Governo muda regras para usinas eólicas – Valor – 19/02/14

Comentário: Coisas do modelo mercantil brasileiro. Fontes de energia cuja principal característica é a variabilidade ficam sujeitas a “comprar energia no mercado” para se sujeitar a exigências absurdas. Será que ainda tem alguém que não acredita que essas usinas de vento são ótimas para o sistema?

O gráfico abaixo foi construído da seguinte maneira:

Corrigiu-se a geração real das eólicas de tal maneira que a média fosse igual a do último ano. Os anos anteriores ficam inflados, mas preserva-se a evidente complementariedade com o outro gráfico, a energia dos rios. O único problema dessa situação é que precisaríamos de 10 e até 20 vezes mais fontes com essas características.

Seria tudo muito mais fácil se o Brasil respeitasse suas características físicas e adotasse o modelo de comprador majoritário, onde o que se contrata é o MW. O MWh ou o MWh na hora da ponta é fruto de planejamento, coordenação e responsabilidade. Mas a ideologia do mercado confunde tudo.

Felizmente, com atraso, entenderam que não podem mandar no vento.


André Borges

19/02/14 – O governo decidiu aliviar a pressão sobre as usinas eólicas e suspendeu as regras impostas sobre a capacidade de geração desses empreendimentos. A decisão, tomada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), diz respeito à oferta de energia que essas usinas tinham de garantir nos horários de pico de consumo do país.

Pelas regras do setor elétrico, qualquer gerador, seja qual for a fonte de energia, é obrigado a ter uma reserva de geração em sua estrutura. Essa margem de segurança funciona como um “seguro”, que pode ser acionado para garantir a oferta, se necessário. No caso das eólicas, valia a mesma condição imposta às hidrelétricas, ou seja, cada parque eólico tinha de garantir que possuia, em sua estrutura, uma energia equivalente a 1,5 vez a sua geração lançada no sistema. Se não tivesse condições de garantir essa margem de segurança, era obrigada a buscar essa geração extra no mercado, para repor a diferença. Além disso, seria multada por não cumprir uma regra estipulada em contrato.

 Há menos de três semanas, a Aneel suspendeu a exigência sobre as eólicas. Com a decisão, as usinas de vento estão isentas de multas e não têm mais obrigação de contratar energia de reposição.

“Foi uma decisão importante. Não estamos pedindo ausência de regras, mas elas têm que respeitar a natureza da fonte. O comportamento do setor eólico é diferente dos demais”, diz a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Élbia Melo. “Estavam exigindo uma apólice de seguro muito acima do que é necessário e viável.”

A energia dos ventos passou a participar dos leilões do governo em 2009. Eram os chamados leilões de reserva, que se baseavam em condições privilegiadas em relação ao leilão tradicional. A partir de 2010, no entanto, as eólicas começaram efetivamente a vender energia para as distribuidoras, nos leilões do mercado regulado de energia e, com isso, passaram a seguir as regras impostas aos demais. Os contratos assinados pelas empresas chegavam a exigir, por exemplo, que cada parque eólico deveria garantir uma capacidade máxima de energia entre 19h e 22h, diariamente.

Só no ano passado, quando os primeiros parques eólicos começaram a entrar em operação efetiva, é que o governo percebeu que não dava para exigir que o vento soprasse mais forte em determinado horário do dia. No fim de 2013, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) chegou a alertar que pelo menos quatro parques eólicos seriam multados por não terem condições de garantir a capacidade total contratada.

O alerta resultou em uma série de reuniões entre agentes do setor e do governo, em dezembro. Agora, para aliviar a tensão, a Aneel suspendeu a aplicação das multas. Ficou decidido que o tema será novamente debatido, para estabelecer uma medida específica para o setor. Procurada pelo Valor, a Aneel não comentou o assunto.

“Nós ainda estamos construindo um processo de regulação de energia no Brasil. Por isso, os engenheiros acabam aplicando regras de outros setores nas eólicas”, comenta Élbia. “É preciso ficar claro que a energia contratada está sendo efetivamente entregue. O que está sendo discutido é o excedente nos horários de pico”, diz a presidente da Abeeólica, acrescentando que “a decisão mantém adequado o sinal de investimento no setor”.

Em 2013, segundo dados da associação, os parques eólicos venderam ao mercado 45% da capacidade instalada, com entrega efetiva de 53%. No anterior, a capacidade vendida foi de 42%, mas 54% da geração chegou a ser comercializada.

O setor fechou o ano passado com 142 parques eólicos espalhados no país e potência total de 3,46 mil megawatts (MW), o que corresponde a 3% da matriz energética nacional. A partir dos projetos eólicos já contratados, as eólicas chegarão a 11,1 mil MW daqui três anos, praticamente a mesma potência da hidrelétrica de Belo Monte, que está em construção no rio Xingu, no Pará.

 

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4 respostas

  1. Entendo sua colocação Roberto, porem o problema persiste quem fará a complementação da geração Eólica, seja no horário de Fora Ponta ou mesmo na Ponta, aliais nos últimos anos a Demanda Máxima tem ocorrido no horário Fora de Ponta. O planejamento de expansão realizado pela EPE tem considerando no atendimento da carga do SIN, além das fontes tradicionais (hídrica, térmica), mais a geração eólica que é uma fonte intermitente, no momento que for necessário contarem com essa fonte e se a mesma não corresponder ao valor previsto, alguém deverá suprir esse atendimento. No frigir dos ovos, o dilema do setor elétrico brasileiro não munda em nada, ou seja, saber a hora certa de se utilizar água ou gerar térmica, porem o problema se amplia, pois a geração hidráulica fará a complementação da geração eólica, eu não tenho dúvida quanto a isso, afinal nossas térmicas não são projetadas para toma/retomada de carga em tempo real. O tempo dirá como as coisas se resolverão e a região Nordeste será laboratório de teste.

  2. Agora ANEEL deverá responder quem será responsável em garantir o “seguro” para sistema, afinal se a geração Eólica não atende, outro gerador deverá prestar o serviço, sendo assim deverá ser remunerado por este serviço! O ponto principal de toda essa discussão é pelo simples fato que nossos parques Eólicos foram licitados sem sua geração de Backup, afinal a geração Eólica é uma geração intermitente, não controlada! Na Hora H, na operação em tempo real, se essa energia eólica que foi disponibilizada não ocorrer, alguém devera cobrir essa falta de geração e ser remunerado por este serviço, que é conhecido mundo afora, é um Serviço Ancilar, todos os países que partiram para esse tipo de fonte disponibilizam suas fontes de Backup, caso a geração Eólica não venha ocorre. Mas em nosso país as coisas são feitas de forma bem diferente, ao invés de fazermos uma integração ordenada com a geração hidráulica e térmica, simplesmente estamos fazendo uma conta de Somar MW nos leilões de energia, sem ser preocupar com operação do sistema, pois além de ser uma energia de alta volatilidade, não participa do controle de freqüência do sistema. Afinal se a geração Eólica fosse leiloada considerando os custos da geração de Backup será que seria tão competitiva?
    PS: Os números vistos pelo valor médio são perfeitos, mas a operação real do sistema se dar na escala de segundos, ai coisa muda de figura. Temos sim um grande potencial a ser explorado, mas deve ser realizado de forma ordenada.

    1. Você tem razão Sergio. Mas, apesar dessa dependência de backup, que, pelo que pude entender, foi tratada sob a ótica da ponta, as eólicas têm uma vantagem sistêmica na energia que não foi corretamente analisada. Dado o modelo atual, o quanto gerar deve ser compatibilizado com o “quando” gerar. Pelos dados de geração real, as eólicas podem gerar mais quando o CMO estiver alto e portanto, poderiam estar sendo parcialmente valorizadas como as térmicas. Não estou defendendo esse mecanismo mercantil do modelo, mas sim a consideração dessa complementariedade ainda não cotejada com os problemas que você aponta.

  3. O setor ainda não entendeu ou não que entender. John Nash, premio nobel de economia , personagem do filme mente brilhante, mostrou ao mundo que jogos cooperativos dão resultados melhores do que os competitivos. No Brasil o sistema físico tem que ser cooperativo, logo basta introduzir também essa cooperação na parte econômica. Mas acham que são melhores que Nash. Estão ai os resultados que não podem ser contestados. Então pessoal, mãos a obra, muda-se o modelo atual e reduzem-se esses custos de transações com os novos agentes criados que nada adicionaram de melhoria ao setor elétrico. Até porque mudaram as cadeiras mas as cabeças são as mesmas.

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