Erros da turbina até a tomada.

Artigo publicado no Estadão Noite; http://www.estadao.com.br/noticias/geral,os-destaques-do-estadao-noite-desta-sexta-feira-6,1630836

Roberto Pereira D’Araujo

Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico – ilumina.org.br

Se sua poupança tivesse o equivalente ao que sua família consome em um mês e você percebesse que essa situação vem numa tendência de piora contínua, você diria que o seu risco é baixo? Você não tomaria alguma atitude para diminuir seus gastos? Se você acha que está tudo bem, então deve concordar com o que dizem as autoridades, porque, guardadas as imprecisões da analogia, isso é o que está ocorrendo com a área de energia elétrica hoje.

Os dados são do Operador Nacional do Sistema. Em janeiro de 2015, a reserva em todas as usinas hidráulicas do sistema somava 43.808 GWh. No mesmo mês (30 dias), o consumo total chegou a 49.163 GWh. Portanto, dividindo um pelo outro, temos 26 dias de consumo na nossa “poupança” hidroenergética. Menos de um mês.

Isso não quer dizer que daqui a 26 dias teremos racionamento. Esse número é apenas uma fotografia de um filme. Apesar de chover pouco, os rios não secaram e, se conseguirmos retirar menos água do que está entrando, a “poupança” aumenta.

Só que não parece crível que o risco de ocorrer um racionamento seja da ordem de 7%, como afirma o governo. Afinal, as nossas térmicas, funcionado ao máximo, só podem chegar a 30% da carga. Bastaria o resto, hidráulicas e eólicas, não conseguirem gerar os 70% restantes e já estaríamos com sérios problemas. Além disso, nós, brasileiros, precisamos entender que a questão não se resume a ter ou não ter o racionamento. A tarifa que pagamos pressupõe um risco abaixo de 5% e o “produto” que estão nos entregando não tem essa confiabilidade.

A situação atual, como o exemplo da poupança, não surgiu de repente. Desde 2009 a nossa reserva em função da carga cai vertiginosamente. Nesses casos, São Pedro logo se torna o vilão da história, mas não é bem assim. De 2009 até 2014, apenas 2012 e 2014 foram anos “secos”, sendo que 2012 apresentou afluências apenas 13% abaixo da média. Portanto, nada de culpar o santo.

Na realidade, nem toda usina térmica é uma boa “ajudante” das hidráulicas. Se ela for muito cara, fica desligada para não aumentar a tarifa. Mas, como é contabilizada na oferta, quem gera no lugar dela é uma usina hidráulica. Portanto, ao contrário do senso comum, boa parte das térmicas que contratamos nesse período (óleo e diesel) ajuda a esvaziar reservatórios. Esse é o falso equilíbrio e robustez do sistema.

Com tantas evidências do contrário, não se sabe como é possível imaginar um risco tão baixo como o divulgado pelo governo, mas, podemos desconfiar. Uma das razões pode ser que os cálculos que suportam essa otimista afirmação, não levam em conta um pequeno detalhe característico do nosso sistema. Toda vez que o período “úmido” (Novembro-Abril) foi pouco chuvoso, o período “seco” (Maio – Outubro), em 70% dos casos, também foi. Portanto, o governo pode estar apostando no “cavalo azarão”.

Enquanto nos assustamos com toda essa realidade, vejam apenas um exemplo das coisas que poderíamos ter feito e não fizemos. Muitas micro-usinas de 44 W poderiam ser rapidamente instaladas no Brasil. As lâmpadas dicróicas, tão comuns em shoppings, que consomem 50 W e esquentam muito, podem ser substituídas por lâmpadas LED de 6W que não geram calor. Dai surgiria uma disponibilidade de 44 W para outros usos. Mas, quanto custa uma LED com tantos impostos embutidos? Talvez mais de R$ 60 e esse preço desanima qualquer um. Por incrível que pareça, mesmo com esse custo, essa é a usina mais barata por unidade energética. Qualquer outra sai por quatro vezes mais. Apesar de óbvio, esse detalhe passa despercebido pelas autoridades e a carga fiscal permanece incólume.

Talvez, quando houver alguma compreensão que o setor elétrico começa na turbina e termina na tomada, talvez possamos sair da crise com algum aprendizado. Vamos aguardar.

Categoria

2 respostas

  1. Roberto,

    O comentário do Prof. Feijó está absolutamente correto, visto que para o ano em curso não tem porque se falar em risco de déficit e sim se vai ter ou não déficit, qual a profundidade do mesmo e que ações devem ser tomadas para minimizar ou eliminar o referido déficit.

  2. Roberto, vou repetir algo que já disse aqui. Não faz sentido técnico nenhum se falar em risco de déficit para o ano em curso, quando a hidrologia real já está de fato praticamente definida ( período hidrológico dos nossos rios inicia-se em novembro).
    Para os não iniciados, em poucas palavras, o risco de déficit é o resultado de um cálculo probabilístico, obtido através da múltipla simulação da operação do sistema durante um ano a partir da hipótese da ocorrência das diferentes hidrologias que eventualmente venham a ocorrer, a partir dos dados do histórico das hidrologias já observada no passado. Por esta razão, o risco de déficit é essencialmente um elemento a ser considerado no planejamento da expansão do sistema, isto é, na operação do sistema nos anos futuros.
    Assim, para o ano em curso não faz nenhum sentido imaginar-se que a hidrologia vai ser assim ou assado, para então simular a operação do sistema. A hidrologia, favorável ou contrária, decorridos cerca de 70% do período úmido, já está definida e agora não há porque se considerar o cálculo do risco de déficit. A situação já está praticamente definida. Se até o fim de abril não cair nas cabeceiras dos nosso principais rios um grande (anormal) volume de chuvas será muito difícil escapar da crise,
    Em última análise, para o ano em curso, um sistema bem planejado deve ter sempre risco de déficit ZERO.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *