Eletrobras não é eficiente em nada que faz, diz presidente da empresa – Folha de SP

Análise do ILUMINA: A imagem que melhor define essa declaração é a do palácio do Monroe, antigo prédio do Senado Federal na Cinelândia e “par arquitetônico” do Teatro Municipal.

Como se sabe, ele foi antecipadamente destruído em função das obras do metrô. Em algum momento, alguém também achou que tê-lo naquele lugar não era “eficiente” e, mesmo sem saber se seria realmente necessário demolir um símbolo da história brasileira, colocou abaixo o palácio. De certa maneira, a Eletrobras é como o palácio do Monroe. Dizer que ela não é eficiente em nada do que faz é, no mínimo, desprezar a história.

Bastaria dizer que, desde a data de criação do sistema Eletrobrás, a capacidade instalada brasileira passou de pouco menos de 4.000 MW para mais de 100.000 MW em 50 anos. Com certeza algumas pessoas irão “desvalorizar” o feito dizendo que outras empresas (hoje privadas) participaram desse esforço. Mais uma conveniente amnésia ao omitir que a Eletrobras era a coordenadora de todos esses esforços, pois, se os críticos esqueceram, o nosso sistema é interligado. O ILUMINA quer deixar bem claro o que estamos demolindo.

Assim como no caso do Monroe, é preciso muito desprezo pela história e pelo conhecimento acumulado para dar uma entrevista nesse teor. O que é de deixar qualquer um pasmo é a ausência de críticas à “demolidora” MP 579 que, inutilmente tentou reduzir a alta tarifa brasileira às custas da Eletrobrás.

Quem quiser conferir basta acessar a Nota Técnica no 385/2012-SER/SRG/ANEEL e conferir que usinas da Eletrobras foram obrigadas a aceitar condições suicidas pelo seu controlador majoritário, o governo. Tarifas que atingem menos de US$ 3/MWh, uma bizarrice sem paralelo no planeta. Nossa análise pode ser acessada no link abaixo.

http://ilumina.org.br/graficos-para-nos-fazer-entender-e-pensar-capitulo-final/

Qual foi o resultado concreto dessa medida? O gráfico abaixo (cotação das ações de 4 empresas brasileiras) dá uma exata dimensão do estilo adotado pelo governo. O caso da Eletrobras se destaca!

 

Como se vê, mesmo sendo difícil explicar como uma empresa do setor elétrico com ações nas bolsas de outros países perde 70% de seu valor da noite para o dia, tal evento parece que não passou pela cabeça do entrevistado.

O que foi destruído não foi apenas a empresa pública Eletrobras. O que desmontamos foi a capacidade de autofinanciamento do setor, pois, mantida essa filosofia, usinas antigas não geram 1 centavo para a construção de novas unidades.


 

 

 

RENATA AGOSTINI
MARIANA CARNEIRO
DE SÃO PAULO

O presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Junior, afirmou nesta sexta (30) que a construção do plano de reestruturação da estatal está em curso e que mais ativos podem ser postos à venda.

A empresa, uma das maiores geradoras de energia elétrica do mundo, fará ainda neste ano a privatização da Celg e incluiu outras seis distribuidoras no programa de concessões do governo.

Ele afirmou que o foco da empresa deve ser geração e transmissão.

“Não somos eficientes em nenhuma das atividades que operamos hoje”, afirmou, destacando que a dificuldade maior está no segmento de distribuição.

Segundo Ferreira Junior, que assumiu a estatal após deixar o comando da CPFL, será preciso reduzir o endividamento da companhia, hoje em 18 vezes sua geração de caixa, e melhorar a qualidade da operação.

De 2012 a 2015, a Eletrobras acumulou prejuízo de R$ 31,1 bilhões.

De acordo com o presidente, enquanto amargava maus resultados, a empresa decidiu “abraçar” o maior programa de investimento de sua história, com R$ 43 bilhões em geração, transmissão, distribuição e outros.

Com isso, houve uma queda abrupta em seu patrimônio.

“Uma empresa de mais de 40 anos que, em apenas três, liquidou quase metade do seu tamanho”, disse.

CORTES

O novo comando da Eletrobras deve promover demissões em breve. Um dos caminhos, segundo o presidente, é um programa de demissão voluntária a ser lançado pela estatal.

Ferreira Junior diz que o ajuste é necessário já que, apesar de ser uma empresa de operação de usinas e linhas de transmissão, 50% do quadro de funcionários está no setor administrativo.

“Só no Rio são seis prédios para acomodar o grupo”, afirmou.

BOLSA

No dia 11 de outubro, a empresa irá enfim arquivar relatório com dados financeiros e de seu balanço na Bolsa de Nova York, onde negocia ações.

Estão em atraso os documentos sobre 2014 e 2015. “

 

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7 respostas

  1. No momento em que os desafios da transição elétrica brasileira se demonstram gigantescos, com a exaustão do nosso modelo tradicional de exploração dos recursos hidráulicos, o esvaziamento do braço essencial da intervenção estatal no sistema elétrico gera um grande desconforto.

    Nos tempos que virão, nos quais a capacidade de coordenação jogará um papel fundamental na estruturação de um novo setor, a fragilização desse recurso histórico para essa coordenação, que se constitui a Eletrobras, preocupa.

    Há uma enorme dificuldade de entender a importância da Eletrobras na coordenação do sistema elétrico brasileiro. Por outro lado, as dificuldades causadas pela descoordenação configurada pela fragmentação que se seguiu ao seu paulatino esvaziamento raramente são reconhecidas.

    Para terminar, a maior utilização das energia renováveis, ancorada na capacidade de regularização dos nossos reservatórios – capacidade única no mundo -, vai demandar muito mais coordenação e centralização. Fragmentar e implodir mais o sistema é uma estratégica que pode atender a alguns interesses de curto prazo; porém, em termos de longo prazo, é um completo desastre. De proporções ferroviárias como se dizia antigamente.

    Segue o link com um texto que escrevi sobre a Eletrobras por ocasião dos seus cinquenta anos.
    https://infopetro.wordpress.com/2012/07/09/a-eletrobras-e-a-construcao-de-um-setor-eletrico-nacional/

  2. Roberto,

    Além de tudo que já foi mencionado gostaria de acrescentar dois pontos fundamentais a utilização do controle da inflação via tarifa iniciado na época que Delfin era o ministro da fazenda, e a implantação do modelo criativo do setor elétrico por FHC, e a manutenção do mesmo com mudanças insignificantes para pior por LuLa e Dilma.
    Quanto a declaração deste Senhor, que se diz presidente da Eletrobras, ele deveria entregar o boné e arrumar outra coisa para fazer.

  3. Após os comentários acima não há muito o que acrescentar.A Historianis conta que as brigas de interesses foram intensas contrárias a criação da Empresa .Observiu-se o uso ‘após a sua criação -da Eletrobras buscando ações que favoreciam,quem sabe, os mesmos grupos que não queriam a sua criação . Mas a Empresa sempre teve um papel importante ao fomentar o desenvolvimento de novas tecnologias no campo da geracao e transmissao de energia eletrica .Tem capacitação especializada reconhecida com Laboratórios de pesquisa como se ve em Goiás de Furnas voltado a projetos hidroeletricos..E impulsionou empresas privadas de estudos e projetos, instaladores e fornecedores de matérias e equipamentos etc.Nessa nova fase de transformação que o setor elétrico tem que enfrentar com o desenvolvimento de novas fontes renováveis ( além da solar e eolica) uma administração competente da Eletrobrás pode ser primordial. Ainda no enfrentamento da transicao para essa noiva fase.O governo e a administracao anterior quebraram a Empresa .Vamos ver se o atual governo e gestores serão competentes para dar um novo rumo a Empresa.Mas será que vamos trazer a baila ideias reencarnadas? Aí não vai dar certo.

  4. Realmente uma declaração infeliz do novo presidente! é fato que a empresa tem sofrido um processo de destruição e declínio, mas seria bom se perguntar sobre onde tem estado a raiz da referida ineficiência. Mais além da MP 579 e da “modicidade tarifária” a qualquer custo, nome enganoso que de diversas maneiras costuma destruir as empresas estatais de energia em nossa América Latina, seria bom lembrar uns poucos fatores.

    Distribuição ineficiente? sim, desde quando o BNDES jogou no colo da Eletrobras as empresas que não conseguia privatizar e que internamente pelo menos uma parcela grande de técnicos tenta por anos e anos, sem conseguir, permissão para vende-las, diante da quase impossibilidade de se gerir empresa estatal com eficiência em localidades mais carentes onde se espera do Estado tudo.

    Geração ineficiente? sim, mas pergunto quantos projetos significativos de usinas foram submetidos ao Comite de Investimentos técnico interno? é simples: nenhum.

    Estrutura organizacional ineficiente? Sim, mas como dar algum passo de reestruturação corporativa, quando as forças políticas regionais impediam coisas simples e seu alto comando não tinha forças para isso! Como tocar uma empresa quando seu Conselho de Administração, local da definição estratégica, sempre refletiu composições de diferentes áreas do governo, e sempre foi muito mais uma fonte de premiação a seus participantes. E onde as decisões mais relevantes na verdade estavam costumeiramente acima do próprio Conselho, em uma nuvem…autoritária e com outras preocupações que o valor da empresa. Eficiência como?

    Enfrentar a chamada ineficiência requereria uma dificil reestruturação corporativa de fato, redesenhando a corporação não mais em foco puramente regional, enfrentando-se para isso pressões de toda ordem. E os grandes projetos sem EBITDA? será possível alguma renegociação que gere tarifas compatíveis? Isso será possível? se não, vamos então assumir essa incapacidade de resolver??.. talvez liquidar seja mais fácil.

    Onde me parece o risco é que vai-se jogar a criança com a água do banho… a questão chave é necessita-se ainda de empresa estatal para garantir a expansão do suprimento a longo prazo e ajudar no desenho de uma matriz elétrica limpa, quando as questões climáticas são cada dia mais dramáticas? as falhas de mercado não serão maiores que as falhas de governo?

    Depois, Inês estará morta…

    1. Ruderico;

      Você, eu e muitos dos nossos leitores sabem que há muito mais tempo do que se imagina as nossas estatais de energia elétrica têm sido usadas para finalidades esdrúxulas. A série é enorme, mas eu salientaria as seguintes:
      1 – Represamento tarifário para contenção da inflação.
      2 – Distribuidoras rejeitadas pelo processo de privatização “penduradas” na Eletrobras.
      3 – Descontratação pós racionamento obrigando a Eletrobras gerar energia e liquidar a PLD de até R$ 4/MWh.
      4 – Pagamento de dividendos ao controlador majoritário sob a necessidade de superávit primário.
      5 – Imposição de parcerias minoritárias em projetos com sérios problemas de rentabilidade.
      6 – Uso da lei de concessões para reduzir tarifas artificialmente (MP 579).

      Como se vê, a Eletrobras já é um prédio em demolição e essas implosões começaram a muito mais tempo do que se supõe.

  5. Lamento essa declaração do presidente da Eletrobrás. Sem entrar no mérito da validade da avaliação, se é ou não correta, é estranho que o principal executivo diga isso de público, da sua empresa que dirige. Cui prodest?
    Pietro Erber

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