Quem consulta dados, não se surpreende.

Roberto Pereira D´Araujo

Evidentemente, depois de tanto desmatamento, pode ser que tenhamos o pior registro de afluências nos rios da região Sudeste e Centro-oeste. Mas, o que incomoda qualquer técnico do setor é a tentativa de colocar a culpa exclusivamente em São Pedro.

Basta consultar dados do ONS para perceber que, no próprio histórico de dados, existe uma sequência de anos que é muito semelhante a atual. Com dados até junho, o ano de 2021 pode até dar o campeonato de secura para a atual crise, mas o período 1948 – 1956 registrou afluências de 87,5 % da média de longo termo (MLT), apenas 1,6 % melhor do que os anos colocam a culpa em São Pedro. Portanto, nada de ineditismo.

Outro ponto que não pode ser esquecido é que o atual risco vem aumentando por conta do contínuo esvaziamento dos reservatórios. Área azul é a energia reservada e a linha branca o consumo total.

As diversas análises esquecem de dizer que, se houvesse mais investimentos em outras hidroelétricas mesmo sem reservatórios, eólicas, ou solares, a reserva não estaria tão baixa. Os favoráveis às térmicas, que, desde o início do modelo mercantil foi multiplicada por 6, também diriam o mesmo. O que não entendem ou preferem esconder é o fato de que térmicas caras ESVAZIAM reservatórios.

Como se pode ver acima, em 2013, a geração térmica triplicou. Mas, depois de 2016, as térmicas foram pouco usadas no período úmido (verão) e quem gerou no lugar delas foram as hidráulicas. Portanto, reservatórios foram usados. A culpa não é do ONS, pois, ao se deparar com a decisão de ter que ligar geração que custa mais do que R$ 800/MWh, a decisão embutida no modelo é usar a água.

As evidências de que o sistema está em desequilíbrio de oferta e demanda são várias. Para os colegas técnicos, sugiro consultar a série do CMO (custo marginal de operação) dos últimos 7 anos e verificar que a média ultrapassa R$ 300. Portanto CMO médio >> CME (custo marginal de expansão), critério de segurança do setor.

Por mais que não se cite, faltam investimentos.

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