Indústrias e famílias têm prejuízos com os ‘apagões invisíveis’- O Globo – 23/02/14


Comentário: A reportagem abaixo relata os diversos mini e micro apagões que ocorrem no Rio e no Brasil. Considere a situação de ameaça de racionamento por que passamos e a conhecida insuficiência de quadro técnico da ANEEL (~ 600 funcionários para cuidar de um sistema de dimensões continentais). É impossível não desconfiar de que o sistema já esteja sofrendo cortes de carga programados. Lembramos que a ANEEL não dispõe de um sistema de medição próprio que possa, por amostragem, monitorar a qualidade do fornecimento. Seria uma espécie de “smart grid” que poderia ser instalado em alguns consumidores para verificar se as estatísticas de DEC e FEC traduzem a realidade.

Dada a piora na qualidade do serviço, pode-se pensar que a ideia de redes “smart grids” não agrada as distribuidoras, pois isso significaria um poder de monitoramento enorme do consumidor. Seria como passar de uma centena (será que são tantos?) para milhões de fiscais. Acrescente-se a isso a possibilidade de geração distribuída, principalmente solar, que o Brasil, um dos mais ensolarados pedaços do planeta, está na pré-história.

Vale a pena assistir o vídeo abaixo sobre a cidade de Boulder, Colorado, a Smart Grid City. Está em inglês, mas é possível perceber a central de monitoramento que pode ser conseguida com a tecnologia.

http://www.youtube.com/watch?v=f8ugivIg5kU


RIO – Além dos grandes apagões nacionais, como o do início do mês, e de falhas de distribuidoras, como a que atingiu bairros da Zona Sul carioca em janeiro e em Alagoas no fim de semana passado, empresas e famílias sofrem prejuízos com “apagões invisíveis”: interrupções no fornecimento de energia que duram menos de três minutos e não são computados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Estudo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), realizado em 2013 com dados de 2012, mostra que chegaram a ocorrer prejuízos milionários com os “apagões invisíveis”. Segundo Camila Schoti, coordenadora de Energia Elétrica da entidade, a Abrace ainda não tem os números fechados do levantamento, mas já verificou indícios de que o problema aumenta:

– Recebemos muitas reclamações de associados dizendo que o número de microcortes se ampliou no ano passado. Por isso, faremos uma nova pesquisa. Mas não há dados disponíveis, e é muito difícil mensurar o problema.

Camila diz que os microapagões podem ser mais danosos que as grandes falhas. O levantamento, conta, apontou o caso de uma indústria química, que pediu para não ser identificada, que perdeu R$ 2,6 milhões com eles só em 2012.

– Em um grande apagão, de uma hora e meia, ela perdeu seis horas de produção, pois para retomar toda a linha demora cerca de quatro horas e meia. Em outro dia, teve dois microcortes de menos de 60 segundos, mas que bastaram para parar a produção. Resultado: tiveram de esperar, no total, nove horas para retomar – conta, lembrando que as falhas curtas, em geral, queimam mais aparelhos também nas residências que as longas.

A coordenadora lembra, ainda, que como os dados não entram nos cálculos de desempenho da Aneel, muito pouco se faz para melhorar a situação. Ela conta que outros países, como França, Espanha e Portugal, contabilizam estas interrupções de menor duração.

– É muito difícil encarar esta situação, não temos números e, assim, ficamos sem base de comparação – disse, frisando que, até onde sabe, não está em debate no governo incluir os microapagões para o registro de falhas.

Na Celulose Riograndense, a instabilidade no fornecimento de energia preocupa mais que o preço do insumo. Segundo Walter Lídio Nunes, presidente da companhia, foram três picos de energia em janeiro, frequência que considera atípica.

– Não sei se é coincidência ou se foi por causa do pico de consumo, mas é algo incomum. O maior problema é a falta de confiabilidade do sistema de distribuição de energia, mais que preços – diz Nunes. Segundo ele, o problema não é maior porque 75% da energia consumida pela empresa são de geração própria, a partir do eucalipto na fábrica em Guaíba (RS). Outros 25% são contratados, algo como 10 megawatts, sendo a maior parte em contratos de longo prazo e uma parcela menor comprada no mercado livre.

A Aneel admite que há países onde o referencial para considerar uma interrupção como de longa duração nos sistemas de distribuição é de um minuto, mas “a maioria adota três minutos, como o Brasil”. A agência informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não tem intenção de alterar o parâmetro.

De acordo com a Aneel, os indicadores de duração (DEC) e frequência (FEC) das interrupções buscam medir o desempenho das distribuidoras em relação à continuidade do fornecimento, que é um dos parâmetros da qualidade da energia elétrica. A agência destaca que os episódios de curta e de longa duração costumam ter motivos diferentes, e as distribuidoras atuam de maneiras distintas para resolvê-los.

Normalmente, as interrupções de curta duração são causadas por eventos temporários na rede, como contato de um galho de árvore com um cabo. Os sistemas de distribuição possuem equipamentos que conseguem restabelecer o fornecimento até mesmo sem que haja reclamações, e os eventos só são registrados se houver medidores específicos. Já as interrupções de longa duração normalmente requerem ações emergenciais da distribuidora, muitas vezes incluindo deslocamento de equipes e troca de equipamentos. Estas falhas são as que causam mais transtornos para a maioria da população. Os indicadores DEC e FEC visam a mensurar essas interrupções”, explicaram os técnicos da agência reguladora.

Por “e-mail”, a Associação de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) disse que apenas “o processo de verificação do comportamento do sistema é certificado e atende aos critérios definidos pelo regulador” e que as empresas “seguem rigorosamente as determinações da Aneel”.

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