Receio do racionamento. Um parâmetro misterioso.

Roberto Pereira D´Araujo

Todos os técnicos do setor sabem que um dos parâmetros essenciais para entender o custo marginal de operação, é o custo do déficit de energia. É um valor que quanto mais alto, maior a rejeição ao déficit.

Portanto, esse deveria ser um valor facilmente acessado por qualquer pessoa que queira avaliar a atual situação de crise de abastecimento pela qual passa o Brasil, pois, ao associar um valor econômico ao racionamento, evidentemente provoca questionamentos.

A falta de transparência generalizada dos diversos organismos que comandam nosso setor transforma essa simples informação uma verdadeira batalha.

Tentando colocar o texto “valor econômico adotado para o custo do déficit de energia elétrica 2021”, consegue-se o seguinte:

Da CCEE:

https://www.ccee.org.br/portal/faces/oquefazemos_menu_lateral/precos?_afrLoop=93791363962761&_adf.ctrl-state=h1kob5muc_14#!%40%40%3F_afrLoop%3D93791363962761%26_adf.ctrl-state%3Dh1kob5muc_18

Nenhuma informação.                  

Do MME:

https://www.gov.br/pt-br/noticias/energia-minerais-e-combustiveis/2021/06/governo-adotou-diversas-medidas-para-reduzir-os-valores-das-contas-de-luz

Nada!

Da EPE:

https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-490/topico-522/Caderno%20de%20Par%C3%A2metros%20de%20Custos%20-%20PDE%202030.pdf

Nada de custo do déficit.

Resolvemos solicitar a CCEE essa informação através do atendimento.

Gostaria de receber a informação sobre qual o valor do custo do déficit de energia válido para 2021. Por incrível que seja, não se acha esse valor em nenhum órgão do setor.

Atenciosamente

Resposta da CCEE:

Para que possamos prosseguir com sua orientação, por gentileza, nos reenviar este e-mail com contato telefônico.

Resposta à solicitação:

Senhores:

Abaixo, informações solicitadas pela CCEE para informar qual o valor do parâmetro Custo do Déficit, valor essencial para se analisar o que ocorre no setor perante a “escassez hídrica”.

Cel 21 98***_****

Atenciosamente

Resposta da CCEE:

O chamado número 479564 foi aberto em 21/09/2021 15:32:55.

O prazo previsto para resposta a este chamado é até 23/09/2021 11:32:55. Caso ocorra alteração nesta previsão, a CCEE encaminhará email com o novo prazo.

Ressaltamos que os prazos para resposta aos chamados não alteram ou suspendem as obrigações dos agentes ou os prazos previstos nos Procedimentos de Comercialização ou qualquer outra regulação.

Para informações adicionais sobre este chamado, basta entrar em contato com a Central de Atendimento e informar o número do chamado acima.

Agradecemos a sua consulta.

Essa é transparência e a rapidez oferecida sobre um dos fatores que afetam tanto nossa conta de luz como as soluções para que tenhamos um verdadeiro receio do racionamento. 

Finalmente nos informaram: 1 MWh racionado, não é apagão, é energia não entregue mesmo, custa R$ 6524,25. Um pouco mais do que 2,5 vezes o MWh de uma das mais caras térmicas (William Arjona) R$ 2.443/MWh.

O que acham? Reflete um receio de racionamento?

 

 

  4 comentários para “Receio do racionamento. Um parâmetro misterioso.

  1. Uriel Garber
    23 de setembro de 2021 at 22:56

    Roberto, você poderia por gentileza explicar didaticamente o que é esse custo do déficit, no valor de R$ 6524/MWh? O MWh gerado o consumidor paga, e esse não gerado, quem paga?

    • Roberto D'Araujo
      25 de setembro de 2021 at 11:47

      Uriel

      Como o sistema brasileiro tem um estoque de água que pode gerar energia, e, como adotamos um modelo de mercado ($) para o MWh, precisamos dar um valor para a água estocada porque ela substitui térmicas mais caras na maioria do tempo. Só que o estoque precisa de um planejamento do futuro para saber se estamos estocando com uma boa estratégia. Afluências e carga variáveis, geram trajetórias do estoque variáveis. Alguns trajetos, como o que estamos enfrentando agora, avisam que haverá déficit de energia. Portanto, já que a lógica é gerir pelo valor da água, o déficit também precisa de um valor. Esse é o custo do déficit. Teoricamente é o valor que a economia perde por MWh. Significa uma taxa de medo do racionamento.

  2. Joaquim Riva
    26 de setembro de 2021 at 14:55

    Roberto. Em linhas gerais haveria método alternativo para controlar as águas dos reservatórios para não alcançar o estado crítico em que nos encontramos? Colocar térmicas mais baratas com maior antecedência traria efeitos melhores?
    Há alguns anos estudei uma térmica em paralelo com Sobradinho e as “economias” de água resultaram interessantes. No caso do rio Paraná uma térmica em Três Lagoas (supondo gas) ajudaria a manter niveis em Ilha Solteira?
    Grato. Riva

    • Roberto D'Araujo
      26 de setembro de 2021 at 19:17

      Se entendi bem sua pergunta, você imagina uma concessão hidro térmica. Ou seja, o dono da usina recebe um despacho do ONS de 1000 MW e ele “escolhe” quem vai gerar quanto? Não sei te responder, até porque não conheço nenhum caso semelhante. Se não for isso, o problema das térmicas é o preço. AS que temos, só metade tem preços razoáveis.

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