Eletrobrás culpa consórcio de usina por atraso na obra – Estado de São Paulo

Comentário: O caso Santo Antônio é uma das trapalhadas armadas pelo governo para anunciar situações “cor de rosa” num modelo que só causa perdas bilionárias às empresas e aos consumidores.

Atraso na obra? É esse o problema? Claro que o dilema não é esse! A maioria das obras de hidroelétricas atrasa. A verdadeira razão dessa confusão está na decisão de antecipar a venda de energia no mercado livre. Para entender o que está por trás é preciso lembrar algumas esquecidas relações:

  1. O leilão da usina surpreendeu o mercado em 2007 ao oferecer energia para o mercado cativo a um preço muito baixo (R$ 94,53) quando o preço teto fixado pelo governo girava no entorno de R$ 120/MWh.
  2. Ninguém sabe exatamente como os custos foram alocados aos sócios, uma vez que a estatal Furnas entrou para viabilizar o empreendimento. Que influência teve essa participação na redução do preço do leilão?
  3. Os contratos firmados em 2004 com usinas já existentes (velhas) estavam numa média de R$ 91/MWh. Como usinas novas poderiam vender energia a preços de usinas antigas? Mas, no Brasil, as duvidas dos preços baixos do leilão de S. Antônio foram logo esquecidas.
  4. Logo esse valor seria usado como exemplo para, sem nenhum diagnóstico sério, proclamar que as tarifas brasileiras eram altas por causa das usinas antigas. Essa campanha foi feita pela FIESP.
  5. Quem assistiu essa campanha acreditou mesmo que as usinas antigas (maioria da Eletrobras) eram realmente as culpadas.
  6. Na realidade esses preços foram fixados por leilão, giravam no entorno de R$ 65/MWh e só subiram para os R$ 91/MWh porque o governo, sem coragem de enfrentar o mercado, manteve a indexação pelo IGP-M em todos os contratos.
  7. Concordando com a FIESP, o governo lança a MP 579 que impõe preços mais baixos às usinas da Eletrobrás do que qualquer exemplo em sistemas parecidos.
  8. Mas, nos bastidores, a tese de que seria preciso compensar o preço baixo do leilão no mercado livre continuava viva.
  9. Em 2011 começou-se a assinar contratos de entrega de energia no mercado antecipadamente.
  10. Como mostramos diversas vezes, o equilíbrio estrutural do sistema já estava comprometido e o risco do preço no mercado subir a valores estratosféricos, que só ocorrem no Brasil, era muito alto.
  11. Quem decidiu antecipar a venda de energia no mercado livre? Que relação essa decisão teve com o surpreendente preço baixo do leilão? Que estudos basearam essa decisão? Qual foi a avaliação de risco na hipótese de não ter como entregar a energia?

 São perguntas que se juntam a tantas outras e que ficam sem resposta.


ANNE WARTH / BRASÍLIA

O presidente da Eletrobrás, José da Costa Carvalho Neto, disse ontem que o consórcio construtor da usina de Santo Antônio tem “grande parte da responsabilidade” pelo atraso na antecipação das obras da hidrelétrica, em construção no Rio Madeira (RO). Subsidiária da Eletrobrás, a estatal Furnas é a principal acionista da concessionária Santo Antônio Energia, que tem enfrentado dificuldades para pagar suas dívidas com a compra de energia no mercado.

“Eles (o consórcio construtor) têm uma parte grande da responsabilidade”, disse o executivo, após reunião do conselho de administração da Eletrobrás. O impasse entre o consórcio construtor e a concessionária já dura meses e é uma das causas dos problemas financeiros da usina. A Santo Antônio Energia alega que as construtoras não conseguiram cumprir integralmente o cronograma de antecipação das obras da hidrelétrica.

Isso causou prejuízos milionários à concessionária, que, agora, quer dividir essa despesa com as empreiteiras – no jargão da construção civil, isso é conhecido como “claim”.

Na semana passada, Furnas não enviou representantes à Assembleia Geral Extraordinária dos acionistas da Santo Antônio Energia e, por isso, o aporte adicional de R$ 1,14 bilhão não foi aprovado. A concessionária tem uma dívida de R$ 266 milhões na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que vence no dia 8 de outubro, e não tem recursos em caixa para pagá-la.

Carvalho Neto disse que Furnas está “gastando todo o fosfato” para resolver o problema e encontrar uma solução conjunta com os demais sócios. “Em nenhum momento Furnas está se negando a pagar os valores que estão no contrato da obra e os valores da liquidação no mercado de curto prazo. (O problema) É mais o valor dos ‘claims’.”

O executivo admitiu que a concessionária também deve pagamentos ao consórcio. “Uma hora vamos ter de sentar e ver o que é justo para um lado e o que é justo para o outro lado.” O consórcio construtor é formado pela Odebrecht e pela Andrade Gutierrez, que também são sócias da concessionária Santo Antônio Energia.

Por ser a principal acionista, com 39% de participação, caberia a Furnas fazer o maior aporte à concessionária. Mas a estatal avalia que as empreiteiras têm de assumir sua responsabilidade pelos problemas nas obras e pagar por eles. A Santo Antônio Energia também tem como sócios o fundo Caixa FIP Amazônia Energia (20%) e a Cemig (10%), além da Odebrecht Energia (18,6%) e da Andrade Gutierrez (12,4%).

Empréstimo. Parte do problema da Santo Antônio Energia deve ser resolvida nesta semana. Carvalho Neto informou que o Conselho de Administração da companhia aprovou a liberação da primeira parcela do empréstimo de R$ 6,5 bilhões, firmado entre o grupo, Caixa e Banco do Brasil. Ao todo, R$ 1 bilhão devem ser liberados e divididos entre as subsidiárias Furnas, Eletrosul e Eletronuclear.

O executivo afirmou que Furnas deve usar o dinheiro justamente na hidrelétrica de Santo Antônio. Além dela, também receberão recursos as usinas de Teles Pires, São Manoel, eólicas e linhas de transmissão em Angra 3. Outras duas parcelas devem sair no fim deste ano e no início de 2015.

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