Transposição Plano prevê desvio de 2% das águas para o semi-árido Com a obra, 8 milhões de pessoas serão beneficiadas Mauro Cezar Pereira , Para o Valor, de São Paul Defensores …



Transposição Plano prevê desvio de 2% das águas para o semi-árido


Com a obra, 8 milhões de pessoas serão beneficiadas

Mauro Cezar Pereira
, Para o Valor, de São Paul


Defensores da transposição das águas do São Francisco calculam que 8 milhões de pessoas seriam beneficiadas com a obra. Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores regiões metropolitanas do país, são abastecidas por meio de transposições. "Em média, 2% das águas seriam retiradas num projeto de 10 a 15 anos", argumenta o engenheiro do Ministério da Integração Nacional João Urbano Cagnin, Coordenador do Projeto São Francisco.


Seriam dois pontos de captação, em Cabrobó (PE) e na cidade de Ibimerim (PE), de onde canais levariam a água para oito açudes. Estes, por sua vez, manteriam o abastecimento freqüente de rios que passam parte do ano secos. "Haveria uma redução na geração de energia, mas há outros rios a serem explorados, como o Tocantins, além de nova fontes energéticas", argumenta Urbano, destacando benefícios como emprego e renda na região e chamando a atenção para a necessidade de um trabalho paralelo de preservação.


A elevada evaporação na região seria uma razão a mais para os planos serem levados adiante. "Hoje a água fica armazenada, esperando por uma seca que não se sabe quando virá. Parte dela se evapora. Com a transposição, isso não aconteceria", diz Urbano.


A interligação ocorreria por meio de bombas hidráulicas, que colocariam água num canal, fazendo o nível subir e passando-a de uma bacia para outra. O Ministro da Integração Nacional, Ney Suassuna, calcula que o projeto de transposição do São Francisco custaria US$ 2 bilhões. Ir buscar águas no Tocantins, uma segunda alternativa, teria custo entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões. "Obtivemos, na Espanha, US$ 800 milhões para a obra, e temos mais US$ 1 milhão em financiamento alinhavados", garante. Segundo ele, embora bem mais caro, o Plano B significaria uma operação menos onerosa. "Jogaríamos a água do Tocantins até o Ceará e depois não teríamos mais que bombeá-la, com a gravidade a nosso favor", explica.


Os espanhóis conhecem bem as transposições. O Rio Tejo tem a sua desde os anos 70. "Ela leva água ao sul do país, onde hoje se produz frutas para toda a Europa", destaca João Urbano, acrescentando que no Egito a água do Rio Nilo é jogada para a Península do Sinai, atravessando o canal de Suez. "A Califórnia tem o maior PIB dos EUA graças aos projetos de transposição, que abastecem até Los Angeles com água do Rio Colorado. O projeto tira 70% dela e aqui falamos em 2%", compara Urbano.


No entanto, projetos de transposição já não são tão bem aceitos, assegura o Coordenador da Área de Recursos Hídricos e Meio Ambiente do Instituto de Estudos Avançados da USP, Aldo Rebouças. "Eles vêm sendo considerados inviáveis devido ao custo elevado e aos danos ao meio ambiente. Os espanhóis estão revendo suas transposições, os egípcios travam intensa discussão a respeito e nos Estados Unidos debate-se os direitos sobre as águas do Colorado envolvendo o Canadá, onde elas nascem", destaca Rebouças, afirmando que o modelo americano é viabilizado por meio de subsídio federal.


O projeto brasileiro seria feito em etapas, levando pelo menos uma década. A etapa inicial seria os canais para instalação das bombas capazes de atender as primeiras regiões. Gradativamente, mais áreas seriam cobertas. "Seria como a barragem de Itaipu, inaugurada na virada dos anos 70 para 80 e onde última máquina foi colocada já nos anos 90", cita Urbano. Quanto aos riscos de projetos imaginados hoje não se tornarem realidade, ele argumenta que os problemas já existem na região e tendem a se agravar. "Pior será se nada for feito", adverte.


Para seguir adiante, o projeto depende de uma aprovação do Ibama. No entanto, está parado em meio a trâmites políticos e burocráticos. "O maior impasse está no impacto à geração de energia. Do ponto de vista ambiental, não vejo tantos obstáculos, pois a água seria tirada de Sobradinho, um lago artificial", argumenta Jorge Luiz Brito Cunha Reis, Coordenador de Licenciamento da diretoria de Licenciamento e Qualidade Ambiental do Ibama. O órgão pediu um complemento do estudo de impacto ambiental ao ministério, mas recursos judiciais oriundos dos Estados como Bahia, Sergipe e Alagoas emperram o processo.


Se o projeto for adiante, a princípio 45 metros cúbicos por segundo seriam desviado – o rio que possui vazão em torno de 2 mil metros cúbicos por segundo. As vazões seriam ampliadas de acordo com a demanda. Em 2025, a capacidade de bombeamento seria de 99 metros cúbicos por segundo para o Eixo Leste e 28 metros cúbicos por segundo para o Norte.



Especialistas vêem outras prioridades e combatem o projeto

De São Paulo


Polêmico por natureza, o projeto de transposição do São Francisco tem muitos críticos. Tecnicamente viável, ele envolve não só questões políticas, mas estratégicas e técnicas. As queixas contra a idéia vão desde a redução na produção de energia até questões ambientais. Além disso, existem teses segundo as quais a revitalização da bacia, somada a técnicas mais modernas e racionais de irrigação, poderia resolver o problema da região mais seca do Brasil.


Um dos maiores combatentes da transposição é João Suassuna. Professor, engenheiro agrônomo e pesquisador do Instituto de Tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco, um órgão federal ligado ao MEC, ele frisa que o rio é a única fonte de eletricidade do Nordeste. "O setor elétrico precisaria de dilúvios bíblicos para recuperar Sobradinho em seu volume e possibilitar a geração em Paulo Afonso", observa. Para ele, a saída está no planejamento hidráulico da bacia, que atenderia o uso na irrigação, na geração de energia e no abastecimento das populações. Haveria folga nos anos de muita chuva e nas secas a água seria economizada. "Sem planejamento, entregaremos a São Pedro", acredita.


Do outro lado da polêmica, o engenheiro do Ministério da Integração Nacional João Urbano Cagnin classifica o semi-árido como uma bomba-migratória devido à falta de perspectivas. Coordenador do Projeto do São Francisco, ele argumenta que a energia do rio já não mais atende o Nordeste e destaca que é necessário buscar alternativas. "São só 2% a serem retirados, e daqui a dez anos. Haveria tempo para construção de termoelétricas ou linhas de transmissão, vitais com ou sem transposição."


De qualquer forma, opositores cobram mais. É o caso do governo da Bahia, que pede estudos de viabilidade econômica, ambiental, técnica e financeira que comprovem a eficiência do projeto. "Mas os técnicos jamais conseguiram provar isso", diz o secretário de Indústria e Estrutura do Estado da Bahia, Roberto Moussallen. Em Pernambuco, um dos Estados beneficiados pela transposição, o secretário de Planejamento, José Arlindo Soares, faz uma ressalva: "O projeto é muito caro, faltam estudos sobre o impacto ambiental e sobre a própria sustentabilidade do rio, que passou recentemente por um pré-colapso", argumenta. Ele sugere a interligações de bacias como a saída mais adequada.


Engenheiro da Chesf e diretor da ONG Ilumina, João Paulo Aguiar conta que ao dizer o que pensa sobre a transposição num evento no qual se debatia a questão, levou vaias dos dois lados. Ele classifica como tecnicamente viável, mas pergunta: "Qual a garantia de que a água chegará a todos? Ela será destinada a grandes projetos ou o pequeno agricultor também terá direito?"


O Superintendente de Cobrança e Conservação da Agência Nacional de Águas (ANA), Antônio Félix Domingues, diz que, sem o rio, toda a área seria um deserto. Ele defende métodos modernos de irrigação, que necessitam de menores quantidades de água. "O segredo é reter água nas cabeceiras para que não vá embora nos meses de chuva, saindo ao longo do ano", diz. (M.C.P.)


Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *