http://www.valor.com.br/brasil/3896416/hidreletricas-fazem-apelo-para-conter-nova-sangria
A reportagem do link noticia a grave consequência da adoção do modelo vigente desde 1995 no sistema brasileiro. Certamente, dada a tendência “Levy” de conter o déficit público, essa conta também acabará sobrando para os consumidores. Como as usinas não conseguem gerar suas “garantias físicas”, o déficit pode ultrapassar R$ 30 bilhões. PREPAREM-SE!
O ILUMINA vêm mostrando os defeitos do mimetizado e subjetivo modelo há mais de 10 anos! Mas, ao contrário da lógica de Nelson Rodrigues, que dizia que o óbvio é ululante, o óbvio está rouco de tanto ulular.
O novo buraco a ser coberto vem da seguinte teimosia:
- O Brasil é um país de clima tropical cuja natureza proporcionou uma matriz de base hidroelétrica.
- Dada a dimensão continental e a diversidade hidrológica, era evidente que a melhor maneira de explorar essas características seria de interligar as dessemelhanças para que o sistema fosse capaz de produzir mais energia do que as potencialidades individuais das usinas. Essa característica é conhecida como monopólio natural geração-transmissão e o sistema foi desenvolvido para aproveitar essa vantagem.
- Evidentemente, as gerações das usinas, justamente pela diversidade e pela lógica sistêmica que maximiza a energia total, são muito variáveis. Podem ocorrer mudanças de um ano para o outro da ordem de 100%.
- Portanto, tentar imitar sistemas térmicos onde usinas geram a energia que vendem não é uma boa ideia.
- Mas a década de 90 foi pródiga no modismo de ideologias mercantis estreitas. Para ser “moderno” todos os sistemas deveriam adotar a mesma receita.
- Assim o Brasil, obedientemente, inventou um número fixo para cada usina que já se chamou energia assegurada, energia garantida e agora se chama garantia física.
- A determinação desse número é repleta de parâmetros subjetivos e que dependem de uma simulação da operação no horizonte de planejamento. Enfatizamos a palavra SIMULAÇÃO!
- Assim, os números resultantes refletem um tipo de operação que não aconteceu e, por ser feita sob a hipótese de um sistema futuro, pode não ocorrer como imaginado.
- A dívida surge da diferença do mundo real e desse mundo virtual que não está nos manuais nem da turbina e nem do gerador e, pior, a geração não é definida pelo dono da usina também!
Apesar de todas essas virtualidades, o Brasil continua com a cabeça da década de 90 achando que sistemas mercantis só podem ser feitos de uma única maneira.
O que é preocupante é que a reportagem já relata a intenção de jogar a conta para os consumidores via ESS (Encargo de Serviço do Sistema).
Ai, de repente o óbvio aparece: O presidente da APINE (Produtores Independentes) Luiz Fernado Vianna declara que, “paralelamente, haveria a criação de uma “conta gráfica” para contabilizar esse dispêndio, com um ressarcimento integral dos valores em anos de “vacas gordas” – isto é, quando os reservatórios estiverem cheios e as hidrelétricas produzirem acima de seus contratos. Hoje, esse montante “extra” de energia pode ser vendido no mercado de curto prazo, de acordo com os interesses de cada empresa geradora. “É fundamental equacionar essa questão”, enfatiza Vianna.”
Como o ILUMINA considera o presidente da APINE um técnico preparado, não pode acreditar que ele não tenha percebido o que ocorria no mercado livre por mais de 10 anos.

A nossa interpretação é de que, sabedores dessa característica, aproveitaram enquanto puderam para, agora, mudar a regra do jogo. Esse entendimento é melhor do que considerar que todos desconheciam as características do sistema, como por exemplo diferenças de 7.000% no PLD.
Para uma ampla análise do que ocorreu, consultar:
http://ilumina.org.br/da-superficie-para-as-entranhas-um-modelo-com-defeitos-geneticos/
3 respostas
Gente, Roberto e José Carlos estão absolutamente corretos. Afinal, quando será que alguém verdadeiramente responsável no setor elétrico brasileiro vai reconhecer que na raiz de toda crise do setor está a adoção equivocada, a partir de 1995, do modelo mercantil com sua filosofia de operação que abandonou a função de regularização plurianual dos reservatórios?
Em 2001 o próprio Ministro Pedro Parente, que embora estranho ao setor foi nomeado gerente da crise, percebeu algo nessa direção e por sua determinação foi criada a chamada Curva Bianual de Aversão ao Risco, hoje também já abandonada.
Enquanto não reconhecerem que energia elétrica não é uma simples mercadoria, mas um serviço público essencial, não haverá solução. “Nem que a vaca tussa”.
Roberto,
Você está correto ao dizer que o óbvio está rouco de tanto ulular, pois não é de agora que se sabe que a implementação e manutenção do modelo adotado para o setor elétrico nacional, fundamentado na estrutura formada pelo ONS, EPE e ANEEL, só fez produzir festas de MWh barato para poucos as custas de todos os consumidores e de todos os demais usuários da água.
Pelo que eu entendi o presidente da APINE quer que as geradoras recebam hoje pelo PLD vigente e devolvam pelo PLD do ano quando as “vacas estiverem gordas”, ou seja, correção negativa sem data definida.
Lembramos que reservatórios cheios não querem dizer que as hidrelétricas podem produzir acima de seus contratos, e com isto promover nova festa de MWh barato.
Salientamos que a retirada de vazão de água superior a vazão regularizada só deveria ocorrer na existência ou na iminência de vertimento, e neste caso a geração excedente poderia ser utilizada para deslocar a geração das térmicas mais caras que estivessem operando.
A retirada de água acima da vazão regularizada para geração de energia, pode provocar prejuízos para os demais usuários que são abastecimento humano (Rio de Janeiro, Pirapora,etc), abastecimento animal, agricultura, hidrovias (Tietê-Paraná, São Francisco, etc).
José Carlos;
Não poderia concordar mais. Os CMO’s estiveram e estão errados, o que você disse em outras palavras. Ao invés de reconhecer a superavaliação da garantia do sistema, o governo fica nos empurrando energia de reserva que já passa de 9.000 MW. Mais encargos.