

- As faixas do gráfico representam o “range” de preços de hidroelétricas em diversos países. Como se pode ver, o Brasil apresenta valores de US$ por kW instalado entre ~ US$ 1200 e 2200[1].
- A usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, sempre comparada pela FIESP com as usinas antigas, tem 3150 MW e, segundo dados do próprio consórcio, já está custando R$ 15,52 bilhões[2].
- Portanto, essa usina está dentro da faixa do gráfico, com aproximadamente US$ 2.100/kW.
A comparação dessa usina com qualquer outra já não tem muito sentido, pois, ao contrário de usinas térmicas e eólicas, as hidroelétricas são únicas. Não há sequer duas hidroelétricas semelhantes.
Ao invés de recorrer aos dados contábeis das usinas antigas para saber o quanto teria sido REALMENTE amortizado, o governo, ignora a singularidade dos aproveitamentos hidráulicos e adota a metodologia do Valor Novo de Reposição.
O método trata de imaginar, de forma simplista, o quanto custaria uma usina nova com as mesmas características básicas[3] das usinas antigas. Como, por ocasião da medida de redução de tarifas, a FIESP, com o silêncio do governo, comparou o “paradigma” Santo Antônio com as usinas do grupo Eletrobras, vamos fazer umas contas?
As usinas de FURNAS e CHESF atingidas pela medida provisória 579 foram: Marimbondo, P. Colômbia, Estreito, Funil, Furnas e Corumbá. P. Afonso, Moxotó, Itaparica, Xingó, Piloto, Araras, Fumil, Pedras e Boa Esperança. Potência total: 13.800 MW.
Sob o padrão Santo Antônio de custo, R$ 4.926/kW, elas teriam custado R$ 68 bilhões.
A tabela abaixo, obtida de documento oficial da Eletrobras mostra que, segundo a contabilidade do setor, auditada, fiscalizada e aprovada pela ANEEL, a indenização deveria ser de R$ 13,226 bilhões, cerca de 20% dos R$ 68 bilhões estimados sob o paradigma Santo Antônio. Donde se conclui que, válida a tese de que S. Antônio é um exemplo para as usinas estatas, os consumidores já teriam amortizado 80% do investimento. O governo reconhece menos da metade (44%).

Adicione-se o fato de que a própria usina de Santo Antônio, se fosse submetida à metodologia simplista do Valor Novo de Reposição, provavelmente nem seria construída. Ou seja, nem o “paradigma” de preços baixos resiste à metodologia do governo.
Além de tudo isso, o sistema de serviço pelo custo, o que possibilita a captura de amortizações durante o tempo de vida de qualquer usina de forma contínua, foi substituído pelo governo pelo modelo de mercado. Na realidade, não existe mais “tarifa” de geração e sim preço. Portanto, se os preços das usinas antigas resultassem altos, seria o resultado de uma escolha do próprio governo. É o que teria acontecido se o racionamento não tivesse reduzido a carga em 15%. Na realidade, os preços antes de 2003 eram mais baratos e com o leilão liquidação de 2004 se reduziram mais ainda.

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