MONITOR MERCANTIL 10 de maio de 2.000 SÓ UM MILAGRE RECUPERARÁ A POPULARIDADE DE FHC Joaquim Francisco de Carvalho Desde a malfadada reeleição , os principais órgãos de nossa imprensa – at&eac …

MONITOR MERCANTIL 10 de maio de 2.000


SÓ UM MILAGRE RECUPERARÁ A POPULARIDADE DE FHC


Joaquim Francisco de Carvalho


Desde a malfadada reeleição , os principais órgãos de nossa imprensa – até então muito benevolentes – têm dedicado um pouco mais de espaço aos desmandos do governo .

O resultado é que os índices de popularidade da atual administração despencaram a níveis nunca vistos , nem mesmo na era Sarney . Talvez preocupado com esse quadro , o presidente da República deu há algumas semanas a surpreendente declaração de que sente asco da corrupção que tomou conta de nossa administração pública , em todos os setores .

Como não se trata de um turista de país desnvolvido em vilegiatura pelos trópicos , depreende-se que Sua Excelência nada leu sobre certos episódios estranhos , acontecidos sob sua gestão . Vamos então relembrar notícias e informações já divulgadas porém sem o devido destaque em diversos jornais , sobre alguns desses episódios . É possível que isso ajude o presidente a descobrir as causas de sua rejeição pelo povo .

O primeiro mas não o mais grave foi "caso SIVAM" , que resultou na demissão de um ministro e na misteriosa promoção de um diplomata inconveniente e boquirroto para uma rica sinecura junto à FAO , em Roma . Pouco depois foi o PROER , acompanhado das manobras do governo para obstruir a CPI dos bancos e a das empreiteiras .

Em seguida veio o fenômeno das privatizações , escândalo sem paralelo na história da República . Não tendo mandato para vender o patrimônio público , o Executivo forçou o Congresso a aprovar a chamada "lei das desestatizações" . Mas o Congresso não dispunha de poderes constituintes , logo não podia tê-lo feito . Mesmo assim a atual administração , sem nenhum escrúpulo , alienou em poucos meses , a preços irrisórios , um patrimônio que vinha sendo amealhado desde a administração Vargas . Particularmente ascorosa foi a privatização da Vale do Rio Doce , uma das maiores e mais ricas empresas de mineração do mundo . Seu controle foi vendido por menos de cinco bilhões de reais , embora geólogos do próprio governo (Departamento Nacional de Produção Mineral) tivessem estimado em muitas centenas de bilhões de dolares as reservas minerais prospectadas pela Vale e a ela pertencentes . Mas isso não é tudo : o grupo comprador era capitaneado pelo Senhor Benjamin Steinbruch , que tinha entre seus assessores o próprio filho do presidente da República . E mais : o mesmo empresário havia participado do consórcio franco-americano que comprou a Light na bacia das almas e com financiamento do BNDES !

Mas em matéria de asco , a palma vai para a emenda da reeleição , extraida do Congresso pelo "primeiro amigo" Sérgio Motta , em seu estilo de "rolo compressor" , à custa de expedientes que , além de prejuízos financeiros , provocaram , pelo mau exemplo , incalculáveis danos morais à Nação : foi aí que começou a crescer a onda de corrupção que tanto incomoda o presidente . De resto , é estranhíssimo que personagens como Motta , pelo que fez na Coalbra , e Mendonça de Barros , célebre pela operação em que Nagy Nahas quebrou a bolsa do Rio , tenham recebido do governo a incumbência de alienar o patrimônio público . Igualmente estranho , aliás , foi o insólito envolvimento presidencial na recente nomeação da senhora Teresa Grossi para uma diretoria do Banco Central .

Foram muitas coisas estranhas . E a imprensa , sempre favorável ao governo .

Mas a torrente de lama que escoa de Brasília foi e continua sendo tão caudalosa , que nem mesmo os grandes jornais e emissoras de televisão tão eficientes para "adaptar" os os fatos à linha do "marketing" governista conseguiram estancá-la , para evitar o mergulho da popularidade de FHC .

Agora , entretanto , se os caminhoneiros e o MST não tiverem suficiente habilidade para planejar e executar suas manifestações , por justas que sejam , poderão oferecer ao governo o milagre de que este precisa para recuperar sua popularidade , que poderá vir sob a forma de aceitação , pelo povo , de métodos violentos , para neutralizar os efeitos da insegurança gerada na população pelos fantasmas do desabastecimento , da falta de gasolina e gás de cozinha , enfim , da angústia causada pela desordem .

Os estrategistas das oposições já devem ter percebido que votos são indispensáveis prara chegar-se ao poder . E que só assim será possível começar a corrigir , pacificamente e com o apoio da classe média , como convém , as distorções que fazem do Brasil um dos países mais injustos do mundo . A história mostra que , na América Latina , métodos anárquicos e violentos sempre levaram as causas justas ao desgaste e à derrota .


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Joaquim F. de Carvalho foi coordenador do setor industrial do Ministério do Planejamento, diretor da Nuclen e engenheiro da CESP. Atualmente é membro do Conselho Consultivo do Instituto de Estudos Estratégicos do Setor Elétrico – ILUMINA.



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