Tiraram o bode do sofá – Artigo O GLOBO

Roberto Pereira D’Araujo

Diretor do ILUMINA – Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico

Acabou a bandeira tarifária na nossa conta de energia. Devemos festejar felizes? Ou valeria perguntar as razões que nos levaram a aguentar esse “bode” no sofá?

Para entender exatamente o que significou esse custo extra, é preciso primeiro desmontar um truque. Em qualquer país do mundo, custos de energia são medidos em kWh (quilowatthora) ou MWh (megawatthora). Aqui, espertamente, adotou-se a unidade de 100 kWh. Ora, R$ 4,5 por cada 100 kWh parece barato, mas são R$ 45/ MWh de custo extra. Para comparar, é 50% mais caro do que o limite inferior do nosso mercado livre, um nicho onde os consumidores residenciais estão banidos.

Outro engano é comparar esse custo das bandeiras com o total da conta de luz. Quem quiser se iludir vai achar uma pechinha pagar apenas mais 8%. Só que a bandeira tarifária está ligada ao consumo de energia (kWh). Nada tem a ver com transmissão, distribuição, encargos e impostos. Assim, basta dividir o custo da bandeira com a parcela da energia consumida para se descobrir que, na realidade, a “mordida” extra chega a 20%!

Mas isso não é tudo. É preciso entender como esse “bode” entrou na sua casa e sentou no seu sofá. O governo diz que devido à seca histórica, ele foi obrigado a usar usinas térmicas muito caras para atender o mercado de energia. Lorota! Considerando todas as regiões, os dados oficiais mostram que tivemos hidrologias abaixo da média em 2012 e 2014 (87% e 83%). Em compensação, tivemos 2013, 2011, 2010 acima ou igual à média (100%, 122%, 105%). São Pedro, fique tranquilo! O Sr. não tem culpa.

Então, como conseguimos precisar de tanta energia térmica de repente? Fácil! O sistema brasileiro é singular por conseguir guardar água em seus grandes reservatórios. Para se ter uma ideia da quantidade de energia que pode ser guardada, se, numa hipótese absurda, os rios secassem, teríamos energia equivalente a quase meio ano de consumo. Ora, caixas d’água se esvaziam de dois modos. Ou não entra água ou se abusa dessa reserva. Como mostrado no parágrafo anterior, São Pedro está livre de culpa. Portanto, o que aconteceu foi a segunda hipótese.

Aqui há uma incrível semelhança com as famosas pedaladas fiscais. Pode-se dizer que, sem sabermos, uma verdadeira “pedalada elétrica” estava sendo “traçada”. O dado mais impressionante que autoriza essa desconfiança é que de 2004 até setembro de 2012, as usinas térmicas atendiam aproximadamente 9% da carga. Isso significa que 91% da energia vinha das hidráulicas. Decisão arriscada que, evidentemente, esvazia reservatórios. Numa curiosa coincidência, só após setembro de 2012, a data do anúncio da redução compulsória das tarifas às custas da Eletrobras, as térmicas passaram a atender cerca de 23 % da carga. Um “pulo” de 150% nunca registrado no Brasil. Se isso não é uma gestão inadequada, o que seria?

Para finalizar, mesmo sem bandeira e com preços irrisórios impostos às usinas da Eletrobras – menos de R$ 12/MWh – que agora apresenta um prejuízo de R$ 14 bilhões – apenas duas cidades americanas têm tarifas superiores à brasileira: Nova York e São Francisco. Com certeza, o “bode” jamais seria aceito no sofá americano como foi aceito no Brasil.

 

 

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