O GLOBO 20.07.97 Uma comunidade que sempre viveu na escuridão Flávia Oliveira A comunidade de Praia do Sono, em Paraty, existe há bem mais de cem anos. E tem vivido no escuro durante todo esse tempo. Imprensadas en …

O GLOBO 20.07.97




Uma comunidade que sempre viveu na escuridão

Flávia Oliveira

A comunidade de Praia do Sono, em Paraty, existe há bem mais de cem anos. E tem vivido no escuro durante todo esse

tempo. Imprensadas entre o mar e o que sobrou da Mata Atlântica no Estado do Rio, 60 famílias se preparam para entrar no Século XXI à luz de velas. Mas elas não estão sozinhas. De acordo com levantamento do Ministério das Minas e

Energia, existem 20 milhões de brasileiros sobrevivendo sem energia elétrica. Eles somam 12% da população nacional e – como na vila de pescadores em Paraty ou nas praias Vermelha, Longa e Araçatiba, na Ilha Grande – nem sempre estão longe de grandes cidades, como Rio de Janeiro ou São Paulo.

– São cem mil comunidades em todo o país – especifica Eugênio Mancini, diretor do Departamento Nacional de Desenvolvimento Energético.

É difícil acreditar que, a apenas três anos do Terceiro Milênio, ainda existam brasileiros dependendo do lampião a gás e das velas para enxergar algo depois do anoitecer. Em Praia do Sono, cada família gasta, pelo menos, dois pacotes de velas (a R$ 1,50 cada) por semana e três botijões de 2kg de gás (R$ 4) por mês.

– Queria luz para ter uma batedeira e um ferro elétrico – sonha a dona de casa Lindalva dos Remédios Albino, 29 anos, nascida e criada na região.

Na falta do ferro a carvão, que já não é mais vendido no Estado do Rio, Lindalva aquece panelas no fogão para passar suas roupas. A batedeira serviria para preparar os bolos e doces que vende aos turistas. A pequena birosca, feita quase totalmente de bambu, só abre no verão e vende cervejas e refrigerantes quentes.

– Para gelar as bebidas, tem que buscar o gelo de canoa na cidade – diz o pescador Alziro Manoel Albino, 66 anos, sogro de Lindalva e dono de uma birosca.

Lindalva e Alziro sabem que a vida com luz elétrica é mais fácil. Alguns de seus vizinhos, não. Tanto que a professora Vandéar Moreira, a Vânia, 44 anos, costuma levar fotografias de eletrodomésticos para mostrar aos alunos da Escola Municipal Martin de Sá, a única da vila:

– A maioria das crianças nem sabe o que é e para que serve um liquidificador – revela a professora, que há um ano e meio deixou deixou a casa com telefone, televisão, microondas e chuveiro elétrico para se dedicar à comunidade.

No Sono, a luz elétrica não apenas facilitaria o dia-a-dia. Salvaria vidas. No ano passado, uma menina de 4 anos morreu queimada. A vela que iluminava o cômodo onde ela dormia caiu e o fogo se espalhou pelos lençóis. Os pais estavam fora e perderam a filha e a casa.

Ireno Alziro Albino, 36 anos, baixa os olhos quando lembra da tragédia. Naninho, como é conhecido, é dono do único gerador existente na comunidade. Com isso, consegue ter freezer, televisão a cores, aparelho de som e antena parabólica. Mas gasta R$ 90 por mês em óleo diesel para manter a fonte de energia ligada diariamente, das 18h às 23h.

Ex-presidente da Associação de Moradores da Praia do Sono, Naninho há dois anos realizou um censo informal na vila. Contou 257 pessoas, das quais 137 são crianças de até 12 anos. Os moradores do Sono se casam cedo – as meninas, com 15 anos, e os meninos, com 17 – e têm muitos filhos. Naninho, por exemplo, é um dos dez filhos de “seu” Alziro,

que já tem 56 netos e dois bisnetos:

– Sem luz, sem televisão, dá nisso – diz o ex-pescador, que há oito anos trabalha como marinheiro no Condomínio das Laranjeiras, um empreendimento de alto luxo e com luz elétrica, a cinco quilômetros do Sono, e onde empresários como Antonio Ermírio de Moraes têm casa.

Um ano atrás, Naninho desistiu da função de líder comunitário e resolveu apoiar Joel Martins de Araújo, atual presidente da Associação de Moradores. Desde então, Joel tem se empenhado em reivindicar junto à Prefeitura de Paraty uma estrada de acesso ao Sono.

Atualmente, só se chega à comunidade de barco ou por uma trilha que cruza a reserva ecológica da Mata Atlântica. O trecho tem de cinco quilômetros, que são percorridos em cerca de uma hora.

– A estrada vai trazer o resto – acredita Joel. – E quando a luz chegar, nós não vamos mais viver nas trevas.

É o que esperam também as oito famílias que vivem no sítio do Centro Experimental Leonardo da Vinci, que fica no Km 203 da Rodovia Rio-Santos. O Celavi é uma organização não-governamental que há 17 anos realiza atividades culturais e de educação ambiental com moradores de Paraty. Tudo no escuro e a 800 metros do último poste do

lado fluminense da estrada.

– Estamos perdendo nossos rebentos porque não há luz – reclama o artista plástico Themis Correa da Silva, o Xará.

Cunhado de Xará, o músico Rhandal José Silva de Oliveira explica que dois de seus três filhos já saíram de Paraty para estudar no Rio e em Curitiba. Sem contar com a ajuda da energia elétrica, os adolescentes de 17 e 16 anos não tinham como fazer um curso profissionalizante em vídeo ou pela televisão.

– Já tivemos três geradores, mas todos pifaram – diz.

O músico conta que a sogra, fundadora do Centro, sonhou com a chegada da luz durante 15 anos. Sua única distração era um pequeno televisor preto e branco movido a pilhas. Durante anos, ela guardou todas as pilhas gastas para saber quantas usara até a chegada da luz elétrica. Há dois anos, morreu no escuro e com uma parede inteira de sua casa coberta

pelas centenas de pilhas médias.

– Temos uma máquina de lavar que funciona como tanque e uma antena parabólica parada. Montei um estúdio de gravação, mas os equipamentos estão sem uso porque não tenho uma tomada – lamenta Rhandal.

A Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro (Cerj) promete que o drama dos “sem luz” está com os dias contados. E o prazo se esgota no início do próximo século. José Luiz Echenique, gerente de Relações Corporativas da empresa, privatizada há um ano, diz que até 2001 todo o Estado do Rio está coberto pela rede de distribuição da Cerj. Segundo ele,

este ano, a prioridade da companhia são as regiões de maior concentração populacional:

– Estamos construindo seis subestações em São Gonçalo e na Região dos Lagos, que são nossa maior preocupação.

As áreas de Paraty e Angra dos Reis serão contempladas na segunda fase do programa de expansão da rede. Segundo Echenique o projeto já está pronto e começa a ser executado em 1998.

– São 67 quilômetros de rede, de Papucaia a Paraty – detalha. – Essas comunidades vão crescer quando a energia chegar.

O projeto contempla a Rio-Santos do Celavi, mas deixa dúvidas sobre Praia do Sono. O executivo da Cerj admite que áreas de difícil acesso serão estudadas caso a caso. O futuro indefinido não elimina o sonho do pescador Joel:

– A luz ia trazer alegria ao Sono – diz, ao lado da mulher Irinéia e dos filhos Josiel e Talita.

A praia, como contam os moradores, tem este nome porque lá o sol se põe cedo e nasce tarde. Uma história de escuro. Desde as origens.

Com R$ 2 bilhões, luz para cem mil comunidades

O dinheiro necessário para levar energia elétrica aos “sem luz” é pouco, se comparado à

quantidade de recursos que o Governo vai receber pela venda das estatais do setor. E

menor ainda, quando se considera a estimativa de investimento que a iniciativa privada fará

em dez anos para evitar a falta de luz, que ameaça 100% dos brasileiros.

De acordo com as estimativas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

(BNDES), os governos federal e estaduais deverão arrecadar US$ 50,5 bilhões com a

privatização do setor elétrico. Já os investimentos privados, devem ultrapassar US$ 68

bilhões até 2006. Em contrapartida, para levar a luz aos 20 milhões de habitantes que vivem

sem energia, são necessários cerca de R$ 6 bilhões.

– Dois bilhões de reais são suficientes para dotar as cem mil comunidades de energia e

garantir a instalação de postos de saúde, escolas e abastecimento de água – revela Eugênio

Mancini, do Departamento Nacional de Desenvolvimento Energético.

Os R$ 4 bilhões restantes financiariam a expansão individual da rede. Ou seja, faria a luz

chegar em cada uma das residências ou propriedades rurais que ainda estão na escuridão.

Este ano, segundo Mancini, o Governo federal está implantando o fornecimento básico em

mil comunidades em todo o país, entre elas a Ilha de Itacuruçá, no Rio. Em 1998, garante

ele, outras três mil serão contempladas.

A velocidade, contudo, ainda é baixa. Por isso, o Governo conta com o apoio privado e, em

especial, dos estrangeiros, que vêm se destacando na compra das estatais do setor. Tanto a

Light quanto a Cerj e a Cemig têm parte de seu capital em mãos estrangeiras.

– As empresas brasileiras têm um potencial de otimização que possibilita excelente

rentabilidade. Isso sem considerar a tendência de aumento da demanda – diz Oscar

Salomão, da Máxima Consultoria.

A empresa participou da avaliação da Coelba, companhia elétrica baiana que será leiloada

dia 31, ao preço mínimo de R$ 975 milhões. E os estudos apontam para uma queda média

de 5% ao ano no valor das tarifas entre 2003 e 2008.


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