Uma análise da entrevista do presidente da Eletrobras na revista Veja.

O texto abaixo é a integra da entrevista. O parágrafo inicial é da própria revista. Atenção os seguintes pontos:

  • A reviste tenta passar a ideia de que a Eletrobras está endividada por conta do inchaço do seu quadro de pessoal, quando, na realidade, ela foi fragilizada por mais de 20 anos por favorecer o setor privado em diversa políticas públicas.
  • Tenta iludir o leitor de que a valorização da empresa na bolsa se deve ao ajuste no quadro de funcionários, quando na realidade, quem vai pagar a valorização da empresa é o consumidor de energia elétrica que vai assistir a mais aumentos.

Depois nas respostas do Dr. Wilson:

  • O ILUMINA estranha o tom de surpresa, porque a imensa maioria das razões do endividamento se deu em função da adoção de políticas de fomento e redução tarifária que foi e são conhecidas de todos do setor.
  • A Eletrobras não pode vender ativos, uma vez que são concessões públicas.
  • As distribuidoras deficitárias “caíram” no colo da Eletrobras, porque, no falho processo de privatização da década de 90, o governo permitiu que o setor privado ficasse apenas com as empresas mais promissoras.
  • Ter despesas maiores que as receitas depois da Lei 12.783/2013, que fez a Eletrobras reduzir preços sozinha, não deveria ser surpresa para o Dr. Wilson. Se a empresa perde a receita de ativos, evidentemente o escritório central passa a pesar mais na contabilidade.
  • Tanto o governo Dilma quanto Temer nada fizeram quanto a esse tema, mostrando que a questão política permanece.
  • Não reconhecer que a Eletrobras tem funções que extrapolam a mera geração e transmissão nesse tema beira a má fé. É preciso lembrar o CEPEL, o PROCEL, a administração de fundos setoriais?
  • Fica evidente pelas respostas posteriores que, mesmo ele, não tem controle sobre os apadrinhados. A gravação sobre os funcionários “vagabundos” é uma prova disso.
  • Contrapor a situação atual da Eletrobras à despesas como educação, saúde é de uma perversidade atroz, pois esquece que a Eletrobras colaborou com o equilíbrio fiscal do governo pagando dividendos por mais de 15 anos.
  • Ao final, ao reconhecer o baque sobre a receita da MP 579, esquece de dizer que, mesmo assim, os investimentos da empresa foram cruciais para manter o sistema em razoável equilíbrio. Seu sistema de transmissão tem índices de robustez melhores do que os privados.

Enfim, dizem que o Elefante nunca esquece. Infelizmente, o que se vê aqui é um festival de esquecimentos.


Domando o elefante

O presidente da Eletrobras conta como a hipertrofia causada pelas indicações políticas e o populismo tarifário quase levaram à lona a maior empresa de energia da América Latina

Por Bianca Alvarenga

Assim como a Petrobras, a estatal Eletrobras era uma empresa à beira do colapso até pouco tempo atrás, apesar de ser a maior companhia de energia elétrica da América Latina. Corroída pelo uso político e pelas decisões populistas de manipular os preços das tarifas, sobreviveu nos últimos anos à base de dinheiro público. A reestruturação da empresa foi confiada a um dos executivos mais tarimbados do setor, o engenheiro elétrico Wilson Ferreira Júnior, de 58 anos. Com passagens por diferentes companhias nos seus mais de trinta anos de carreira, Ferreira assumiu o comando da estatal em julho de 2016. Teve de lidar com um gigante que acumulara 30 bilhões de reais de prejuízos nos quatro anos anteriores e cuja dívida batia na casa dos 50 bilhões de reais. Em sua gestão, Ferreira impôs o corte de custos como prioridade. O ajuste inclui a eliminação de metade do quadro de funcionários, venda de subsidiárias e a privatização da companhia; mas isso dependerá da aprovação do Congresso. Em um sinal evidente de que a reformulação tem sido bem vista pelo mercado, as ações da companhia acumulam uma valorização de 70% desde meados de 2016. Em conversa com VEJA, em seu escritório no Rio de Janeiro, o executivo falou sobre as ineficiências que sangraram a estatal – e como isso poderá ser superado.

No momento em que o senhor assumiu a presidência da Eletrobras, a empresa acumulava quatro anos de prejuízo consecutivos. Havia o risco de falência?

O que mais me impressionou foi o endividamento da companhia. Nunca tinha visto uma empresa que funcionasse e cuja dívida equivalia a nove vezes a geração de caixa. A Oi entrou em recuperação judicial quando o seu endividamento bateu em seis vezes o seu fluxo de caixa (lucro antes do pagamento de impostos e dos juros da dívida). Nosso plano desde o início esteve focado na redução da dívida e para isso estava claro que seria necessário vender ativos. Isso sempre esteve ao alcance da Eletrobras, mas ela não fez, talvez pelo tabu que o tema representa. Não havia razão, por exemplo, para construir uma nova sede em um terreno que, por si só, custou 100 milhões de reais. Estamos falando de uma empresa que não consegue pagar suas dívidas, seus fornecedores e seus parceiros.

A Eletrobras, além de ser a maior geradora de energia do país, possuiu subsidiárias que controlam a distribuição de energia no Norte e no Nordeste. Essas empresas acumulam dívidas bilionárias. Elas serão vendidas?

A Eletrobras é uma companhia que é relevante em geração e em transmissão de energia. Não somos relevantes em distribuição, embora haja seis empresas do setor na nossa estrutura. Infelizmente, temos as distribuidoras com as maiores perdas de energia e com as maiores interrupções no fornecimento aos consumidores. O nível de qualidade é muito baixo. Colocamos as seis distribuidoras em processo de privatização, o que deve ser concluído até o primeiro semestre.

Além da venda de ativos, o processo de reestruturação prevê o corte de até 10 000 funcionárias. A estrutura estava inchada?

Na área de transmissão de energia, as nossas despesas são 43% maiores que as receitas. Em distribuição é pior ainda: temos o dobro de despesas em relação às receitas. Estamos perdendo dinheiro nessas atividades. O motivo disso é que temos gente demais: 24 000 empregados no total. Se compararmos o número de funcionários que representam o que eu “chamo de chão de fábrica” (aqueles que sobem no poste de luz, operam subestação e usinas, fazem manutenção) com o número de pessoal das áreas corporativas (escritório, contabilidade, recursos humanos) chegamos a uma proporção de meio a meio. As empresas eficientes não têm mais do que 20% de seus funcionários em atividades corporativas, não 50%, como é o caso da Eletrobras. Há uma enorme redundância em diversas funções.

Por exemplo?

Tínhamos assessores para presidente, diretores, superintendentes e para chefes de departamento. Agora, colocamos uma regra: somente diretores terão direito a assessores, e em um limite de dois para cada um. Cortamos em 63% o número de assessores. Fizemos um plano de aposentadoria que custou 800 milhões de reais, mas que nos proporcionará uma redução de custos da ordem de 900 milhões de reais por ano. Reduzir o quadro de funcionários significa cortar despesas de aluguel, luz, viagens. Com a venda de subsidiárias e a redução de pessoal, o número total de funcionários deverá cair pela metade, para 12 000. Assim, a empresa passará a ter custo operacional compatível com a tarifa, e endividamento compatível com os limites financeiros.

Ainda são comuns as nomeações políticas na estatal?

O controlador continua sendo o Estado e cabe a ele fazer indicações para posições importantes – eu, por exemplo, sou uma indicação do ministro. Mas antes não havia regras claras, agora tem. Temos um comitê de elegibilidade que avalia o currículo dos indicados. A cada cinco, um é barrado. Selecionar candidatos em uma empresa privada é mais simples: você chama um headhunter, pede o melhor cara do setor e contrata. Aqui, não. Mais de mil pessoas na Eletrobras ganham acima do meu salário, o presidente da empresa. Há funcionários que ganham quase o dobro.

O senhor sofre pressões para manter apadrinhados na empresa?

Tenho liberdade para fazer qualquer reclamação por meio da comissão que peneira as indicações. Aliás, se eu tivesse algum desconforto, falaria com o ministro (Fernando Bezerra Coelho Filho, de Minas e Energia). Conversamos diariamente.

Durante uma reunião com representantes sindicais, o senhor foi gravado em áudio dizendo que a Eletrobras tinha “40% de cara que não serve para nada, ganhando uma gratificação, um telefone, uma vaga de garagem, uma secretária”. Chamou ainda esses funcionários de “vagabundos” e “safados”. O senhor volta atrás no que disse?

A forma em que áudio foi divulgado dá a impressão de que eu falo de todos os empregados, mas não era isso. Eu me dirigi a um conjunto de gestores que, mesmo recebendo uma série de gratificações, não exerciam na plenitude as suas obrigações. Uma companhia que está em uma má situação financeira tem que ter exemplos que vêm de cima. Tínhamos também outros problemas. Mais da metade dos funcionários recebe adicional de periculosidade. Muitos deles ganhavam por periculosidade eventual – ou seja, o empregado recebia quando ia a uma área de risco. Só que aconteciam casos em que o funcionário viajava por dois dias, no dia 30 de um mês e voltava no dia 1º do mês seguinte, e ganhava o adicional por dois meses inteiros. São os gestores que autorizam isso. Há 68 entidades sindicais que se relacionam com a Eletrobras. Costumo falar que lido com mais sindicatos aqui do que toda a Alemanha ou toda a Inglaterra

O projeto de privatização da Eletrobras enfrenta forte resistência do Congresso. O senhor acha que será possível concluir a operação?

Acredito que seja possível. O que posso dizer, como empresário, é que a companhia tem potencial, mas que para cumprir sua missão ela precisa de dinheiro. O governo não tem recursos disponíveis, de jeito nenhum. Vejo pessoas se queixando pelos cortes orçamentários nas áreas de educação, ciência e tecnologia, e eu entendo o pleito delas. Se tivermos que cortar mais recursos dessas áreas para alocar aqui na Eletrobras, será um contrassenso. Considero que seja importante que o governo possa dar atenção ao que ele tem obrigação. Se olharmos quem ganhou com a geração de valor da Eletrobras nos últimos anos, os grandes beneficiados foram os funcionários e os bancos. Os acionistas foram os únicos que perderam – e o governo é o maior deles, com 41% das ações. Sei que a privatização é uma operação que enfrenta resistência política. Mas a empresa, da forma que está hoje, perde relevância a cada dia.

Esperava-se que a privatização caminhasse por meio de uma Medida Provisória, que tem tramitação mais rápida, mas será por Projeto de Lei. Qual é a sua avaliação sobre essa mudança?

Já estava definido que teria uma discussão – seja por MP ou por PL. E é importante que isso seja tratado no Congresso, porque essa é a casa que toma as decisões em relação ao futuro. A Eletrobras foi criada por lei, como qualquer outra empresa estatal. Essa lei terá que mudar. Mas a privatização depende de uma providência simples: dispensar o governo da obrigação de injetar capital na empresa. Quando cheguei à empresa, a primeira coisa que eu tive que fazer foi pedir dinheiro para o controlador, porque havia dívidas que não podiam mais ser roladas. O governo nos deu 2 bilhões de reais em 5 meses – é muita coisa. Há um problema técnico causado por aquela redução de 20% nas contas de luz, em 2013. A remuneração da Eletrobras pela geração de energia diminuiu em 65%. O consumidor foi beneficiado de início, mas ao longo desse período, a tarifa de luz foi subindo para cobrir as perdas causadas pela decisão. Por isso, é preciso modificar as regras – e essa mudança também terá que passar pelo Congresso.

Caso a privatização não saia até o segundo semestre do ano que vem, o que deverá nortear a empresa? Há um plano B?

O plano A da Eletrobras é buscar a eficiência na própria operação, e esse plano não muda. Se não privatizar, deixaremos de resolver um obstáculo ao desenvolvimento do país. Além disso, os novos investimentos seriam feitos já tomando recursos do mercado de capitais. Colocamos um freio no plano de investimentos que estava desenhado. Focamos em terminar todas as obras em curso. Terminamos as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, além da térmica de Mauá III, em Manaus. Em 2018 vamos concluir as hidrelétricas de São Manoel e Sinop. Belo Monte ficará totalmente pronta em 2019, junto com as novas linhas de transmissão. É a única obra que vamos levar para além de 2018. No curto prazo, a Eletrobras não será uma grande investidora e não poderá ajudar o Brasil a se recuperar.

Nas investigações da Petrobras, ex-dirigentes defenderam-se dizendo que a empresa é grande e por isso seria impossível acompanhar a lisura de cada processo. Isso se aplica para a Eletrobras?

Fizemos uma autodenúncia junto às autoridades americanas e estamos concluindo uma ampla investigação independente, cujo resultado não identificou atos ilícitos por parte de executivos da Eletrobras. Mas nem eu, ou qualquer outro presidente, tenho como impedir que um funcionário cometa irregularidades. No entanto, é responsabilidade dos gestores ter instrumentos para identificar desvios e puni-los. É isso que estamos fazendo.

 

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      1 comentário para “Uma análise da entrevista do presidente da Eletrobras na revista Veja.

    1. José Antonio Feijó de Melo
      23 de Janeiro de 2018 at 19:55

      Roberto
      Realmente, o Brasil, com seu povo de propagada memória curta, tem sido campo fértil para aplicação da velha técnica nazista de se repetir mil vezes vezes a mentira para que ela se torne verdade. É o que se vê em todos os lados e o setor elétrico brasileiro tem sido uma das maiores vítimas dessa técnica, conduzindo a população a um brutal processo de desinformação. Ou até pior, a um processo de má informação.
      Veja-se por exemplo essa entrevista do Presidente da Eletrobras . É chocante a omissão dos fatos mais importantes que envolvem a questão geral do setor elétrico e da própria Eletrobras, a deturpação de fatos, as meias verdades e até coisa pior. Joga-se com as palavras ao bel prazer, transmitindo ideias que não correspondem à realidade.
      Por exemplo, é falsa a afirmativa de que a Eletrobras precisava de recursos do Orçamento da União, que por conseguinte iriam sair da educação, da saúde, etc. Isto nunca existiu. Se recentemente aconteceu, episodicamente, não foi culpa da Eletrobras nem do seu quadro de pessoal, mas do próprio governo que incompetentemente caiu no conto proposto pela FIESP de que as tarifas estavam altas por conta das usinas da Eletrobras.
      E então, não sabendo ou não tendo força política para fazer a coisa certa, preferiu seguir a proposta da FIESP amplamente divulgada na imprensa, como matéria paga, registre-se.
      E aí, a bem da verdade, o Sr. Presidente da Eletrobras, que na época, acredito, era dirigente de uma empresa distribuidora de energia elétrica no Estado de São Paulo, não reclamou. Certamente preferiu ficar recebendo as faturas da energia elétrica gerada pelas usinas da Eletrobras (principalmente da CHESF e de FURNAS), cotizada a precinhos camaradas, da ordem de um quinto, ou até menos, do valor que era faturado pelo restante da geração nacional.
      Naquela hora ele, como dirigente de empresa, deve ter visto que aquilo iria liquidar a Eletrobras, como eu vi e afirmei em Palestra para o CONFEA, em Brasília,, publicamente, ainda no dia 19/12/2012, quando a MP 579 ainda não tinha sido transformada na Lei 12.783. Mas é compreensível, ele estaria do outro lado do balcão.
      Entretanto, agora, com certeza, para que não se diga que deixou passar em branco, já perto do fim da entrevista o Sr. Presidente da Eletrobras deixa passar o seguinte, literalmente:
      “Há um problema técnico causado por aquela redução de 20% nas contas de luz, em 2013. A remuneração da Eletrobras pela geração de energia diminuiu 65%”.
      Agora? Será que ele acha e a Revista também que os problemas enfrentados pela Eletrobras depois de 2012 não tiveram nada a ver com listo? Que os prejuízos citados na entrevista apurados nos balanços posteriores da Eletrobras e de suas subsidiárias foram produzidos pela presença dos “vagabundos” que lá estavam? Não aprovo e nunca aprovei sinecurista no setor, mas venhamos e convenhamos.
      Qual das empresas privadas do setor elétrico brasileiro, hoje, estaria preparada para reduzir sua receita do dia para a noite em 65%, sem que, ao mesmo tempo, nada do seu encargo do dia-a-dia com as respectivas instalações em serviço tivesse sido alterada? Equivale a dizer, todas as despesas permaneciam.
      Similarmente, as distribuidoras que foram ditas “federalizadas” durante o governo FHC, o que significa empurradas para as costas da Eletrobras porque sobraram do processo de privatização, foi sempre um encargo que a Eletrobras como instituição não queria e recebeu por ordem superior. Lá foram parar porque a iniciativa privada não se interessou por elas e, registre-se, faltou aos governos seguintes a vontade política efetiva de dar solução ao problema.
      E para terminar, já na penúltima resposta, talvez para enumerar realizações positivas, o Sr. Presidente da Eletrobras vem afirmar a seguinte pérola: “Terminamos as usinas hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau … Em 2018 vamos concluir as hidrelétricas de São Manoel e Sinop. Belo Monte ficará totalmente pronta em 2019, junto com as novas linhas de transmissão.”
      Mas quem “Terminamos…”, cara-pálida? Todas essa obras aí citadas não são da Eletrobras, são Privadas, das quais a Eletrobras e/ou subsidiárias apenas participam minoritariamente, repetimos, minoritariamente, sem poder de controle, portanto.

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