Documentos da História Recente XV

 

 

O texto abaixo foi publicado no jornal português A BATALHA na sua edição de abril/maio/junho de 1984.

Enviado por carta, ainda em tempos de ditadura no Brasil, foi assinado com o pseudômino Duarte da Paz, usado até hoje pelo signatário desta nota.

Notem que era uma época de otimismo entre as entidades do movimento social. O artigo mantém um otimismo cuidadoso, constatando que "quantas vezes estas entidades foram os principais agentes das mutações revolucionárias e, logo a seguir, passaram a simples e anulados instrumentos de um partido e do Estado autoritário?” Mais uma óbvia profecia?

 

Olavo Cabral Ramos Filho

novembro de 2009

 

 

 

 

  

                        BRASIL: A MOBILIZAÇÃO PELAS ELEIÇÕES DIRECTAS

 

                         – A TÉNUE OPORTUNIDADE DO MOVIMENTO SOCIAL

 

Duarte da Paz

 

Nunca no Brasil cresceu tanto a capacidade de mobilização das entidades formadoras do movimento social. Nunca chegamos tão perto de um panorama concreto tal que, torna-se real e palpável a probabilidade de sucesso das acções  do movimento social em busca de mudanças, consciente da sua força autônoma e da sua capacidade de autocoordenação. As afirmações acima não deixam de ser um pouco exageradas. Passam até pelo risco de tangenciarem, quiçá penetrarem, o terreno do idealismo e do sonho. Quantas vezes muitos imaginaram e diagnosticaram que as entidades representativas da classe trabalhadora no campo e na cidade estavam prontas para exercerem a sua capacidade para mutação da sociedade ?  E o que foi muito pior: quantas vezes estas entidades foram os principais agentes de mutações revolucionárias e, logo a seguir, passaram a simples e anulados instrumentos de um partido e do Estado autoritário.

 

Contudo, vamos repetir: nunca no Brasil cresceu tanto a capacidade de mobilização política dos sindicatos, associações de bairro, quarteirão e favelas, associações de empregados de empresas públicas e privadas, instituições culturais e técnicas que congregam profissionais, passando a mobilização ao local de trabalho e à família.

Assim, a campanha e a mobilização da sociedade pelas eleições directas só terá sentido se as entidades do movimento social caminharem livres da influência  de vanguardas iluminadas, livres da ameaça histórica de se transformarem de agentes da mudança em instrumentos inertes da vanguarda que viria a tomar o poder, livres do próprio conceito centralista e autoritário de tomada do  PODER , livres da expectativa fatalista das mutações alcançadas virem a desembocar inexoravelmente num Estado cada vez mais poderoso.

Existe, porém, uma contradição no próprio objetivo da campanha. Deseja-se a eleição directa de um Presidente da República. Mesmo uma nova constituição, que entregue uma grande parcela do processo decisório às entidades  do movimento social, sob uma nova visão da sua capacidade de federalização e organização da produção e do consumo, e ainda assim, perduraria  a contradição da presença de um poder executivo

(presidente e ministério) unipessoal, de um Estado muito forte e permanentemente restritivo.

Entretanto, o pequeno passo radical a ser dado a partir da campanha pelas eleições directas deveria ser a conscientização, mobilização e organização permanente de todas e de cada uma das entidades representativas da sociedade, buscando tornar impossível, em futuro próximo, qualquer modelo autoritário e capitalista ou qualquer encaminhamento para algo semelhante ao “socialismo real”, vigente em tantas partes do planeta, mesmo que sejam atractivos para alguns as suas formas de organização rígida e os seus consolos sob a forma de ganhos econômicos e materiais para todos, permanentemente subjulgados.

Tornar-se-ia então possível o socialismo ? Só uma luta contínua  com todos os meios, aproveitando a oportunidade presente, possibilitaria um grande e não somente um pequeno passo radical. A oportunidade deixaria de ser tênue  -  seria forte e definitiva.

 

Publicado no jornal português A BATALHA na edição de abril/maio/junho de 1984.

 

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