Sem preconceito – Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

Análise do ILUMINA: Ao longo do texto da colunista em vermelho.

30 Janeiro 2018 | 03h00

Além das denúncias, da impopularidade e das quedas de braço com a Justiça, o presidente Michel Temer está decidido a enfrentar preconceitos e dar racionalidade aos debates sobre reforma da Previdência e pulverização de ações da Eletrobrás. A “combinação” Embraer-Boeing pode pegar carona na discussão. A ideia é resistir ao “não sei, não vi, não provei, mas não gostei”. Não é inteligente, não é razoável e não leva o Brasil a lugar nenhum. É preciso saber, ver, ouvir especialistas e versões divergentes para ser a favor ou contra, ou a favor só em parte.

Ótimo! Eliane, não há muitos sistemas elétricos como o brasileiro. Os dez maiores produtores de energia a partir de hidráulicas são, a China, o Brasil, Canadá, Estados Unidos, Rússia, Noruega, India, Venezuela, Suécia e Japão. Dessa lista, só o Japão é que tem o seu setor elétrico totalmente em mãos privadas. Sabe quanto representa a hidroeletricidade no total de energia consumida no Japão? 7%! E no Brasil? 79%! Dados da Energy International Agency. Não nota nenhuma diferença?

“Reforma da Previdência? Sou contra.” Por quê? “Porque só prejudica os pobres.” Isso é efeito da campanha deseducativa, que finge estar defendendo “os pobres” quando, na verdade, embute a defesa de privilégios das carreiras mais bem pagas do Estado.

Reforma da previdência? Claro que precisa uma. Acabem com os privilégios dos políticos primeiro! O que não precisaria é o ocluso empurrão rumo ao abismo. “Empregados” que se transformam em pessoas jurídicas e pagam quase nada de previdência, desonerações continuadas e reforma trabalhista que empurra as pessoas para solicitar a aposentadoria. Óbvio, mas a imprensa toca nesse assunto, não é?

São elas, junto com partidos ditos de esquerda, que operam contra a reforma, não para proteger a aposentadoria e pensões de trabalhadores de baixa renda, mas sim aposentadorias de mais de R$ 30 mil de algumas categorias – caso de juízes e magistrados. A reforma é justamente para evitar que o sistema entre em colapso ao longo dos anos e a base da pirâmide – que é quem efetivamente precisa de aposentadoria – acabe ficando sem ela.

Esquerda? No Brasil? Onde? Acabamos de nomear o vice de uma presidenta que pode se orgulhar de bancos com altíssimos lucros e estatais quebradas para atender políticas de parceria com um setor privado que não se contenta só com o BNDES! Esquerda? Onde?

Defenda-se a Justiça, não boquinhas como aposentadorias milionárias de setores do funcionalismo, quando a grande maioria dos trabalhadores tem um teto de R$ 5.700, ou como auxílio-moradia irrestrito para juízes e altos funcionários dos três Poderes.

No caso da Eletrobrás, Temer e o ministro das Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, fazem tudo para fugir da palavrinha maldita, “privatização”, e insistem que a intenção é pulverizar suas ações, arejá-la, atrair investimentos privados, estender a ela a chance dada, lá atrás, à Vale do Rio Doce, que passou a empregar nove vezes mais pessoas depois da… privatização.

No Brasil, assim como a palavra privatização é maldita, a estatização também. Por exemplo, ônibus urbanos. São explorados pela iniciativa privada há mais de 100 anos e prestam um péssimo serviço. Usando o princípio da simetria, já que querem privatizar a Eletrobras porque ela é ineficiente, porque não estatizar o transporte urbano?

Sabia que a Eletrobras já está “arejada” por investimentos privados? Sabia que, se não fosse ela entrar na parceria de forma minoritária nada sairia?

Mas há um probleminha na sua frase. Vale do Rio Doce ou do Rio Morto? Qual foi o prejuízo para o país de desastre de Mariana? O que ocorreria com a Vale num país desenvolvido e atento ao seu meio ambiente? Isso não é um óbice da privatização?

O governo diz que pretende manter ações e parte do controle estratégico da empresa, num sistema “golden share”, mas a maior reação no Congresso vem principalmente do Nordeste e de Minas, que recorrem a um discurso “nacionalista” para disfarçar a importância da Chesf e de Furnas, respectivamente, como generosos cabides de emprego para apadrinhados políticos. Contra a reforma, o “interesse dos pobres”. Contra a modernização da Eletrobrás, “o interesse nacional”.

Fernando Filho cita, objetivamente, um dado do ministério: de 2004 a 2016, a União deixou de arrecadar em torno de R$ 165 bilhões por manter a Eletrobrás exatamente onde está, sem contar os grandes valores que a União teve de despejar na companhia.

Quer ouvir o outro lado? Procure saber por quantos anos a Eletrobras pagou volumosos dividendos para ajudar o governo no superávit primário. Depois, dê uma lida no artigo do Valor http://www.valor.com.br/opiniao/5204783/ineficiencia-da-eletrobras onde está explicado o lado obscuro da ineficiência da Eletrobras.

Quanto à Embraer: é um orgulho dos brasileiros, campeã internacional no segmento de jatos executivos e produzindo aviões tanto para a área civil como para a área militar. Empresa moderna, com técnicos competentíssimos, especialmente após privatizada.

Ué??? Por que não dizer que a Embraer nasceu dentro do Estado brasileiro? Será que existiria alguma Embraer se não fosse a Aeronáutica?

Temer já disse e repetiu que a União não vai abrir mão do controle da Embraer. E a sueca Saab já enviou a Brasília um alto representante alertando para a questão da transferência de tecnologia no jato Gripen para a FAB, em parceria com a Embraer. De gabinete em gabinete, a Boeing garante: qualquer acordo respeitará o controle da União e manterá a blindagem e a autonomia do programa dos Gripen.

Enfim, não se trata aqui de fazer campanha pela reforma, nem pela privatização (ou tenha lá que nome tiver) da Eletrobrás, nem pela “combinação” (novamente, tenha lá que nome tiver) entre a Embraer e a Boeing. Trata-se, sim, de defender um debate aberto, ponderado, maduro sobre o que é e o que não é melhor para o Brasil e os brasileiros, agora e no futuro. Ou seja: sem preconceito e sem dogmas que signifiquem apenas o atraso pelo atraso.

Eliane, por favor! Sem preconceito? A Eletrobras não é apenas um conjunto de usinas e elas não são apenas fábricas de kWh! Eletrobras é a geografia brasileira. É também o histórico sucesso de implantação de um sistema altamente eficiente, pois a tarifa antes da privatização era a metade da atual em valor real! A Eletrobras é know-how e ele vai ser doado. 

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      2 comentários para “Sem preconceito – Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

    1. Olavo Cabral Ramos Filho
      31 de Janeiro de 2018 at 10:00

      Roberto,

      Seus comentarios ao bestilógico da Cantanhêde foram bem vindos e importantes para o esclarecimento da verdade.

      Contudo, é um dialogar inutil com outros lesa patrias como, por exemplo, o mega lesa pátria Pedro Parente e seus bons companheiros na midia, mais lesa pátrias e sobretudo pulhas.

      As Elianes, os Mervais, as Leitões e tantos mais que se mantem impunes com garbo sem fim.

    2. José Antonio Feijó de Melo
      5 de Fevereiro de 2018 at 22:57

      Roberto e Olavo
      As observações de vocês estão absolutamente corretas. O problema é que por ideologia , incompetência, má fé ou coisa pior, certas pessoas, inclusive e principalmente jornalistas se arvoram a deitar sapiência sobre o que absolutamente não entendem. O que a Senhora Catanhede entende de energia elétrica? Duvido que saiba qualquer coisa que lhe permitisse emitir uma opinião correta sobre este importante assunto. Seu artigo não tem conteúdo efetivo, trata-se de um monte de bobagens bem respondidas por Roberto, mas diga-se, com parcimônia e moderação.
      Mas em seu artigo, já no final, ela propõe um “debate aberto”. Pois não, seria uma ótima ideia. O Ilumina deve aceitar esse debate aberto. Mas tem de ser aberto mesmo, com pessoas que falem dos dois ou mais lados, com total isdenção. Não o tipo de debate que se observa hoje no Brasil, principalmente nos programas da TV fechada, mas não só, também nos jornais e principalmente nas revistas semanais, onde todos os debatedores são sempre comprometidos com o mesmo lado, o lado da moda, do poder econômico efetivo, enquanto pessoas que realmente poderiam contribuir para o esclarecimento das questões, ou não são convidadas a participar ou, se convidadas, não tem direito ao espaço e/ou tempo mínimo para expor suas ideias.
      Senhora Catanhede, neste Brasil que vivemos, debate honesto é o que não acontece mesmo.

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