Tornando a Eletrobras menor

Ikaro Chaves (*)

Que o grupo 3G do bilionário Jorge Paulo Lemann está no comando da tentativa de privatizar a Eletrobras não é segredo para ninguém. Jornalistas independentes e os próprios sindicatos têm denunciado essa negociata desde o início do governo Temer e pelo visto o mesmo grupo permanece dando as cartas no que se refere à tentativa de tomar a Eletrobras dos brasileiros. As últimas jogadas dessa trama foram a eleição de Vicente Falconi para o Conselho de Administração da Eletrobras e de Elvira Presta para a Diretoria Financeira e de Relações com Investidores da empresa.

Falconi, renomado guru na área de administração de empresas é intimamente ligado a Lemann, sócio da 3G. Elvira Presta, oriunda do grupo, foi indicada para o Conselho de Administração da Eletrobras pela 3G, na qualidade de sócia minoritária, e pouco depois, em janeiro de 2019, foi indicada pelo Governo Federal para a diretoria financeira. Essa operação absurda caracteriza, no mínimo, conflito de interesses e desrespeito ao sócio controlador – a União – e aos demais acionistas minoritários.

O grupo 3G, que até o governo Temer possuía 5% das ações preferenciais da Eletrobras, passou para 15% no início de 2019 e ao que tudo indica não quer mais esperar a privatização para começar a mandar de fato na empresa. Pois bem, no último dia 11 de junho o presidente da Eletrobras, o privatista Wilson Pinto, juntamente com a própria Elvira lançaram o projeto “Orçamento Base Zero” em todas as subsidiárias da Eletrobras.

Segundo Alberto Lott, sócio de Vicente Falconi numa empresa de Consultoria, na metodologia do Orçamento Base Zero (OBZ) “em vez de se usar a despesa do ano anterior como base, parte-se do zero”. Aparentemente nada demais, não? Afinal, todos estamos de acordo em racionalizar gastos e eliminar desperdícios. O foco do OBZ está todo em cortar custos de maneira a aumentar o lucro e por isso, ao invés de utilizar como base o orçamento do período anterior, parte-se do zero, reavaliando a necessidade de cada despesa, de cada custo para a obtenção do resultado esperado. O problema com essa metodologia, ou melhor seria dizer, ideologia de corte de custos é a tentação dos gestores em atingir as metas a qualquer preço, o mais rápido possível.

Um dos maiores especialistas e divulgadores do OBZ no Brasil é justamente Vicente Falconi e um dos grupos que mais radicalmente aplica esse método é justamente o 3G, de Lemann, amigo de Falconi, ex-chefe de Elvira Presta (COINCIDÊNCIA?). O grupo 3G é conhecido por aplicar cortes radicais de custos nas empresas por ele controladas, cortes que invariavelmente atingem as despesas com pessoal, tornando empresas como a Ambev exemplo de super exploração dos trabalhadores, baixíssimos salários e altíssima rotatividade. Mas os danos do modelo “Lemann/Falconi” não se limitam aos trabalhadores, as próprias empresas sucumbem à usura de seus administradores sedentos por menos custos e mais lucros.

O caso da Kraft Heinz, grande fabricante de alimentos, detentoras de marcas consolidadas, como do famoso ketchup Heinz é emblemático, apresentando desvalorização de 36% em apenas um ano. Segundo reportagem de Vanessa Adachi do jornal Valor: “Depois de três décadas de trajetória ascendente vertiginosa desde a compra da cervejaria Brahma, em 1989, Lemann e seus indissociáveis parceiros nos negócios, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, têm sido amplamente questionados a respeito da sua fórmula de sucesso. Sempre houve quem os criticasse por não aprovar a agressividade na consolidação de grandes empresas, seguida de implacável corte de custos, demissões de pessoal em larga escala e obsessão por eficiência. Mas, pela primeira vez, a pergunta que analistas e investidores fazem é se o modelo que os levou ao topo da cadeia alimentar dos negócios está superado em um mundo de rápida inovação de produtos e canais de venda”.

A Kraft Heinz não foi a única vítima da “ideologia dos cortes”, muitas outras empresas sucumbiram por conta de gestores com foco único no corte de custos e resultados de curto prazo. O jornalista Luis Nassif em seu artigo: Xadrez do fim da mística de Lemann e Falconi, cita diversos exemplos de empresas levadas à bancarrota, como é o caso da Sadia, vendida na bacia das almas à Perdigão, ou que causaram grandes desastres, como no caso da Vale, cuja irresponsabilidade de cortar “gastos” como monitoramento de barragens custou a vida de centenas de pessoas e danos irreparáveis ao meio ambiente.

No modelo de negócio de Corporation, típico do grupo 3G, não importa muito o futuro das empresas, o que importa aos acionistas é obter o máximo possível de resultado financeiro e se ao fim do ciclo de negócios não sobrar nem empresa nem empregos, esses mesmos acionistas não derramam uma lágrima se quer.

A Eletrobras é a maior empresa do setor elétrico da América Latina, construiu ao longo de décadas a espinha dorsal do sistema elétrico brasileiro, é responsável pela geração de 1/3 da energia consumida no país, por 48% das linhas de transmissão, por 66% das subestações estratégicas e pela gestão de 52% da água armazenada nos reservatórios das hidrelétricas do Brasil. A Eletrobras é a principal responsável pela segurança energética dessa nação de 210 milhões de habitantes e tem papel indispensável na expansão do setor elétrico, além de operar e manter as maiores barragens do país, com potencial de dano, em caso de rompimento, simplesmente incalculável.

A Eletrobras não é uma fábrica de ketchup, possui responsabilidades demais com o Brasil para ser exposta a um modelo de negócio voltado para a obtenção de resultados de curto prazo, mas que pode torná-la incapaz de prover a infraestrutura de que o país precisa.

E por falar em custos, é bom lembrar que segundo as demonstrações financeiras da Eletrobras de 2018, os custos com pessoal recuaram 18% em apenas um ano, já os gastos com outras despesas, como por exemplo consultorias contratadas sem licitação, do tipo dessas para implantar o tal OBZ, aumentaram em 4%.

Fontes:

https://www.istoedinheiro.com.br/como-vicente-falconi-foi-fundamental-para-sucesso-de-lemann-telles-e-sicupira/

https://www.valor.com.br/empresas/5552781/formula-que-levou-lemann-e-3g-ao-topo-esta-sob-pressao

https://jornalggn.com.br/gestao-privada/xadrez-do-fim-da-mistica-de-jorge-paulo-lemann-por-luis-nassif

(*) Ikaro Chaves é engenheiro e dirigente sindical do Sindicato dos Urbanitários no DF (STIU-DF)

Obs: Este texto foi publicado originalmente no site do Jornal GGN

Compartilhe

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *