Você quer saber a verdadeira razão da sua conta de luz ter se tornado cara?

 

  1. Você está incomodado com o aumento da sua conta de luz?

Claro! Não há como não se indignar quando o nosso kWh custa US$ 0,27, o dobro da média dos estados americanos que nem dispõe de tanta energia renovável. (http://www.electricitylocal.com/resources/statistics/)

A propaganda do governo sobre as bandeiras tarifárias coloca uma entusiasmada atriz “global” para dizer o óbvio:

Agora, as bandeiras tarifárias virão impressas na conta de luz. Elas indicam o custo real de produção de energia no país”.

Como se fosse algo inevitável, ela parece comemorar o o inusitado aumento do preço num país dotado de uma matriz renovável. Que o custo de produção aumentou, todos sabem, mas o que causou o aumento?

É fácil culpar alguma coisa que não se tem controle. Se um motorista se “acidenta” num dia chuvoso, a desculpa preferida da maioria é responsabilizar o asfalto molhado e escorregadio. Na realidade, nessa situação típica das nossas cidades, as condições que exigiriam um maior cuidado já estavam presentes. Uma menor velocidade, uma maior distância do carro da frente e uma maior atenção poderiam evitar o que se classifica como “acidente”, mas que, em essência, é um desajuste às situações presentes e evidentes.

A tarifa de energia elétrica praticada atualmente no Brasil é como a “batida de carro” num dia chuvoso. Dava para evitar, mas, sem respeitar os sinais que já estavam claros há tempos, o “motorista” do setor elétrico, como o exemplo acima, não toma o devido cuidado e “amassa” o orçamento do consumidor com tarifas explosivas. Claro, põe a culpa em São Pedro, não pela chuva, mas sim pela ausência dela. É bem mais fácil, pois o clima não pode se defender.

  1. Na realidade, essa subida tarifária não começou agora.

Desde 1995 a tarifa brasileira tem aumento acima da inflação. O Ilumina já publicou um gráfico desse histórico com uma estimativa de aumento para 2015 que, dada as últimas notícias, está se mostrando até modesta.

O “degrau” para baixo em 2013 se deve à redução tarifária de 2012, advinda da imposição de custos insuficientes às usinas e linhas da Eletrobras. Essa artificialidade já implica em um “esqueleto no armário” que já ultrapassa R$ 1 bilhão, e a redução já foi praticamente anulada pela crise. Crise que, insistimos, não é apenas hídrica, mas sim crise de inadequação e desdém aos sinais claros do “acidente” tarifário atual.

  1. Gastando a poupança.

As indicações do “asfalto molhado” já estavam claras desde 2009, como se pode ver no gráfico abaixo (também já publicado pelo Ilumina), que mostra a quantidade de energia reservada nas usinas hidroelétricas do país medida em número de meses que a carga total leva para consumi-la. Por exemplo, em fevereiro de 2015, os reservatórios estavam tão vazios que essa água, se fosse turbinada, daria para apenas 1 mês de consumo. A evolução desse índice, decrescente desde 2009, mostrava claros sinais de que algo desastroso estava por vir.

Evidentemente, assim como o motorista descuidado, a culpa vai para São Pedro. Todavia, se as autoridades do setor querem que a sociedade realmente acredite nisso, então é melhor alterar a base de dados do Operador Nacional do Sistema, porque, lá, a história é bem distinta, como mostra a figura abaixo. Nela estão ordenados os mais de 80 anos do histórico de afluências desde os mais secos (baixos – vermelhos piores que 2014) até os mais caudalosos (mais altos).

Mas tudo isso poderia ser classificado como uma avaliação equivocada do Ilumina baseada em contas simplórias que não retratam a realidade.

  1. Então, que tal fazer uma avaliação com os números oficiais de garantia e geração do setor?

Para isso, pedimos paciência aos leitores, mas precisamos explicar uma singularidade brasileira. No Brasil, ao contrário da maioria dos sistemas elétricos no mundo, usinas não vendem a energia que geram. Pode parecer esquisito e é mesmo.

Mas, não é tão difícil de compreender.

Como temos grandes usinas com grandes reservatórios em regiões distantes, a decisão de quais usinas geram e quanto geram nada tem a ver com o fato delas venderem kWh. Por exemplo, se usinas térmicas fossem depender de kWh gerado nelas próprias, em anos muito chuvosos, iriam ter prejuízo. Portanto, por uma exclusividade física do sistema brasileiro, uma usina não vende a sua geração.

Mas, se não vende a quantidade de kWh que gera, o que ela vende?

O Brasil inventou um número chamado “Garantia Física” (GF) por usina, que, teoricamente é o “pedaço” da produção total do sistema associado à cada empreendimento. Não está no manual da turbina. Não está no manual do gerador. Não é escolhido pelo dono da usina. Surge de um complexo modelo matemático de “escritório” e, portanto, deve ter uma justificativa e uma responsabilidade de cálculo.

É um número médio e, portanto, em alguns anos uma usina pode não gerar a sua GF. Por exemplo, a usina de Furnas tem associada a grandeza (linha preta) do gráfico abaixo (em MW médios).

  1. Um joguinho de adivinhação.

E o que é essa oscilação em torno do valor da GF? Seria a geração? Errou quem apostou nessa resposta.

É a própria GF variando!

Mas o jogo não acabou.

Quem acha que no período chuvoso (novembro-abril), a garantia física se eleva e seria compensada com um valor mais baixo no período seco? Correto?

Pois, novamente, errou quem raciocinou logicamente. O Brasil deixou ao cargo dos donos das usinas a definição da variação da GF ao longo do ano. Portanto, a GF pode assumir a lógica inversa à realidade física. Ou seja: Valores maiores no período seco e menores no período húmido. Claro que essa liberdade nada tem a ver com o interesse do consumidor. É apenas mais uma peça do jogo do mercado.

O gráfico seguinte é a comparação da GF de Furnas e sua geração real, onde se pode ver que ela está longe de gerar seu valor oficial, desde 2013.

  1. Garantia física: Nem física e nem garantida!

O gráfico seguinte mostra as duas grandezas mais importantes. Na linha azul a geração de todas as usinas do sistema (hidráulicas, térmicas, eólicas) e, na linha vermelha, a respectiva GF total. (o pico de 2013 é uma das distorções do sistema e será explicado ao final).

Como se pode ver, desde 2009 até 2014, a GF e a Geração Total andaram muito próximas.

  1. Será que um sistema que gera próximo a sua Garantia Física corre riscos?

Teoricamente, corre o risco estipulado nos planos, pois não existe risco zero. Mas, como a GF não é um número físico e sim uma estimativa, se ela estiver exagerada, o risco é mais alto do que se pensa.

Então vamos dar uma olhada em alguns pedaços da GF. O gráfico seguinte mostra a evolução da garantia física (GF) de todas as usinas hidráulicas do sistema em relação à GF de todas as usinas, quaisquer que sejam. É só fazer a conta GF Hidráulica/GF Total.

Em termos médios, de 2004 até 2009, as hidráulicas respondiam por aproximadamente 78% da garantia total (linha azul). De 2009 até 2013 essa “responsabilidade” se reduz gradativamente para 71% (linha amarela) e parece permanecer nesse nível.

O que significa isso? A garantia do sistema (como mostrado no gráfico anterior, está justinha com a geração total) vai se transferindo das hidráulicas para outras fontes.

Bem, se o sistema passa a depender mais de outras fontes, propomos outro joguinho de adivinhação: Quem acha que as hidráulicas, perdendo a responsabilidade pela garantia, deveriam ir gerando proporcionalmente menos também?

Pois errou quem apostou na lógica! O gráfico abaixo mostra a participação da geração hidráulica na geração total. Como se pode constatar, o período 2009 – 2013, ao invés de decrescer, como na garantia, a geração hidráulica permanece numa média constante, menos de 5% abaixo da responsabilidade anterior e depois cai vertiginosamente.

O que significa isso? É forte, mas, abusaram das hidráulicas! Esses dados oficiais confirmam o nosso gráfico da poupança decrescente.

É incrível, mas tanta complexidade e falta de transparência para confirmar uma coisa que todo mundo sabe:

“Caixas d’água se esvaziam se não entra água, mas também se esgotam se as usamos demais”.

Para ficar bem claro que a atual dependência de térmicas caras é um evento análogo ao do motorista descuidado num dia chuvoso, o gráfico baixo mostra a comparação da geração hidráulica total e a respectiva GF.

Como se pode ver apontado pelas setas azuis, a geração ficou muito acima da garantia física de 2009 até 2012. É como o velocímetro que registrou velocidades altas num dia chuvoso.

O que isso significa para a sua tarifa? Simples:

  • Como a geração hidráulica ficou acima da sua garantia ,os reservatórios foram usados além da conta e esvaziaram.
  • Sem água de reserva é preciso ligar as térmicas, inclusive as mais caras.
  • As térmicas contratadas nos últimos anos têm grande participação das modalidades óleo combustível e diesel, cujo preço de geração chega a 8 vezes o preço médio hidráulico.
  • Ai está a sua conta de luz.

E ainda sobra aquela dúvida: E se as GF’s estiverem superavaliadas? Pior ainda! Esvaziamentos sem garantia!

Que coisas esdrúxulas são esses círculos e a seta vermelha?

Eles são o efeito da distribuição da GF ao bel prazer dos donos da usina. Reparem que em 2009, 2010, 2011 e 2012 justamente em janeiro, mês chuvoso, a garantia se reduz e a geração aumenta. O inverso da lógica física ocorre porque no período seco há a probabilidade de preços maiores e como uma usina vende a sua GF, o jogo do mercado não se incomoda com o mundo de cabeça para baixo. Quem estiver exposto à oscilações no mercado livre, sofre.

A seta vermelha é algo inacreditável! Uma verdadeira jabuticaba!

Em janeiro de 2013, evidentemente, após a aventura “exaure reservatório” anterior, as usinas não conseguiram gerar a sua GF. Ai ocorre o contrário dos círculos. Se elas não conseguem gerar a GF têm que comprar energia das térmicas!

Um anglicismo pomposo, “Generation Scaling Factor”, dá um ar sério a uma situação ridícula.

Quando as usinas hidroelétricas geraram acima da sua GF como pode ser visto no gráfico, as usinas térmicas que venderam a sua própria GF “compraram” energia delas por preços tão baixos que chegaram a menos de R$ 20/MWh. Quando o inverso ocorre, as hidroelétricas “esqueceram” que “doaram” energia e tiveram que “pagar” R$ 800 pelo mesmo MWh que venderam por R$ 20.

Em janeiro de 2013 ocorriam duas “batidas” do motorista desastrado. Descontratavam-se as distribuidoras (aumento da nossa conta) e se colocava grande parte das hidráulicas nesse dilema. Para se proteger do prejuízo, as usinas mais importantes provocaram esse pico que só pode merecer mesmo a pergunta “O que é isso?”.

Resumindo, o estrago na sua conta tem um motivo. O motorista do setor elétrico não prestou atenção no aviso de pista molhada do início do texto.

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