Sem privatização, Eletrobras irá desaparecer e a luz vai apagar, diz Guedes – O GLOBO

Análise de ILUMINA:  No Brasil é comum autoridades contarem a história pela metade. Com muita ajuda da mídia e contando com a falta de curiosidade dos brasileiros, o Dr. Paulo Guedes, mais uma vez, não vai a fundo no problema. Claro que não chegará ao ministro, mas o Ilumina tem a dizer o seguinte:

Prezado Dr. Guedes:

  • Cuidado com a frase “a luz vai apagar”. Ela apagou feio em 2001 em “comemoração” aos defeitos do “mercado” que o sr. adora! Presta atenção abaixo!
  • Não há nenhum campeonato entre investidores para justificar a ameaça de que a Eletrobras vai perder o seu percentual de participação na geração.
  • Na realidade, o setor já é majoritariamente privado, e, ao contrário do que o sr. pretende nos fazer acreditar, Dr. Guedes, isso foi feito com ajuda bilionária do BNDES e da própria Eletrobras.

O Sr. não sabe?  Vamos explicar!

O gráfico acima mostra a evolução de empréstimos do BNDES ao setor elétrico. (Se necessitar podemos enviar para o Ministério) As barras são os valores atualizados para 2018, eixo vertical esquerdo. A linha azul mostra o percentual desse financiamento dentro das carteiras do banco, eixo vertical direito. Dividimos em 4 fases.

  • Período 1995 – 2001. Barras azuis. Reparem que em 1997, 27% da carteira do BNDES foi destinada ao setor elétrico!!
  • Seria financiamento de novas unidades geradoras? Nada disso! Empréstimos para adquirir usinas prontas. A privatização foi financiada pelo BNDES. Será que vamos repetir?
  • O Sr. esqueceu as distribuidoras rejeitadas pelo “mercado” e que a Eletrobras teve que engolir?
  • Repare como se reduz o financiamento até 2001. Qual foi o resultado? Racionamento. 
  • Ou seja, em bom português, desinteresse por investimentos na expansão, Dr. Guedes!
  • O Sr. já viu essa análise em algum órgão da imprensa?

Começa a nova fase com governo novo.

  • Período 2002 – 2007, barras vermelhas escuro. Repare que, depois do racionamento, novamente, mais de 20% dos recursos do BNDES se destinam ao setor elétrico.
  • Apesar do financiamento médio nesse período ter-se elevado para R$ 7 bilhões/ano, ali também se percebe uma forte redução, traduzindo, desinteresse.
  • A origem dessa redução de investimento/empréstimos está no mercado livre de energia que, imaginado no governo FHC, foi realmente implantado sem mudanças no governo Lula, mantido nos governos seguintes, inclusive no seu.
  • Por que a redução de investimento? Basta olhar o preço praticado no bizarro mercado livre no período.

  • A linha azul é o preço apenas do MWh para o setor residencial, colocada aqui apenas como comparação, e a linha vermelha é o PLD, Preço de Liquidação de Diferenças, valor de “referência” no mercado livre. Dados da CCEE.
  • Ora, com um sistema que permite o mercado livre se aproveite da queda de demanda decorrente do racionamento e da geração hidroelétrica da Eletrobras descontratada em 2003, mas obrigada a gerar, o período significou praticamente uma doação de energia ao mercado. Não é surpresa que hoje esse “nicho” privilegiado se elevou para 30% de toda a carga brasileira.
  • Evidentemente, mais uma vez, não houve investimento em expansão e, o Brasil, necessitando o equivalente a duas usinas de Itumbiara por ano para manter o equilíbrio, saiba que, de 2008 até 2013, a carga encostou perigosamente na “garantia física” (que está superavaliada).

O Sr. já viu essa análise em algum órgão da imprensa?

A partir dessa previsível barbeiragem, entramos na fase amarela (2008 – 2015) e vermelha do gráfico do BNDES.

  • Percebe-se um aumento do financiamento do BNDES que chega a R$ 25 bi em 2015! Que tal, Dr. Guedes?
  • Seria suficiente? A figura abaixo mostra que não. Além do BNDES, a Eletrobras assumiu 178 Sociedades de Propósito Específico onde, apesar de minoritária, foi responsável por R$ 34 bilhões de investimento no período 2008 até 2018.

Dr. Guedes, um gráfico que mostraria a realidade do esforço de investimento originado em entidades públicas, como BNDES e Eletrobras, é o que está abaixo.

Evidentemente, depois do golpe mortal da medida provisória 579, a Eletrobras perde completamente a sua capacidade de investimento. Enganam-se os que comparam os recentes lucros da empresa com situações anteriores. Uma empresa do porte da Eletrobras que investe bem abaixo do seu histórico, é uma anomalia no Brasil.

Não custa lembrar que as absurdas tarifas brasileiras só são o que são porque cerca de 14 GW de hidroelétricas da Eletrobras cobram apenas o custo de operação das usinas, pratica inexistente em nenhum sistema do planeta.

Para finalizar, o que o ILUMINA pode mostrar ao consumidor brasileiro é que, além da tarifa altíssima, de 1995 até 2018, ele financiou aproximadamente R$ 300 bilhões de reais ao setor elétrico, que, hoje É PRIVADO. Já imaginaram se calculássemos uma “tarifa” equivalente aos subsídios embutidos no BNDES e nas SPE’s?

O Sr. já viu essa análise em algum órgão da mídia?


Manoel Ventura e Eliane Oliveira

25/09/2019 – 16:34 / Atualizado em 25/09/2019 – 17:13

BRASÍLIA — Ao defender nesta quarta-feira a privatização da Eletrobras, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a empresa está condenada a desaparecer no tempo se não for repassada à iniciativa privada. Segundo ele, do jeito que está hoje, “a luz vai apagar”.

– Ela (a Eletrobras) está condenada a desaparecer no tempo, a não ser que nós consigamos privatizar. Se privatizar vem R$ 10 bilhões, R$ 20 bilhões, R$ 30 bilhões de investimentos. Aí a luz acende de novo, porque do jeito que está indo a luz vai apagar. Por isso precisamos privatizar — disse o ministro, em audiência na Comissão Mista de Orçamento (CMO).

No Congresso: Guedes diz que economistas são ‘escravos de constituintes defuntos.

Guedes lembrou que a estatal é responsável por um terço da geração de energia elétrica no Brasil e precisa investir para continuar nesse patamar.

– A Eletrobras precisa investir R$ 14 bilhões todos os anos para ficar com 33% do mercado de geração e 36% do mercado de distribuição. Ou seja, hoje é um terço da energia elétrica brasileira. Para ela ficar no mesmo lugar, precisa investir R$ 14 bilhões. Hoje consegue investir R$ 3,5 bilhões.

Agenda econômica:   Paulo Guedes defende comissão com Câmara e Senado para reforma tributária

O governo tenta desde a gestão Michel Temer privatizar a Eletrobras, mas sofre forte resistência no Congresso. A previsão agora é que o processo ocorra em 2020, com perspectiva de o governo arrecadar R$ 16,2 bilhões. A privatização precisa do aval de deputados e senadores.

Uma das principais bandeiras do governo, Guedes reconheceu que as privatizações estão atrasadas, mas garantiu que elas irão avançar:

— Nós vamos acelerar as privatizações. Neste ano estamos em marcha lenta nas privatizações.

O ministro afirmou que o Brasil “quebrou” e precisa atrair investimentos privados.

— Está provado que o governo furou os quatro pneus. O Estado brasileiro quebrou e está com os quatro pneus furados. Mas não vamos ficar parados. Vamos começar a abrir para os investimentos privados

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      6 comentários para “Sem privatização, Eletrobras irá desaparecer e a luz vai apagar, diz Guedes – O GLOBO

    1. adilson de oliveira
      26 de setembro de 2019 at 18:10

      A privatização é a pedra filosofal desse governo.

      Não é apresentada qualquer análise técnico-econômica de como ficará a estrutura do mercado (que define o poder de mercado das empresas) tampouco das medidas regulatórias que serão adotadas para proteger os consumidores do poder de mercado das empresas.

      A poção mágica da pedra filosofal do governo é a concorrência que todo livro texto de economia ensina ter fortes limitações para operar em oligopólios concentrados, como os que resultarão das privatizações.

      Enquanto isso o faz-de-conta dos contratos assentados em suprimento de energia que as centrais não são capazes de gerar seguem sendo cobrados nas tarifas dos consumidores.

      Vem tarifaço por aí.

      • Roberto D'Araujo
        26 de setembro de 2019 at 18:21

        Adilson

        Não deu pra tratar de tudo, mas você tem razão em lembrar que o modelo está indefinido. Recentemente publicaram uma revisão das garantias físicas que é ridícula. Deixa evidente que a área técnica não tem “cacife” para enfrentar os interesses comerciais.
        Abcs

    2. Fernando
      27 de setembro de 2019 at 12:48

      Muito bom Texto! Esclarecedor.
      Fica a questão para o Guedes: se o setor privado é pujante e sedento por investimentos, porque ele não é capaz de cobrir a redução de investimentos da Eletrobras?
      De outro lado, se precisa de uma empresa que GARANTA investimentos, isso só é possível com uma estatal, então não faria sentido privatizar para elevar investimentos.
      No fim e ao cabo, caso a privatização venha a ocorrer, veremos constante pressão para seguidos aumentos das taxas de retorno dos investimentos, com impactos diretos sobre as tarifas.

      • Roberto D'Araujo
        27 de setembro de 2019 at 13:18

        Fernando:
        Exatamente! O discurso do Guedes dá a impressão de que o setor privado quis investir independente do BNDES e de parcerias e não deixaram. É justamente o contrário.

    3. José Luiz Alquéres
      27 de setembro de 2019 at 21:49

      Caro Roberto

      Dados importantes, sem duvida, mas a resposta “falta de apetite do setor privado” está tendenciosa porque o apetite vem de um ambiente regulatório estável, de um modelo { ou arquitetura regulatória e de mercado) bem estruturado, de gente competente na direção superior das empresas e de sua blindagem em relação às pressões politicas e fisiológicas. Com um intervalo ocasional aqui ou ali não se viu isso ao longo do período citado. Então privados compram com financiamento do governo o que ele botou a venda investem o que ele ( governo) se dispõe a financiar (crentes que no final se não pagarem o financiamento é o próprio financiador- em ultima instância o Governo – que não recebe). Imagina um gringo lendo a MP 579 e pensando “se o governo trata assim seus próprios filhos que reservará para mim ? ”

      Embora a regra geral acima existem grupos e empresas que financiaram seus investimentos e dependeram pouco ou nada de recursos do banco oficial. E evoluíram muito positivamente no período. Cito a Energisa. E existem outras.
      E veja o desastre das estatais Cemig, da Copel da CEE, da CEB e das então chamadas de federalizadas…

      Mas concordo com você que a privatização não é panacéia, pode funcionar ou não, como aliás as estatais ( que em geral não funcionam bem pelos motivos apontados acima e outros mais ),

      O caso da Eletrobrás porem me parece mais grave pois mesmo no mundo arqui-liberal sonhado por alguns economistas, de dentro e fora do Governo, alguns papeis dela sao constitucionalmente reservados ao Governo. E não à toa. Assim são por resultarem de uma secular experiência setorial do conhecimento dos nossos recursos naturais, estagio de desenvolvimento econômico e nível de poupança nacional. Esses papeis a meu ver não sao passiveis de substituição por qualquer iniciativa privada. Não é de se estranhar que nosso sistema foi pensado e implantado por gente de cabeça liberal, mas gente realista, inteligente e preparada ( Lucas Lopes, José Luiz Bulhões Pedreira, Roberto Campos, John Cotrim, Mauro Thibau, Dias Leite, Camillo Penna, Mario Bhering e outros) e não o que se vê em matéria de ignorância que campeia nos altos e médios escalões ( com naturalmente as excessões de sempre).

      E não vamos nos focar nos indívíduos, vamos focar no conhecimento coletivo. Na massa critica. Recentemente um grupo de representantes de empregados em Conselhos de estatais defendeu a não privatização da Eletrobras com base nas conquistas da gestão do atual Presidente da Eletrobras, que eles em outros momentos foram os maiores opositores. O que falo de coletivo é coletivo mesmo como numa época que Mario Bhering presidia a Eletrobras, Camillo Penna Furnas, Licinio Seabra a Nuclebras, Rubens Vaz da Costa a Chesf, Holtz estava na Secretaria Executiva do MME e depois no DNAEE , Gomide na Copel, Claudio na Eletrosul e por aí vai. Esta turma se encontrava em Brasilia e a voz deles pesava. Hoje quantos dos atuais ocupantes destes cargos estão aptos a responder pelas empresas que pilotam? Quantos podem entrar numa sala sem assessores cada? Talvez 2 ou 3. com boa vontade… e nem penso nos Diretores para nao chorar.

      O desconhecimento e a falta de maturidade do ponto de vista técnico, institucional, econômico, financeiro impede que haja capacidade de argumentar num Ministério setorial, como MME, contra absurdos que vem de outras áreas, ora a econômica, ora a ambiental, ora a politica mesma. Para empreender um diálogo construtivo entre um Ministério da Economia, que tenta ( vamos conceder isto ), salvar um pais falido por anos de absurdos (lembra a dupla Mantega , Agustin ? ) há que saber discutir, ter formação, ter argumento. Mas o que se vê espelha o desastre continuado de se substituir a inteligência setorial do processo decisório, colocando apaniguados políticos, despreparados, imaturos ou oportunistas sem compromisso com o futuro para comandar o nosso setor, tão vital para o desenvolvimento.

      • Roberto D'Araujo
        28 de setembro de 2019 at 9:27

        Prezado Alqueres:
        Grato pelo seu comentário que levanta muitas questões que não foram focadas no texto.
        Eu tenho uma visão diferente sobre responsabilidades na economia brasileira. Não vejo um setor privado sem uma forte articulação através de várias entidades representativas, o que o isentaria de participação nas ruínas. Entre os assuntos não abordados no texto que reforçam a ideia de um setor privado também responsável pelo desastre está o que aconteceu no mercado livre. Não há ingenuidade no setor privado brasileiro.
        Todos sabiam que o modelo mimetiza um sistema térmico através de “garantias físicas” definidas em um “cartório” técnico burocrático.
        Todos sabiam que o pós racionamento resultaria numa sobra de energia.
        Todos sabiam que existia um preço artificial baseado no custo marginal que sinalizaria entrega de energia quase gratuita para os agentes do mercado e que a Eletrobras era a grande “doadora”. Só em Furnas, 2.000 MW médios descontratados por 4 anos.
        Todos sabiam que contratos de curto prazo prevaleceram no mercado durante quase 4 anos.
        Todos sabiam que um nicho de mercado que atinge quase 30% da carga e que não participa da expansão está confiando que outros consumidores ou ações de governo cobrirão esse hiato. SPE da Eletrobras + muito BNDES.
        Como isentar empresas que, com conhecimento técnico, se aproveitaram de tantas vantagens?
        Claro que há agentes privados que se mostram independentes do apoio estatal, mas, para se ter um diagnóstico sobre o cenário do setor nos últimos anos, infelizmente esse comportamento é minoritário.
        Os números do BNDES mostram verdadeiras jabuticabas.
        Imagine o que diria um regulador de um país desenvolvido ao ver o fantástico percentual de 27% de todo o recurso de um banco público de fomento destinado apenas a um setor e, alguns anos depois, um racionamento de mais de 20% da carga?
        Imagine o que diria um regulador de um país desenvolvido ao ser informado que a Eletrobras foi obrigada a se endividar em um fundo destinado a ressarcir investimentos não amortizados para comprar distribuidoras?
        Termino sugerindo a lembrança da frustrada tentativa do Trump em privatizar a Bonneville Power. Nessa diferença é que está a resposta.
        Abraço e torço por manter um diálogo com quem conhece o setor com profundidade.

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