Comentário: Num momento onde cada MWh marginal custa R$ 822 e quando as contas já ultrapassam R$ 40 bilhões, ficar preocupado com conteúdo local para qualquer tecnologia que possa ajudar a enfrentar a crise, nos parece um preciosismo.
Entretanto, o governo está pronto para cometer outro erro apenas por não querer enfrentar os seus próprios equívocos. Diversos países já demonstram que a energia solar só é competitiva se adotada de forma distribuída, mas o governo quer usinas solares que, na melhor das hipóteses, vão custar o triplo de outras renováveis.
Porém, quem acompanha as análises do ILUMINA pode perceber outras razões para se adotar a forma de leilão para “energia de reserva”. Já cansamos de perguntar: Se temos um sistema mercantil baseado em uma grandeza denominada garantia física ou energia assegurada, para que uma energia de reserva?
As autoridades não vão responder, mas a energia de reserva é um encargo e à ela não está associado o “certificado” de garantia. Porque? Na realidade, essa forma foi criada para “cobrir” a diferença cada vez maior entre as garantias físicas e a geração. Como temos insistido, os certificados estão todos superavaliados em função de alterações do mundo físico e de mudanças nos critérios de operação ainda não reconhecidos nessas variáveis. Portanto, mais uma vez, os problemas do modelo.
A energia solar distribuída tem inúmeras vantagens, mas vai exigir do governo o enfrentamento do interesse das distribuidoras que, além de não quererem perder mercado, iriam ficar expostas a uma fiscalização dos consumidores sem precedentes através dos smart grids. A eletrônica digital iria também registrar as falhas do fornecimento das concessionárias, que, como a ANEEL tem registrado aumentou bastante nos últimos anos.
Elisa Soares
Entidades do governo parecem finalmente concordar em abrir espaço no planejamento energético para a energia solar. Depois do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, sinalizar a possibilidade de um leilão exclusivo para essa fonte, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se organiza para flexibilizar a exigência de conteúdo local para fabricantes de equipamentos fotovoltaicos que se cadastrarem no Finame – linha de financiamento para compra de máquinas e equipamentos do banco.
O mesmo mecanismo já foi adotado no passado para incentivar as eólicas. Hoje a regra é de financiar equipamentos via Finame que tenham pelo menos 60% de conteúdo local.
Foi a primeira vez que a EPE falou em um leilão único para solar. Tolmasquim afirmou, terça-feira, que a fonte deve ser contemplada no próximo leilão de energia de reserva, em estudo para ser realizado no segundo semestre. Na ocasião, ele disse ainda que a EPE prevê a contratação de 3,5 mil megawatts (MW) de capacidade instalada de projetos solares em leilões de energia de 2014 a 2018. A previsão de demanda é uma antecipação do que deve vir no próximo Plano Decenal de Energia (PDE) 2023, a ser divulgado este ano. O próximo passo, então, seria garantir financiamento.
“Falei com o presidente do BNDES [Luciano Coutinho]. Estamos combinando uma reunião sobre as condições de financiamento para este leilão”, afirmou Tolmasquim, na ocasião. A indicação de leilão exclusivo para solar significaria que a fonte não vai concorrer com outras de custo mais baixo. Uma fonte que acompanhou diversas discussões governamentais sobre o assunto disse que o BNDES e o ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Internacional (Mdic) já eram a favor da flexibilização da exigência de conteúdo local para os fabricantes de equipamentos fotovoltaicos, mas não tinham apoio do Ministério de Minas e Energia (MME).
Para o especialista em energia solar da consultoria PSR, Rafael Kelman, é viável começar com uma flexibilização de conteúdo local para 20%, que seria garantido por transformadores, sistemas de controle e supervisão, cabos e estruturas metálicas. Os demais 80% poderiam ser importados. Isso vai dar pontapé inicial para essa indústria, de acordo com Kelman.
“Sempre houve recurso disponível para financiar usinas solares, mas o fabricante não podia acessar o financiamento pela exigência de conteúdo nacional”, explicou Kelman. O BNDES tem condições especiais para financiar o desenvolvimento de usinas solares desde 2011, pelo Fundo Clima para energias renováveis, que tem taxas bastante competitivas. Mas pela ausência de fabricantes nacionais de módulos e por existir só um produtor de inversores no país, a WEG, a linha do BNDES ainda não tem nenhum projeto solar em carteira.
Kelman afirma que um leilão exclusivo de solar daria um choque de demanda, e incentivaria fabricantes a se instalarem no país. O BNDES cadastraria essas empresas no Finame, e o aumento gradativo da exigência de conteúdo local garantiria a obrigatoriedade de produção no país. Foi assim que aconteceu com a eólica, que cinco anos depois da primeira concorrência já atingiu índices de nacionalização superiores a 60%.
Para um executivo do BNDES que preferiu não se identificar, a organização de um leilão exclusivo de solar seria muito positivo para organização da cadeia de fornecedores.
Segundo interlocutores, BNDES e Mdic já apoiavam o incentivo a solar há algum tempo. Faltava, entretanto, apoio dentro do MME. O ministério era muito centrado na figura do secretário Planejamento e Desenvolvimento Energético, Altino Ventura, conhecido por sua defesa às hidrelétricas com barragens. “Quando o assunto era solar, ele defendia a modicidade tarifária e dizia que o Brasil possuía outras fontes renováveis competitivas”, disse uma fonte que acompanhou algumas discussões.
O próprio Tolmasquim se dizia contrário à realização de um leilão único de solar até pouco tempo. A postura da cúpula energética de Dilma era esperar que os preços da fonte caíssem pelo menos a um patamar 70% a 80% mais caro que as demais fontes. Hoje o custo da energia fotovoltaica está duas vezes mais cara que outras fontes.
A mesma postura foi adotada com a energia eólica, que só teve um leilão exclusivo da fonte em 2009, quando seu custo era 70% superior às demais fontes.
Na opinião de especialistas, a mudança no discurso foi motivada, em partes, porque o governo precisa muito de boas notícias em meio a diversas críticas sobre a forma como tem conduzido o setor elétrico. As diversas interferências regulatórias oneraram as empresas de distribuição e geração, que somadas à baixa afluência de chuvas, colocaram em risco o fornecimento energético.
Há fortes indicações de que, não melhorando o nível dos reservatórios, o país passará por novo racionamento ou racionalização do uso da energia – a exemplo do ocorrido em 2001. O governo nega de forma categórica.
Outra questão que influencia no discurso de apoio à solar é que seu principal opositor, Ventura, está perdendo força no MME, e perto de se aposentar. Cresce, por outro lado, integrantes do ministério que apoiam a fonte. Ainda do ponto de vista conjuntural, na visão de especialistas, a solar é uma ótima opção, pois tem condições de entrar em operação em menos de um ano.
5 respostas
Apoio a ideia de se utilizar todos os tipos de energia–solar, fotovoltaica, eólica, e muitas outras.
Infelizmente “vão dar com os burros n’água”. Como se sabe, a fonte de conversão solar direta (fotovoltaica) ainda não é solução para blocos de energia de valores médios ou grandes, como exige o Sistema Interligado Nacional. É aplicável apenas em casos particulares de cargas pequenas e remotas ou no uso distribuído, como por exemplo foi feito na Alemanha cujos resultados são dúbios e não tão favoráveis como se costuma propalar, pois existem sérios questionamentos não divulgados como se devia.
Como se sabe, há ainda necessidade de salto tecnológico que viabilize o aumento de rendimento das células. Não afastaria a hipótese de uma grande ação de lobby em favor da fonte solar nesse momento em nosso País.
Inicialmente gostaria de parabenizar o Ilumina, não só pelo encaminhamento dos artigos, mas tb pelos oportunos comentários feitos no início de cada notícia.
Gostaria de abordar mais um ponto importante sobre essas tecnologias. Até quando ficaremos à mercê da tecnologia e da mão de obra importada para as tecnologias de ponta? Sempre ficaremos vulneráveis a preços ditados externamente. Serão preços de oportunidade e a menos que haja uma concorrência entre os fornecedores (e sabemos que isso não existe), os preços de implantação serão sempre ditados se observando os da energia no país.
Nunca se viu em tantos anos tamanhos absurdos de quem diz que faz planejamento. Ora para colocar solares em funcionamento temos que ter um plano para nossa indústria trilhar para esse caminho. Além dos mais usinas solares são feitas para serem colocadas em um sistema de geração distribuída e não concentrada em alguns pontos do sistemas como outras usinas térmicas ou eólicas. Uma hora é a moda da nuclear, outra hora a das térmicas a gás, uma outra das eólicas , agora as solares. Precisamos é de planejamento e corrigir as imperfeiçoes do modelo existente. Pessoal sentar e pensar e não qualquer coisa de afogadilho. DEPOIS QUEM PAGA A CONTA É O CONTRIBUINTE. País rico é um pais que as pessoas pensam, refletem, debatem e depois tomam uma decisão de consenso, para não se ter pobreza.
Chiganer
A razão está na necessidade de arranjar energia de reserva. Afinal, a assegurada não é tão segura assim. Grato pelo comentário!