Porque a privatização brasileira precisa da mentira para se justificar?

Roberto Pereira D’Araujo

A resposta à pergunta do título é simples. No caso da Eletrobras, sem a desinformação, sem omitir dados, sem repetir conceitos equivocados, ela não se justifica. Portanto, é necessária uma estratégia de massificação de informações falsas e parciais.

Por exemplo, no jornal O GLOBO de 22/08/2019, o presidente da Câmara Rodrigo Maia diz o seguinte:

“É importante mostrar que os recursos necessários do sistema Eletrobrás estão sendo retirados das despesas que podem mudar a vida das pessoas.

Mentira I: Na realidade, a Eletrobrás fornece recursos ao governo que, ao invés de “mudar a vida das pessoas”, gasta com mordomias nas cortes do poder. Abaixo, o total de dividendos pagos pela Eletrobrás ao governo.

Por que os anos de 2015 a 2017 não houve pagamento? Simplesmente porque, para mentir para o consumidor de que o modelo privatista e mercantil vigente reduziria as contas de luz dos consumidores, o governo DILMA aplicou um garrote na receita da empresa, impondo preços irrisórios às usinas da estatal. Assim, sem fazer um diagnóstico, não incomodou os investidores privados e concentrou a intervenção na estatal. Portanto, nesses 3 anos, à custa de uma falsa ineficiência e da sua fragilização, a Eletrobrás reduziu a conta de luz dos brasileiros. Essa redução será cancelada com a privatização.

O grave problema brasileiro é que essa campanha enganosa não é feita apenas pelos políticos interessados em vender estatais.

A opinião do GLOBO, na mesma página, afirma também que a privatização é “

  • “Um alívio porque estatais dependem do governo”
  • “Necessária para melhorar a eficiência”
  • “Um passo na direção da melhoria da dívida do estado”

Mentira II: A Eletrobras não depende de recursos do governo, como mostrado acima.

Mentira III: “Melhorar a eficiência”. A Eletrobras é a empresa que tem a menor relação empregado/MW instalado.

Fonte:

www.power-technology.com/features/featurethe-top-10-biggest-power-companies-of-2014-4385942

Além disso, privatização não garante eficiência. Haja vista o caso Vale que destruiu 2 rios brasileiros, o caso CELG onde o governador de Goiás quer cassar a concessão da ENEL, haja vista o caso da Eletropaulo, distribuidora da cidade mais rica e que tem índices de qualidade sofríveis. Outras informações sobre o caso CELG, abaixo.

http://www.ilumina.org.br/brasil-um-pais-que-mesmo-sem-saber-fazer-direito-acha-que-privatizar-e-a-solucao/

A qualidade da imagem abaixo é uma amostra da pouca importância que a ANEEL dá à divulgação dessa informação. Se esses dados estivessem em evidência na página, poderia mostrar que privatizar não significa proteger o consumidor. Isso é uma evidência do estágio atrasado que temos na regulação e fiscalização, atividades que o estado tem que exercer cada vez mais.

Não consegue ler? Acha que estamos exagerando? Pois confira abaixo!

http://www.aneel.gov.br/sala-de-imprensa-exibicao-2/-/asset_publisher/zXQREz8EVlZ6/content/aneel-divulga-ranking-de-qualidade-das-distribuidoras-de-energia/656877

Mentira IV: A privatização da Eletrobrás será insignificante em relação a dívida do estado que chega a R$ 4,3 trilhões. Além disso, a nossa experiência de privatização da década de 90 provocou o inverso do prometido. Aumento da dívida e aumento da carga fiscal, detalhe sempre omitido nos discursos e na mídia.

Essa é apenas uma amostra do verdadeiro “tiroteio” de desinformações que é imposto ao cidadão brasileiro. Aguardemos outras mentiras. 

 

 

 

 

 

  5 comentários para “Porque a privatização brasileira precisa da mentira para se justificar?

  1. Bob
    22 de agosto de 2019 at 12:18

    Nos últimos anos, especialmente no período eleitoral e mesmo após o mesmo para sustentar politicamente as reformas e as atrocidades desse desgoverno, a desinformação impera sem piedade. A verdade está cada vez mais isolada e imaginem só, sem credibilidade. O país será devastado, parece que a imbecilidade do presidente da república contaminou grande parcela da sociedade.
    Agradeço à pessoas como você Roberto D´Araujo por se engajar em trazer a tona a verdade à cegueira geral que assola o país.

  2. adilson de oliveira
    22 de agosto de 2019 at 12:54

    Não é necessária muita reflexão para compreender que a privatização à outrance do governo atual responde a uma agenda exclusivamente ideológica.
    Um governo pautado pelo respeito à cidadania teria a honestidade de apresentar estudos que fundamentassem cada uma das privatizações propostas que informem os benefícios antecipados de cada uma delas e os potenciais riscos para a comunidade (local, regional e/ou nacional) que exigem a atuação regulatória do Estado para evitá-los.
    No caso da Eletrobras, é extremamente preocupante para a cidadania que o benefício perseguido pelo governo esteja limitado à arrecadação de fundos enquanto os riscos para a cidadania, especialmente os potencialmente provocados pela má gestão do núcleo central da rede de transmissão de energia e do conjunto de vastos reservatórios de água controlados pela empresa são negligenciados.
    O recente apagão do sistema elétrico em ampla área do território inglês e a crise hídrica atual na região Nordeste deixam claro que esses riscos merecem ser cuidadosamente estudados e informados aos brasileiros.
    Ideologias não convivem bem com a ciência, inclusive a econômica.

  3. Luis Chiganer
    22 de agosto de 2019 at 20:06

    Interessante sempre que se pretende fazer uma privatização surgem defensores da ineficiência do estado e por conseguinte das empresas estatais. A questão central recai na ineficiência do estado. Gastos astronômicos com os 3 poderes da pseudodemocracia brasileira. Como o estado não é capaz de reduzir esses gastos pois nenhum dos poderes tem interesse nesse ponto convergente; então a retórica é a mesma de vender estatais para torna-las eficientes e abater a dívida dos poderes da pseudorepublica. A pseudo esquerda quando assume o poder quer estatização. A pseudodireita quer a privatização. Mas o ponto central é que ambas são ineficientes em função dos gastos excessivos dos 3 poderes. Em suma estamos numa terra que os princípios básicos da cidadania não tem valor. Vale a lei dos poderes da pseudorepublica.

    • Roberto D'Araujo
      22 de agosto de 2019 at 20:53

      Chiganer:

      Se você estiver pelo Brasil, um dia eu te mostro dados que comprovam que a “ineficiência” da Eletrobras foi toda originada no seu uso para reduzir os defeitos do modelo privatista e mercantil adotado no Brasil. Não sou contra a privatização em princípio e nem contra o mercado. Só que o Brasil não sabe privatizar e adotou um modelo mercantil repleto de defeitos.
      Abcs

  4. Eduardo Mota
    23 de agosto de 2019 at 8:41

    Simplifiquemos o raciocínio, vislumbrando além do quadro presente o futuro do sistema elétrico nacional, em termos de geração e transmissão de energia elétrica.
    Empresa privada, por natureza e definição, busca maximização de lucros para remunerar nos maiores percentuais possíveis e imagináveis, não interessando como obtidos, seus acionistas.
    Tal não é o papel e objetivo de uma empresa estatal, que embora também procure gerar lucros, não descura, ao competir no mercado praticando nos seus projetos Taxas Internas de Retorno que embora propiciem lucros, propiciam tarifas mais palatáveis para a sociedade.
    Como se dá no Brasil a expansão dos parques de geração e sistemas de transmissão? Principalmente, e quase exclusivamente, via Leilões conduzidos pela ANEEL.
    Em uma conuntura na qual, via privatização, esteja excluída a participação de estatais nos certames vindouros, seria razoável admitir ao invés de competitividade, a formação de cartéis e conluios entre as empresas privadas “concorrentes”? Tais procedimentos tenderiam a reduzir as tarifas praticadas e a serem impostas à sociedade brasileira? Em termos claros o governo do Posto Ipiranga caminha no sentido de presentear às raposas a função de administrar o galinheiro. E ainda temos um oceano de inocentes conterrâneos concordando e batendo palma para tamanha ilogicidade. Meu bom Deus, dai visão e um minimorum de discernimento para essa gente.

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