem noção e sem atitude de Público para todos!

  5. 10 de janeiro de 2019 at 16:54

    Perfeito!
    Lembra a história da aranha que tentaram descobrir com quantas pernas ela conseguiria andar. Assim, após o corte de cada perna, o amputador gritava: anda aranha! E ela andava.
    Após o corte da última e do grito do amputador, ela não andou e chegou-se à conclusão que ela ficara SURDA.

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