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O Estado de São Paulo foi atingido por 411.500 raios entre 26 de dezembro de 2009 e 26 de janeiro deste ano, quase o triplo do verificado nos mesmos 30 dias do verão 2008/2009 (143.293 raios), segundo levantamento feito pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Somente na capital paulista houve um crescimento de 236% na quantidade de raios que caíram em janeiro na comparação com o primeiro mês do verão de 2009 (de 3.945 para 13.278).
Segundo o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior, o aumento da incidência de raios no Estado ainda está sendo analisado, mas uma das causas prováveis é a influência do fenômeno climático El Niño, que provoca o aumento gradativo das chuvas, especialmente no Sul e Sudeste do país. "Neste começo de ano, foram registradas muitas tempestades no Sul do país e isso também pode ter reflexos em São Paulo, uma vez que o Estado recebe influência dessa região, pela proximidade territorial."
Para o pesquisador Carlos Nobre, chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre , na região Sudeste o sinal do El Niño não costuma ser consistente. "Este ano, porém, as chuvas estão bem acima da média na região, o que dá indícios de que podem estar mesmo associadas ao forte El Niño em curso."
O El Niño é caracterizado por um aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial. Embora tenha impacto sobre a atmosfera globalmente, no Brasil os efeitos do fenômeno são mais intensos no Nordeste e leste da Amazônia, com o agravamento da seca, e no Sul do país, com a ocorrência de chuvas abundantes. Em geral, o El Niño começa no meio do ano, atinge o ápice em dezembro e dura, em média, 12 meses.
Pinto Júnior cita também como uma das principais causas para o aumento dos raios no país as variações de temperatura no oceano Atlântico, fato que pode alterar a circulação atmosférica e provocar diferentes impactos na formação de tempestades em várias regiões do país. Na região Sudeste, uma das possibilidades, são as chamadas "ilhas de calor", diz o especialista. "Os municípios de médio e grande porte do Estado apresentam níveis altos de poluição e temperatura, formando as chamadas 'ilhas de calor', que alteram a formação de tempestades e provocam mais raios."
No Vale do Paraíba, única região em que foram divulgados os dados por cidade, o Elat constatou aumento de 289% no número de raios que caíram no período monitorado este ano, em comparação com os dados de janeiro de 2009. Entre os dias 26 de dezembro de 2009 e 26 de janeiro deste ano, foram registrados 56.724 raios na região. No mesmo período, 12 meses atrás, a incidência do fenômeno chegou a 14.594.
O município de Natividade da Serra registrou um total de 5.038 raios em janeiro deste ano, ante 332 em igual período de 2009. Em São José dos Campos, o aumento na quantidade de raios foi de 275%, passando de 1.129 para 4261. A grande diferença nos números deste ano, segundo Pinto Júnior, será mais bem explicada após uma análise detalhada do que irá ocorrer durante os meses de fevereiro e março deste ano.
Em 2009, o Sudeste foi a região que registrou maior quantidade de raios dentro da área de cobertura da rede do Elat, que abrange nove Estados e o Distrito Federal. Segundo o levantamento, o número de raios que atingiu o Sudeste foi de 10,5 milhões. As regiões Centro-Oeste e Sul registraram incidência de 6,7 milhões e 3,7 milhões respectivamente.
O Brasil é o país onde caem mais raios no mundo, cerca de 60 milhões a cada ano, causando prejuízos superiores a R$ 1 bilhão por ano, sendo que 60% desse montante somente no setor elétrico. "São dois raios por segundo ou ainda cerca de sete raios por quilômetro quadrado", afirma Pinto Júnior.
Na próxima semana, o Inpe divulga um estudo inédito sobre as mortes provocadas pelos raios em todo o país, nos últimos dez anos. Historicamente, segundo o pesquisador, os raios são responsáveis pela morte de cem pessoas por ano.
Para monitorar a incidência de raios no Brasil, o Inpe criou, em 1999, a Rede Brasileira de Detecção de Descargas Atmosféricas (BrasilDat), operada também pelas empresas parceiras Furnas, Cemig , Eletrosul e o Instituto Tecnológico de Meteorologia do Estado do Paraná (Simepar ). A rede conta hoje com um total de 53 sensores, que enviam informações históricas e , em tempo real, sobre onde estão ocorrendo os raios. O monitoramento da incidência de raios também pode ser acompanhado pela internet, na página do Inpe.
A partir de fevereiro, a rede também vai incluir o Estado de Mato Grosso no seu sistema de cobertura. Hoje, a BrasilDat cobre as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Outra expansão da rede já está em curso e, a partir do segundo semestre deste ano, e o seu raio de cobertura chegará até a região Nordeste do país. "Estamos instalando 30 novos sensores, que estarão em plena operação até 2011", explica o coordenador do Elat.
A rede brasileira é a terceira maior do planeta, depois dos Estados Unidos (110 sensores) e do Canadá (80 sensores). "A implantação da rede americana contribuiu para uma redução de 30% na incidência de raios no país. O Brasil, com a BrasilDat, está economizando R$ 400 mil por ano, graças ao monitoramento dos raios", explica Pinto Júnior.
Ao saber onde os raios estão caindo e a sua evolução, as empresas de energia elétrica, por exemplo, podem reduzir o fluxo de energia em determinada linha de transmissão e remanejá-lo para outro lugar, evitando assim a ocorrência de blecautes. O melhor conhecimento do fenômeno, segundo Pinto Júnior, também ajuda as empresas no desenvolvimento de sistemas de proteção mais eficazes e na instalação de linhas de transmissão em regiões de menor incidência de raios.
Amazônia será a região mais afetada no futuro, prevê estudo
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O aumento da temperatura do planeta vai gerar um crescimento na frequência de raios. No Brasil, a Amazônia, no futuro, será a região mais afetada pelos raios, pois deverá registrar, até o fim do século, o maior aumento de temperatura do país, entre 4 e 8 Celsius. Outro fator que contribui para esse cenário é a previsão de uma diminuição na umidade da região, com a transformação da floresta em cerrado, o que favorece ainda mais a incidência de raios.
As afirmações fazem parte de estudo realizado pelo pesquisador Osmar Pinto Júnior, do Inpe, publicado no livro "Lightning in the Tropics: From a Source of Fire to a Monitoring System of Climatic Changes" (Os Raios nos Trópicos: de Fonte de Fogo a Um Sistema de Monitoramento de Mudanças Climáticas), lançado em novembro do ano passado, nos Estados Unidos, pela Nova Science Publishers, de Nova York.
As observações feitas por satélite e monitoradas pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Inpe, indicam um aumento de 18% na incidência de descargas atmosféricas nos últimos dez anos, e a tendência é que ocorra um acréscimo ainda maior nas próximas décadas. "A tendência global de crescimento na frequência de raios ocorrerá fundamentalmente devido ao aumento de temperatura provocado pela maior concentração de gases- estufa na atmosfera."
Os estudos sobre as relações entre raios e aquecimento global também serão intensificados a partir deste ano com a transferência do grupo de pesquisadores do Elat para o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST), que desenvolve pesquisas na área de mudanças ambientais globais. "Este novo centro precisa reunir pesquisadores de várias áreas e buscar os cruzamentos interdisciplinares que revelam os aspectos mais importantes das mudanças no ambiente global", afirma o chefe do CCST, Carlos Nobre.
Os impactos causados pelos raios no ambiente e na vida dos brasileiros também estará sendo retratado, em breve, em um documentário, que está sendo produzido por Pinto Júnior. "Estamos finalizando o levantamento das informações históricas e devemos começar as filmagens em junho deste ano." A estreia está prevista para julho de 2011. (VS) | |