Comentário: Infelizmente o Boletim do MME não informa dados de anos anteriores, quando a situação dos reservatórios estava mais favorável. Como não há identificação dos motivos das ocorrências, ainda não se pode dizer que elas são decorrências do efeito descrito na reportagem pelo ILUMINA, função da perda de queda das usinas. Apesar disso, esse é um efeito que poderá ocorrer com mais frequência, pois a importância da resposta rápida das turbinas hidráulicas é indiscutível.

Por Daniel Rittner e Murillo Camarotto | De Brasília
Nem mesmo a demanda comportada por energia livrou os consumidores brasileiros de longos momentos de escuridão nos últimos meses. Enquanto o governo assegura que não há desequilíbrio estrutural na oferta, o número de “apaguinhos” inverteu a tendência de queda verificada no ano passado e cresceu em 2014, conforme dados oficiais. Entre janeiro e setembro, o sistema registrou 58 interrupções no fornecimento com carga igual ou superior a 100 megawatts (MW), o suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes. A queda de luz durou pelo menos dez minutos em todos os casos. Foram 49 ocorrências no mesmo período de 2013.
O alto índice de “apaguinhos” intriga especialistas, que não têm uma explicação fechada para esse fenômeno, mas cogitam hipóteses como a queda no nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas e a fragilidade nos sistemas de transmissão. De olho na persistência dos problemas, o Tribunal de Contas da União (TCU) abriu uma auditoria para investigar as razões de tantos cortes de luz. Auditores estão visitando distribuidora por distribuidora para saber a origem das ocorrências e avaliar se a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tem fiscalizado adequadamente essas empresas.
As informações sobre a incidência de cortes estão disponíveis no Boletim de Monitoramento do Sistema Elétrico, uma publicação mensal do próprio governo, que é divulgada pelo Ministério de Minas e Energia.
Entre janeiro e setembro de 2012, segundo os relatórios, houve 65 ocorrências e 22.738 MW de carga interrompida. Comparações com anos anteriores não são possíveis porque o ministério incluía cortes de luz menores na conta. Os números demonstram uma evolução em 2013. Houve 20.409 MW de carga afetada em 49 eventos. Neste ano, a quantidade de “apaguinhos” subiu novamente, atingindo 21.403 MW em um total de 58 ocorrências.
Para o diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético (Ilumina), Roberto Pereira D’Araújo, esse crescimento pode estar associado ao nível mais baixo dos reservatórios nos últimos meses. Ele nota que muitas turbinas de hidrelétricas estão sendo desligadas para poupar o volume acumulado de água. Isso ocorre para evitar que o nível de armazenamento fique tão baixo a ponto de elevar os riscos de um fenômeno conhecido como “cavitação” – formam-se bolhas que podem levar a um desgaste irreversível das máquinas. “É mais ou menos o que acontece quando você esvazia uma banheira e aparecem aqueles redemoinhos”, compara.
Ao desligar parte das turbinas, segundo Araújo, perde-se capacidade de resposta rápida a variações bruscas de demanda no sistema. “As térmicas não têm uma resposta tão rápida. Nas hidrelétricas, é como abrir a torneira. Você abre e sai água imediatamente”, diz o especialista. No momento atual, porém, muitas usinas vivem uma situação em que não adianta simplesmente jogar mais água nas turbinas, porque os reservatórios estão baixos e não há queda suficiente para aumentar a geração de energia. “Essa diminuição de queda não significa só que estamos mais perto de um racionamento. Corremos o risco também de não conseguir atender variações súbitas de carga.”
Araújo demonstra preocupação ainda com os serviços de manutenção da rede de linhas de transmissão que tiveram suas concessões renovadas em 2012. As empresas que prorrogaram esses contratos passaram a depender de aprovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para fazer intervenções na rede. Elas começaram a ser remuneradas apenas pela operação e manutenção dos ativos, o que, nas palavras do especialista, significa “estar aí para administrar o pessoal e trocar uns parafusos”. Reparos maiores e substituições de equipamentos tornaram-se processos mais lentos e, com isso, haveria maior risco de desgaste na rede.
O professor Nivalde de Castro, coordenador do grupo de estudos do setor elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), concorda com essa hipótese. “São concessões sem ativos e as empresas ficam receosas de fazer investimentos que podem não estar sendo consideradas, pela Aneel, em suas bases regulatórias”, afirma.
Para agravar o problema, segundo ele, as empresas do setor estão descapitalizadas por causa da indefinição no pagamento de indenizações restantes por terem aderido ao plano de renovação antecipada das concessões. Tudo isso, na avaliação de Castro, pode estar prejudicando os trabalhos de manutenção.
Enquanto isso, o TCU direciona sua investigação na rede de distribuição. Informações preliminares apontam que as empresas não estariam investindo o suficiente na conservação das redes e que a fiscalização – muitas vezes terceirizada pela Aneel aos órgãos estaduais – é deficiente. Nos nove primeiros meses de 2014, o consumo cresceu só 2,5%.